O Goldman Sachs prevê que a indústria da música quase duplique a sua receita entre 2024 e 2035, de 105 mil milhões de dólares para 200 mil milhões de dólares, indica a edição de 2025 do relatório ‘Music in the Air’.
O documento salienta que apesar da indústria musical ter passado por um “soluço” em 2024, e apesar de um cenário económico “incerto” o mercado deve permanecer “resiliente” levando a que as receitas do setor quase que dobrem entre 2024 e 2035.
“De crescer a 15,6% em 2023, a indústria musical cresceu somente 6,2% em 2024, o primeiro ano em que as receitas ficaram abaixo das expetativas desde que a Goldman Sachs começou a antecipar as tendências do mercado. Isto deveu-se a um mistura de fatores estruturais, cíclicos, e pontuais”, referem os analistas Eric Sheridan e Stephen Laszczyk.
Apesar deste contexto o relatório diz que a indústria “tem um âmbito significativo” para aumentar o seu valor mesmo que o crescimento seja mais baixo face ao inicialmente antecipado.
Contudo, antecipa o Goldman Sachs, os drivers do crescimento devem ser diferentes face aos últimos cinco a 10 anos.
“Novos mercados de streaming, novos modelos para monetizar a música, conteúdos de vídeo, e superfãs, oferecem potencial para a indústria expandir as suas receitas”, antecipa o relatório.
Streaming está a abrandar e crescimento das receitas deve baixar
O relatório indica que o momentum dos serviços de streaming “abrandou” em 2024, em termos de receitas, em parte devido “à maturação da penetração do streaming pago nos mercados desenvolvidos, bem como à mudança dos subscritores para planos com desconto”.
Isto faz com que a Goldman Sachs baixe as suas previsões para o crescimento das receitas de streaming, através de planos pagos, para os 9% e 9,4% em 2025 e 2026 face às anteriores projeções de 10,9% e 9,9%. Mas mesmo assim os analistas antecipam que no longo prazo o futuro do streaming seja “robusto”.
O relatório refere que ao longo da década de 2010 os mercados desenvolvidos lideraram o crescimento dos subscritores, ao nível global, com a penetração a aumentar rapidamente de 3% para 38% entre 2014 e 2024.
Mercados em desenvolvimento devem liderar crescimento do setor
“Contudo este crescimento começou a desacelerar para a zona alta de dígitos únicos em 2023-2024 à medida que o mercado de streaming amadureceu. Antecipamos um crescimento para a zona média de dígitos únicos para mercados desenvolvidos como os Estados Unidos e o Reino Unido nos próximos cinco anos. A maioria dos mercados em desenvolvimento vai atingir um pico de penetração de cerca de 75% em 2035″, antecipa o Goldman Sachs.
O relatório salienta que em 2024 a penetração do streaming em mercados emergentes foi de 8%. A expetativa dos analistas do Goldman Sachs é de que esse valor suba para os 14% numa década, o que ainda deixa “um público inexplorado de biliões”.
Os analistas do Goldman Sachs referem que os mercados [em desenvolvimento] são “frequentemente mais sensíveis” ao preço, pelo que os fornecedores de streaming de música “podem ter de se esforçar mais” para transformar os ouvintes em subscritores pagantes.
“Mas o processo está em curso. No ano passado, segundo os nossos analistas, os mercados emergentes contribuíram com 60% dos novos subscritores”, indica a instituição financeira.
A média gasta nos Estados Unidos em serviços de música de streaming pago atingiu os 14 dólares, por mês, face aos 69 dólares para os utilizadores de streaming por via vídeo.
Relatório prevê aumento de preços
“Mesmo com uma grande ronda de aumentos de preços nas plataformas de streaming em curso, os nossos analistas acreditam que haverá aumentos mais regulares no futuro. Até à data, o streaming de música tem ficado atrás do streaming de vídeo on-demand em termos de preço; nos Estados Unidos, o preço da subscrição mensal para o streaming de vídeo tem aumentado 15% quase a cada dois anos na última década, enquanto os preços do streaming de música têm permanecido praticamente estagnados”, refere o relatório.
Setor deve encontrar oportunidades para rentabilizar superfãs
O relatório diz que o negócio da música deve encontrar “mais oportunidades” para segmentar as suas audiências e atingir os chamados superfãs, um segmento de público que estaria disponível para pagar um preço mais elevado por qualidade de áudio premium, acesso antecipado a produtos e eventos e conteúdos exclusivos.
“Os nossos analistas estimam que uma melhor monetização destes superfãs poderá acrescentar 6,6 mil milhões de dólares à receita do setor até 2035, um aumento de 21% na receita de streaming pago”, refere o relatório.
O mesmo documento adianta que nos Estados Unidos um em cada cinco ouvintes de música é considerado um superfã de pelo menos um artista, e que 30% dos ouvintes no Reino Unido caem nessa categoria de superfã.
Música ao vivo deve crescer acima de 7%
O Goldman Sachs projeta que a música ao vivo cresça 7,2% em termos anualizados entre 2024 e 2030.
“Isto é sustentado pela procura da geração Y e da geração Z. A indústria da música ao vivo demonstra resiliência em tempos de incerteza económica. Os gastos com música ao vivo nos Estados Unidos cresceram durante os recentes períodos de recessão. Por esta razão, a indústria registou um aumento de 76% na receita de bilhetes entre 2019 e 2024. Os bilhetes tornaram-se mais caros, aparentemente sem afetar o crescimento da música ao vivo. O preço médio do bilhete para um concerto numa das 100 maiores digressões mundiais era de 136 dólares em 2024 — 50% superior ao preço de 91 dólares em 2019”, revela o relatório do Goldman Sachs.
O relatório espera também outras “mudanças significativas” na indústria. Entre elas uma mudança para o vídeo, ou como descrito, “uma linha ténue entre diferentes formas”. Como uma forma de atrair novos utilizadores, o relatório diz que estamos a ver “mais players a disponibilizar conteúdos de vídeo nas suas plataformas” e que os streamers estão também a “combinar assinaturas de audiolivros e música” com o objetivo de unir estes dois públicos.
É ainda dito no relatório elaborado pela Goldman Sachs que apesar da inteligência artificial generativa já ter gerado preocupações sobre a “proliferação de nova música gerada” por inteligência artificial nas plataformas de streaming, ainda “não existem” evidência de que isso esteja a acontecer.
“Mas a inteligência artificial continua a ser um tema fundamental. O que estamos a ver é uma colaboração entre editoras musicais e plataformas para tentar proteger os interesses dos artistas das interrupções da inteligência artificial”, referem os analistas do Goldman Sachs, Eric Sheridan e Stephen Laszczyk.
O Goldman Sachs mudou também a sua previsão para o mercado de streaming com anúncios para um crescimento anualizado de 5,7%, entre 2025 e 2030, face aos anteriores 11,3%.
“Isto é um reflexo da pressão cíclica. Dadas as preocupações macroeconómicas, prevemos um crescimento mais lento para os anúncios no curto prazo. O modelo de receitas com anúncios levará tempo a melhorar, mas isso vai acontecer”, referiram Eric Sheridan e Stephen Laszczyk.