Israel tarda em responder à proposta do Hamas

O grupo radical palestiniano aceitou a mais recente proposta de cessar-fogo para Gaza, mas, dois dias passados, o governo de Benjamin Netanyahu ainda não deu qualquer resposta. Israel pode querer impor a libertação de todos os reféns.

Israel tarda em responder à proposta do Hamas
Palestinians fleeing north Gaza move southward as Israeli tanks roll deeper into the enclave, amid the ongoing conflict between Israel and Hamas, in the central Gaza Strip November 10, 2023. REUTERS/Ibraheem Abu Mustafa TPX IMAGES OF THE DAY

O Qatar – país que se tem distinguido, juntamente com o Egipto, como um dos mais empenhados em mediar um cessar-fogo para a Faixa de Gaza – confirmou que o Hamas respondeu positivamente à última proposta, que inclui uma trégua de 60 dias, mas Israel ainda não respondeu. O arrastar da situação – que não impediu a acalmia na frente militar – indica, segundo os analistas, que o governo de Benjamin Netanyahu pode não estar interessado em promover um cessar-fogo, numa altura em que havia decidido tomar pelas armas o controlo total do enclave. Nos bastidores, diz a imprensa israelita, os extremistas de direita e os religiosos ortodoxos continuarão as suas tradicionais campanhas de oposição a qualquer entendimento com o Hamas (ou com qualquer força ou representação palestiniana), o que só dificultará o desenvolvimento do processo.

De acordo com o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Qatar, Majed al-Ansari, a proposta é “quase idêntica” à apresentada pelo enviado dos Estados Unidos para o Médio Oriente, Steve Witkoff, no final de maio. Ela inclui um cessar-fogo provisório de 60 dias, durante o qual ocorrerá uma troca de prisioneiros; as forças israelitas deverão ser reposicionadas em Gaza e a ajuda humanitária voltará a entrar no enclave, disse al-Ansari. Os detalhes exatos sobre o que diferencia esta proposta da versão anterior, que falhou, permanecem obscuros.

O governo israelita não respondeu oficialmente, mas os meios de comunicação israelitas, citando altos funcionários, sugerem que o governo está descontente com a troca limitada de prisioneiros e pode agora insistir na libertação de todos os 50 reféns israelitas como parte de qualquer acordo. De facto, os meios de comunicação israelitas noticiam que o governo insiste na libertação de todos os restantes 50 reféns como parte de qualquer acordo de cessar-fogo, o que parece sinalizar uma rejeição da mais recente proposta apresentada pelos mediadores, à qual o Hamas respondeu positivamente.

A emissora pública israelita Kan citou o gabinete do primeiro-ministro, enquanto a Israel National News e a agência de notícias AFP citaram um alto funcionário israelita a reafirmar a mesma posição.

O jornal Haaretz noticiou que o Coordenador de Israel para Reféns e Pessoas Desaparecidas, Gal Hirsch, dirigiu-se às famílias dos reféns mantidos em Gaza após a notícia da resposta do Hamas à proposta de cessar-fogo. “As discussões, os processos e as ações gerais relacionadas com os reféns e as pessoas desaparecidas a todos os níveis estão a decorrer 24 horas por dia e sob um total apagão mediático. Em geral, e especialmente numa altura como esta, é melhor que assim seja”, disse. Aparentemente, esta é a resposta possível ao crescente mal-estar social que atravessa a sociedade israelita por não haver um fim ao drama dos reféns. Manifestações de repúdio pela ação do governo têm-se multiplicado em várias cidades israelitas – mas aparentemente sem grandes efeitos. Ainda este domingo, dezenas de milhares de manifestantes saíram às ruas de várias cidades de Israel para pedir ao governo um cessar-fogo em Gaza que garanta a libertação dos reféns, uma exigência rejeitada pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. O Fórum das Famílias de Reféns, que convocou a jornada, estimou em cerca de 500 mil o número de participantes. Bloqueios de estradas em várias localidades, pneus em chamas e alguns confrontos com as forças de segurança marcaram o dia de mobilização.

“Aqueles que hoje pedem para pôr fim à guerra sem uma derrota do Hamas não apenas reforçam a posição do Hamas e afastam a libertação dos nossos reféns, mas também garantem que os horrores de 7 de outubro se repitam uma e outra vez, e tenhamos que lutar uma guerra sem fim”, afirmou Netanyahu numa reunião de gabinete. Ao mesmo tempo, o chefe do Estado-Maior, Eyal Zamir, reunia-se com responsáveis militares para discutir o plano que prevê a tomada de controlo da Cidade de Gaza, com o objetivo declarado de derrotar o Hamas e libertar os reféns ainda cativos no enclave. Entre os 251 reféns capturados no ataque de 7 de outubro, 49 ainda estão cativos em Gaza, dos quais 27 teriam morrido, segundo o exército israelita.

Já esta terça-feira, as forças israelitas fizeram explodir casas no sul da Cidade de Gaza, enquanto grandes incêndios foram avistados no bairro de Tuffah, no leste da cidade, elevando o número de mortos desde o amanhecer para 40 e mostrando que o plano de anexação está em andamento.

Entretanto, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Palestina apelou ao fim do que descreve como uma escalada de ataques de colonos na Cisjordânia. Em comunicado, o Ministério afirmou que encara “com a maior seriedade a escalada de violações, ataques e crimes cometidos por colonos contra cidadãos palestinianos, as suas terras e propriedades em toda a Cisjordânia ocupada”.

O ministério acusou os colonos de agirem “sob a proteção das forças de ocupação” enquanto procuravam impor o controlo sobre as terras palestinianas “pela força das armas”. Condenou o uso de tratores para abrir estradas para os colonatos na cidade de Deir Dibwan e nas áreas vizinhas, considerando-o “um ataque diário e contínuo aos cidadãos e às suas terras… com o objetivo de aprofundar e expandir os colonatos”. “Todas as ações unilaterais da ocupação são ilegais e não conferem qualquer legitimidade ou direito, de acordo com o direito internacional e as resoluções das Nações Unidas”, lembrou o Ministério. E pediu “medidas internacionais decisivas para proteger a oportunidade de implementar a solução de dois Estados e pôr fim aos crimes de genocídio, deslocação, fome e anexação”.

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