No passado dia 14 assistiu-se ao sell-off dos principais índices da bolsa de Nova Iorque, que registaram perdas na casa dos 3%. A lógica económica explica que a debandada dos investidores das cotadas norte-americanas se deveu à inversão da curva dos juros. Nesse dia de verão, as temperaturas subiram quando, ainda que temporariamente, as yields da dívida soberana norte-americana a dois anos ficaram acima das yields da dívida a dez anos. Este fenómeno – que os mercados encaram com um sintoma de recessão – não acontecia desde 2007. Mas, segundo os analistas consultados pelo Jornal Económico, o sell-off terá sido apenas o reflexo do pânico dos investidores.
“Creio que ainda estamos longe de uma recessão global”, frisa Carsten Brzeski, economista-chefe do banco ING Alemanha. “Ao invés, estamos a testemunhar a desaceleração da economia global e a estagnação da economia da zona euro”.
Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), o crescimento da economia mundial está em contração desde 2017. E, em julho, o FMI reviu em baixa a expansão económica global para 3,2% neste ano.
Como um ciclo vicioso, Brzeski alerta que a conjuntura atual é um “sinal claro” de um conflito que “apenas terá perdedores”. A estagnação na Europa e a contração económica na China, exacerbadas pela guerra comercial entre as duas maiores economias mundiais, vão penalizar os EUA. “Haverá menos procura pelos seus produtos e, consequentemente, a economia norte-americana vai arrefecer”, antecipa o economista-chefe do ING.
Apesar do cenário atual, João Pisco, head do Bankinter Research Portugal, salienta que “não estão reunidas as circunstâncias que costumam despoletar uma recessão”. E elencou: “Os níveis de dívida privada são hoje inferiores ao pré-crise e o seu custo está em mínimos históricos devido às políticas monetárias expansionistas.”
As recentes políticas dos bancos centrais demonstram o “estado de alerta” em que se encontram, reduzindo “a probabilidade de uma recessão”, diz Pedro Lino, analista da Dif Broker.
Em julho, a Reserva Federal norte-americana cortou as taxas de juro pela primeira vez em mais de uma década, baixando a taxa de juro directora em 25 pontos base. Em setembro, o Conselho de Governadores do Banco Central Europeu poderá seguir o mesmo caminho e voltar a cortar as taxas de juro, que já se encontram em mínimos históricos.
“O que os mercados estão a dizer é que em condições normais teríamos uma recessão em algumas economias da zona euro já no próximo trimestre. No entanto, a vontade dos bancos centrais e governos em estimular a economia e agirem rapidamente evitará uma recessão”, salienta Pedro Lino.
Sobre a recessão, a grande questão a saber “é quando e com que intensidade” chegará, assinala Filipe Garcia, economista e presidente da IMF – Informação de Mercados Financeiros.
“A resposta poderá variar tendo em conta a área geográfica. Na Alemanha estamos apenas a um trimestre de contração para chegar à recessão técnica. Nos Estados Unidos estaremos ainda longe e provavelmente só depois das eleições de 2020 isso poderá acontecer. E na China talvez não seja sequer uma hipótese”, acrescenta.
Mário Carvalho Fernandes, diretor de investimentos do Banco Carregosa, não afasta que “algumas economias possam enfrentar um período de recessão num futuro próximo” devido ao arrefecimento da expansão da economia global.
“De acordo com o modelo da Reserva Federal de Nova Iorque, que usa como informação os dados da curva de rendimento do mercado de obrigações do Tesouro dos EUA, existe uma probabilidade de cerca de 35% da economia norte-americana entrar em recessão nos próximos 12 meses”, realça.
Europa será a primeira a cair
A incerteza política tem consequências na economia. A guerra comercial entre os Estados Unidos e a China e as tarifas impostas por Donald Trump penalizam a estratégia das empresas no médio-prazo. Na Europa, a incerteza sobre o Brexit e a instabilidade política em Itália criam mais riscos para o Velho Continente numa altura turbulenta devido à ascensão do populismo e ao arrefecimento da economia.
A evolução da conjuntura mundial para uma recessão global “dever-se-ia a uma subida das tensões comerciais entre os EUA e a China ou outro risco geopolítico”, argumenta Carsten Brzeski. “Neste cenário, a zona euro seria a primeira vítima de uma recessão porque, entre as principais regiões económicas, foi a que registou a menor recuperação económica nos últimos anos, e é a economia mais aberta”, explica o economista-chefe do ING.
Na origem da travagem da zona euro está o ‘motor alemão’. “Os impactos mais visíveis da desaceleração têm sido mais evidentes em economias industriais e abertas, como a Alemanha”, refere Mário Carvalho Fernandes. “A contração da economia alemã em menos 0,1% no segundo trimestre do ano é uma primeira confirmação de que o abrandamento da produção industrial está a ser suficientemente forte para travar o motor económico da zona euro”, refere o diretor de investimentos do Banco Carregosa.
“Não se vislumbram ainda sinais de recuperação nos indicadores económicos já conhecidos do terceiro trimestre, pelo que existe uma possibilidade real de que a economia alemã contraia pelo segundo trimestre consecutivo”, alerta Mário Carvalho Fernandes.
O Governo alemão viu-se forçado a abandonar a postura austera que o tem caracterizado e o ministro das Finanças, Olaf Scholz, sugeriu um pacote de estímulos económicos no valor de 50 mil milhões de euros.
Neste contexto, a economia da zona euro “parece ser a que mais rapidamente caminha para uma recessão”, alerta João Pisco. “O BCE já esgotou as principais referências de política monetária que tinha ao seu alcance, sendo que qualquer nova medida menos convencional deverá ter um impacto muito limitado sobre o crescimento económico”, vinca.
As duas maiores economias mundiais parecem mais resilientes para fazer face a uma recessão. Pedro Lino e João Pisco concordam que a economia norte-america está melhor preparada para lidar com um cenário deste tipo. Se, por um lado, o setor financeiro dos Estados Unidos “está mais sólido” porque “passou por uma intervenção e reestruturação séria”, por outro “a Reserva Federal ainda dispõe de margem de manobra para atuar atempadamente caso ocorra uma deterioração mais acentuada do ciclo económico, sobretudo através de cortes de taxas de juro”.
A China está num estágio de desenvolvimento distinto do observado das economias avançadas, “apresenta um nível de crescimento estrutural mais elevado, pelo que nesta geografia a probabilidade de uma recessão será menor”. “O maior receio dos investidores resultará de um abrandamento mais abrupto do crescimento económico”, refere Mário Carvalho Fernandes.
No clima de desaceleração da economia, os agentes de mercado já estão a reagir. Por um lado, “a volatilidade dos mercados deverá aumentar”, aponta o diretor de investimentos do Banco Carregosa e, por outro, os mercados antecipam a manutenção das “taxas de juro muito baixas durante muito tempo”, diz Filipe Garcia. Para os investidores existirão sempre oportunidades. “As moedas mais fortes servem de refúgio, como o dólar, o euro, o iene e o franco suíço”, aponta o economista-chefe da IMF.
Por seu lado, João Pisco sugere uma estratégia de investimento cautelosa, tendo em carteira “ações de empresas mais defensivas, com negócios pouco ou nada cícilicos e que distribuam dividendos recorrentos”, diz. “Ha vários exemplos nos setores das utilities, saúde ou consumo de primeira necessidade”, defende o head do Bankinter Research Portugal.