Funcionários do Google pedem a CEO: impeça uso militar de IA pelo governo dos EUA

Mais de 560 funcionários assinam carta aberta a Sundar Pichai após embate entre governo e Anthropic. Pedido ocorre num momento em que há rumores de que empresa está perto de fechar acordo com Departamento de Defesa norte-americano.

Funcionários do Google pedem a CEO: impeça uso militar de IA pelo governo dos EUA
106.502.419 dólares (95.698.103,15 euros)

Mais de 560 funcionários do Google assinaram uma carta aberta ao CEO Sundar Pichai pedindo que este CEO não permita que o governo dos Estados Unidos use a sua tecnologia de IA (inteligência artificial) em operações militares sigilosas.

“Queremos ver a IA beneficiar a humanidade, não sendo usada de formas desumanas ou extremamente prejudiciais”, dizia a carta, que foi enviada a Pichai nesta segunda-feira (27). “Isso inclui armas autónomas letais e vigilância em massa, mas vai além.”

“A única forma de garantir que o Google não seja associado a tais danos é rejeitar qualquer carga de trabalho sigilosa”, continuava. “Caso contrário, tais usos podem ocorrer sem o nosso conhecimento ou poder de impedi-los.”

As grandes empresas de tecnologia estão sob pressão para se posicionarem sobre o uso militar e de inteligência dos seus produtos de IA após o embate entre o Pentágono e a startup de IA Anthropic.

O CEO da Anthropic, Dario Amodei, recusou-se a dar ao governo acesso irrestrito aos seus modelos. Este insistiu em salvaguardas para impedir que recursos fossem usados em armas autónomas letais e vigilância doméstica em massa.

Em resposta, o governo classificou a Anthropic como risco à cadeia de suprimentos e o presidente Donald Trump ordenou que todos os departamentos governamentais parassem de usar o Claude, chatbot da empresa. A Anthropic contestou a classificação na Justiça.

Os funcionários da Alphabet estão a reagir a relatos de que o Google está perto de fechar um acordo com o Departamento de Defesa que permitirá que o seu modelo Gemini seja usado em operações sigilosas sem as salvaguardas formais que a Anthropic exigiu.

Uma pessoa que atua na campanha diz que situação não envolve apenas os militares, mas também a ameaça da vigilância com IA para a liberdade civil dos americanos, citando como a tecnologia é usada para apoiar o autoritarismo na China.

Funcionários da DeepMind, o laboratório de IA do Google, coordenaram a carta a Pichai, disseram duas das pessoas envolvidas. Dois quintos dos signatários trabalham na divisão de IA, com uma parcela semelhante na unidade de Cloud e o restante espalhado pela Alphabet.

Mais de 18 funcionários seniores —incluindo diretores principais, diretores e vice-presidentes— assinaram, disseram as fontes. Cerca de dois terços optaram por ser identificados, com o restante decidindo permanecer anônimo.

O cientista-chefe da DeepMind, Jeff Dean, tem sido o executivo mais vocal sobre o assunto até agora. Em fevereiro, este postou no X que “A vigilância em massa viola a Quarta Emenda e tem um efeito inibidor sobre a liberdade de expressão”. Ele acrescentou que ainda apoia um compromisso de 2018 de banir armas autônomas letais.

O Google já enfrentou protestos anteriores contra seus vínculos militares. Em 2018, vários funcionários pediram demissão e milhares assinaram uma petição contra o Projeto Maven, que usava IA para melhorar ataques com drones. O Google não renovou o contrato e prometeu não trabalhar com IA para armas ou vigilância.

No entanto, no ano passado, a empresa abandonou discretamente essa posição numa revisão dos seus “Princípios de IA”. A atualização excluiu a promessa de não buscar “armas ou outras tecnologias cujo principal propósito ou implementação seja causar ou facilitar diretamente danos a pessoas”.

O cofundador Demis Hassabis justificou a decisão dizendo que o mundo mudou desde que o Google adquiriu a DeepMind em 2014. Múltiplos modelos de fronteira agora estão amplamente disponíveis e as empresas de tecnologia dos EUA têm o dever de ajudar o país a se defender.

Uma segunda pessoa que assina a carta afirma que o grupo se inspirou no protesto anti-Maven e acrescenta que há quase consenso contra o programa na DeepMind.

A OpenAI enfrentou uma reação negativa de seus pesquisadores por fechar o seu próprio acordo com o governo logo após a proibição da Anthropic. Depois disso, o CEO Sam Altman desculpou-se, apelidando as suas ações de “oportunistas e descuidadas”.

“Tomar a decisão errada agora causaria danos irreparáveis à reputação, aos negócios e ao papel do Google no mundo”, conclui a carta. “Sabemos por nossa própria história que nossos líderes podem fazer as escolhas certas, para nós mesmos e para o mundo, quando há muito em jogo.”

Relacionado

Empresas ‘escondem’ três biliões de dívida ligada à IA

Empresas ‘escondem’ três biliões de dívida ligada à IA

Ruben Pires18 Ago
Em causa estão 1,9 biliões de dólares (1,6 biliões de euros) em compromissos de compras, que se traduzem em contratos para adquirir chips, servidores, e hardware a fornecedores, a que se juntam mais 1,2 biliões de dólares (um bilião de euros) em contratos de leasing que estão assinados, mas que ainda não se iniciaram, pelo que ainda não constam do balanço das respetivas empresas. As empresas em causa são: Microsoft, Amazon, Alphabet (que detém o Google), Meta, Oracle, Nvidia, Broadcom, AMD, e SpaceX.