Islândia nega UE. Primeira-ministra fala em “vitória para democracia”

"Quero ser absolutamente clara: este Governo não retomará as negociações de adesão durante esta legislatura", afirmou a chefe de Governo, em conferência de imprensa, citada pela AFP.

Islândia nega UE. Primeira-ministra fala em “vitória para democracia”
Kristrún Frostadóttir

A primeira-ministra islandesa, Kristrún Frostadóttir, considerou hoje que a recusa decidida em referendo na Islândia para retomar as negociações para aderir à União Europeia foi “uma vitória para a democracia” e não “um revés”.

“Quero ser absolutamente clara: este Governo não retomará as negociações de adesão durante esta legislatura”, afirmou a chefe de Governo, em conferência de imprensa, citada pela AFP.

A atual legislatura a que se refere Frostadóttir tem duração prevista até 2028.

Os islandeses rejeitaram a reabertura das negociações de adesão à União Europeia (UE), de acordo com os resultados definitivos do referendo de sábado publicados hoje.

À pergunta “A Islândia deve reabrir as negociações de adesão com a União Europeia?”, 52,8% dos islandeses responderam “não” e 47,2% “sim”, noticiou a agência francesa AFP.

Os resultados foram divulgados pela televisão pública RÚV após a contagem de todos os boletins.

Os opositores à retoma das conversações com Bruxelas, interrompidas em 2013, somaram 118.040 votos face aos 105.339 dos partidários do “sim”, precisou a agência espanhola EFE.

O Governo de centro-esquerda da primeira-ministra social-democrata, Kristrun Frostadottir, prometeu respeitar o resultado do referendo, apesar de ter caráter consultivo. Nenhuma capital europeia reagiu de imediato.

O resultado do referendo representa um duro golpe para Bruxelas, que teria visto com bons olhos uma candidatura da rica ilha do Atlântico Norte, segundo a AFP.

A recusa deverá congelar qualquer discussão sobre uma adesão islandesa pelo menos até 2028, quando termina o mandato de Frostadottir.

O Governo disse que remeteria ao Parlamento a questão de uma eventual retirada formal da candidatura islandesa à UE.

A consulta de sábado estava originalmente prevista para 2027, mas foi precipitada por vários desenvolvimentos económicos e geopolíticos, com destaque para a ameaça do presidente norte-americano, Donald Trump, de tomar pela força a Gronelândia.

O território autónomo dinamarquês vizinho da Islândia ganhou importância numa altura em que o Ártico é muito cobiçado devido aos minerais raros e novas rotas comerciais.

As ameaças de Trump tiveram um impacto muito particular na Islândia, cuja defesa é assegurada pelos Estados Unidos e pela NATO. No entanto, a aproximação do presidente dos Estados Unidos em relação ao Árctico não aproximou os islandeses da União Europeia e para a maioria da população da ilha, esses argumentos ainda não foram suficientemente fortes para superar as preocupações com a soberania e o controlo nacional.

A posição estratégica da Islândia no Atlântico Norte ganhou, por isso, um novo peso. Para os defensores da adesão à UE, a postura dos Estados Unidos reforçou o argumento de que o país estaria mais seguro dentro da União.

A Islândia apresentou a candidatura à adesão na sequência da crise financeira global de 2008, que levou ao colapso do setor bancário do país, sobrecarregado pela dívida soberana. Na altura, a questão não foi levada a referendo.

Ao fim de anos de negociações, com a chegada ao poder de uma coligação eurocética, Reiquiavique enviou em 2015 uma carta a Bruxelas a informar que já não tencionava aderir ao bloco comunitário.

Na altura, a economia já tinha recuperado de forma robusta e o apoio público à entrada na UE esmorecera à medida que as negociações iam ficando bloqueadas na questão sensível das pescas.

Onze anos depois, os habitantes da pequena ilha vulcânica no meio do Atlântico Norte rejeitaram reabrir o processo de negociações, sem que isso represente uma recusa definitiva à adesão à UE.

“As pessoas devem encarar isto [referendo] como uma oportunidade, não como uma decisão definitiva”, afirmou a primeira-ministra antes da votação.

A Islândia está hoje estreitamente associada à UE ao integrar o Espaço Económico Europeu (EEE) e o espaço Schengen, nomeadamente, laços que permanecem inalterados.

Apesar de a campanha se ter centrado em questões económicas e internas, a guerra na Ucrânia e as ameaças da Trump em relação à Gronelândia, que confundiu várias vezes com a Islândia, deram à votação uma dimensão geopolítica.

“Tudo correrá bem também se o ‘não’ vencer”, prometeu a chefe do Governo no sábado, depois de ter votado numa escola da capital.

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