Festival Imaterial: o mundo encontra-se em Évora

Na 3ª edição do Imaterial, de 19 a 27 de maio e já sob o signo da Capital Europeia da Cultura em 2027, a música vai ser o “cabeça de cartaz” de um festival que também traz na bagagem cinema, conversas e passeios pelo património.

Festival Imaterial: o mundo encontra-se em Évora
Master Musicians of Jajouka, Marrocos

O Festival Imaterial, que decorre de 19 a 27 de maio, traz o mundo a Évora. E além de querer ser um ponto de encontro entre passado, presente e futuro, o Imaterial tem a ambição de acontecer anualmente para celebrar o património imaterial nas suas várias vertentes, dentro e fora de muralhas.

E quando dizemos que o mundo se vai encontrar em Évora, não é exagero. Aliás, a diversidade geográfica rivaliza com a diversidade musical, do Burkina Faso, Burundi, Curdistão e Geórgia à Grécia, Índia, Irão, Letónia e Mali, passando por Marrocos, México e Portugal. À riqueza da diversidade soma-se a transversalidade das diferentes gerações de artistas, nomeadamente, jovens músicos como Ana Lua Caiano, Kaito Winse, Silvana Estrada, Kadinelia e Danûk.

A abertura do festival tem a chancela do Huelgas Ensemble, projeto originário da Bélgica, com um concerto único que decorrerá na Sé Catedral de Évora. O grupo traz ao Imaterial um espetáculo dedicado a Vicente Lusitano, compositor negro e por muitos considerado o maior compositor português do século XVI, pioneiro na música clássica europeia e que terá estudado em Évora.

O espírito da Capital Europeia da Cultura em 2027 também será celebrado pela Letónia, país que partilha com Évora o título de Capital Europeia da Cultura em 2027, e que estará presente no Imaterial com o grupo de vozes femininas Tautumeitas e temas do reportório tradicional letão. O resultado é uma música que, apesar das suas óbvias especificidades, se torna familiar de forma instantânea.

De Marrocos chegam-nos os Master Musicians of Jajouka, cuja sonoridade é como” encostar os ouvidos a uma música que sopra ao longo de séculos até chegar, finalmente, até nós”. Brian Jones, dos Rolling Stones foi quem primeiro mostrou ao mundo a hipnótica e ancestral tradição musical preservada pela família Attar, cujo magnetismo se deve também ao facto de ter sido passada de pais para filhos num lugar remoto.

De Portugal, Ana Lua Caiano, que representa o encontro entre a tradição e a contemporaneidade. É a representação de um Portugal remoto, mas também do cosmopolitismo, de um mundo aproximado pela tecnologia numa só voz. A sua música chega ao Imaterial na altura em que lança o seu segundo EP, o muito aguardado “Se Dançar É Só Depois”.

O Iberi Choir vem da Geórgia enquanto representante do canto polifónico georgiano, reconhecido em 2001 pela UNESCO como Património Imaterial da Humanidade. A improvisação é garantida e vai, seguramente, fazer jus a este género musical, recriando de forma única temas que fazem parte do património coletivo.

Sougata Roy Chowdhury traz-nos os sons da Índia, acompanhado por Nihar Mehta nas tablas. Sougata viveu uma infância dominada pela música clássica indiana, mas aos dez anos deixou-se seduzir pelo sarod e, em poucos anos, o seu talento transformou-o num dos mais admirados músicos da sua geração.

Do Irão chega ao Imaterial um dos mais conceituados intérpretes de kamancheh, Kayhan Kalhor. Em versão “trio”, aquele que é também um representante global da cultura iraniana, faz-se acompanhar por Kiya Tabassian e Behnam Samani sob o nome de “Art of Improvisation”.

Kaito Winse traz consigo a sonoridade do Burkina Faso, oferecendo ao público uma paleta musical à altura da sua voz extraordinária, veículo de uma inspiradora riqueza poética. Do México chega Silvana Estrada,  vencedora do Grammy Revelação em 2022, que premiou o seu álbum de estreia, “Marchita”, que teve como génese o desgosto amoroso, a que se seguiu o EP “Abrazo”, onde celebra o amor como força política.

La Kaita, cantora cigana nascida em Badajoz, representa a região da Extremadura. É uma das mais respeitadas vozes do flamenco tradicional e traz na bagagem jaleos e tangos, géneros típicos da Extremadura. Em Évora, esta cantaora atuará sem artifícios que desviem a atenção das suas poderosas interpretações vocais, acompanhada pelos guitarristas Miguel e Juan Vargas.

The Drummers of Burundi, um coletivo que honra os ritmos tradicionais do Burundi, vai levar também ao palco a música que acompanha vários rituais sociais ligados à vida em comunidade. Os tambores dos Master Drummers são feitos a partir de uma árvore endógena e que apenas existe no Burundi. Uma curiosidade: cada músico planta as árvores para os instrumentos dos que lhes irão suceder, numa lógica de renovação.

Os Danûk são um grupo de jovens músicos que recordam as suas origens e a pertença a uma História maior do que a sua através da música tradicional do Curdistão. Descobertos a tocar nas ruas de Istambul, foram chamados a compor e interpretar bandas sonoras para cinema e rádio, e acabaram por juntar-se ao multi-instrumentista e vencedor de cinco Grammys Michael League para gravarem o álbum “Morîk”.

Thanasis Zikas e Evi Seitanidou vêm da Grécia e apresentam-se como Kadinelia, cujo universo de guitarras acústicas e harmonias vocais da tradição musical grega de cruza com elementos de blues e rock. O Festival Imaterial encerra no dia 27 de maio ao som dos Ganhões de Castro Verde & Paulo Ribeiro, responsável por trazer uma certa renovação do reportório do Cante, trabalhando a partir de poemas de Manuel da Fonseca, João Monge, Tiago Rodrigues ou Patrícia Portela. Também o Património Cultural e Imaterial da Humanidade que é o Cante tem de abrir mundos ao seu mundo.

O Imaterial tem entrada livre e continua a honrar aquilo que esteve na sua génese, i.e., a atribuição, por parte da UNESCO, do estatuto de Património Imaterial da Humanidade ao cante alentejano, expressão musical maior da região do Alentejo, a que se veio juntar “a vontade de promover o diálogo entre esta música que soa à voz da terra trabalhada de sol a sol e tantas outras que, nas mais variadas geografias, corporizam os costumes locais”, como se lê no site do festival, organizado pela Câmara Municipal de Évora e Fundação Inatel, com produção executiva da Gindungo e a direção artística de Carlos Seixas.

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