Ainda todos estamos lembrados da forma como o Governo fez a festa, deitou os foguetes e apanhou as canas, relativamente ao cenário macroeconómico do país, falando de Portugal como uma exceção e um campeão – contracorrente – do crescimento económico na Europa. Antes o fossemos. Mas, infelizmente, os analistas mais lúcidos já vieram colocar essas declarações no lugar que lhes compete e que é, naturalmente, o da propaganda política.
Este mês, a mais recente Nota de Conjuntura emitida pelo Fórum Para a Competitividade foi bastante clara na desmontagem da autoelogiosa narrativa governamental. Nela, os analistas consideram que “Entre 2020 e 2022, Portugal terá crescido anualmente apenas uma décima acima da UE, o que, de maneira nenhuma pode ser confundido com convergência, porque a este ritmo iríamos demorar muito mais de cem anos a “convergir”, para além de descermos para um dos últimos lugares da UE”.
Mais ainda, acrescentam que “Dado que o ano de 2023 está rodeado de uma elevada incerteza, tanto poderemos ter uma recessão na economia portuguesa como um crescimento muito modesto.”. Em jeito de aviso, os analistas consideram ainda que “Enquanto em 2022 a política orçamental estimulou o crescimento económico, em 2023 o mais provável é que suceda o oposto” e que “Em 2024, é possível que a economia regresse a um crescimento em torno do seu potencial, que é baixo, porque não tem havido praticamente nenhuma medida para a promoção do seu aumento. Este é, em última análise, o grande drama da economia portuguesa e o principal obstáculo a uma convergência nítida com a UE”.
Em suma, o que a Nota de Conjuntura diz é que não têm existido – e não há sinais de que venham a existir a curto prazo – medidas verdadeiramente incentivadoras do crescimento económico, da competitividade e da convergência em termos europeus.
Esta crítica contundente coincide, aliás, com outras análises provenientes de diversas entidades, como a Ordem dos Economistas. No Relatório de Conjuntura Macroeconómica emitido em dezembro, o Bastonário António Mendonça destaca que “Tudo parece apontar para uma forte e generalizada desaceleração da atividade económica, variando o grau em que é considerada pelas diferentes projeções” e também ele avisa que a OE se manterá atenta “Não apenas para a análise e a intervenção no plano dos problemas conjunturais, mas, sobretudo, para a procura de soluções para os constrangimentos estruturais que persistem em condicionar as potencialidades do nosso tecido empresarial – a inovação, a eficiência da administração pública, a progressão de rendimentos, a própria ausência de definição de orientações estratégicas – que comprometem o desenvolvimento sustentado do país”.
É, pois, este o cenário com que iniciamos este 2023; o de uma ausência de estratégia e de medidas eficazes que assegurem o crescimento do tecido empresarial, levem para diante a otimização da administração pública e a desburocratização da máquina do Estado e possibilitem uma efetiva convergência nos termos da União Europeia. Longe estamos, portanto, do fogo de artifício socialista a que assistimos no final do ano. Mas, como já dizia o grego Péricles: “Nem um país é tão bom quanto diz a propaganda do seu governo, nem tão mau quanto os cidadãos dizem dele”.

Foi notícia neste jornal que Meta, dona do Facebook e do Instagram, foi alvo de uma deliberação por parte da União Europeia (UE) que considera que a empresa pode estar a forçar os utilizadores a “optarem” por ceder os seus dados para receberem anúncios personalizados, dando assim razão à Comissão de Proteção de Dados da Irlanda, que multara a Meta em 390 mil euros.
Este é um tema a seguir e que será muitas vezes notícia este ano, no braço de ferro existente entre a UE e as grandes multinacionais de dados. Do meu ponto de vista, a UE tem de pugnar intransigentemente pelos direitos dos dados dos cidadãos europeus. Felizmente a Web3 (terceira geração da Internet) vai permitir que cada um de nós seja proprietário dos seus dados, ao contrário do que acontece hoje.