Fernando Medina: “A Alemanha já deu provas que consegue dar a volta”

O antigo presidente da Câmara de Lisboa e ex-ministro das Finanças reflete sobre o problema da dívida pública americana e sobre o risco de o dólar deixar de ser a moeda de reserva global. Envolve a China neste xadrez em movimento permanente desde que Donald Trump escolheu um caminho pouco convencional ou arriscado para a economia americana. E defende que a União Europeia tem de seguir o plano Draghi.

Fernando Medina: “A Alemanha já deu provas que consegue dar a volta”
Fernando Medina

Os mercados desconfiam cada vez mais da capacidade de os EUA pagarem o montanha de dívida que têm e que vai aumentar mais ainda. Temem que haja uma qualquer espécie de ‘default’. Como avalia este risco?
O risco de um default no sentido exato do termo, ou seja, 0 não pagamento (ou adiamento) de parte do principal e ou dos juros é algo difícil de imaginar para um país cuja dívida está denominada na sua própria moeda e que detém por isso um banco emissor. O risco real que existe é de ser cada vez mais difícil aos EUA emitirem dívida a custos comportáveis para o andamento da economia. Na verdade, olhando para o stock de dívida, mas sobretudo para a dimensão dos défices e mais ainda para o total alheamento da administração americana quanto a este problema, é natural que os investidores possam vir a exigir juros mais elevados, o que, naturalmente agravará o problema.

Quais as consequências?
Os EUA verão a sua fatura com juros aumentar, e podemos assistir a uma desvalorização significativa do dólar com o consequente aumento da inflação. Contudo a consequência mais pesada será o da perda de confiança na condução da política económica norte-americana, que poderá levar a que o processo descrito possa ocorrer de forma mais acelerada ou até mesmo de forma algo descontrolada.

O apetite dos investidores em comprar ativos americanos, não apenas obrigações, também vai cair (mais ainda) por causa da instabilidade?
A situação nos mercados de ativos não é exatamente análoga à do mercado de obrigações. A economia norte-americana continua a deter uma quantidade incontável de ativos extremamente rentáveis e muito assentes nos mercados externos, e que até podem beneficiar de uma eventual depreciação cambial. Desta forma, investir dólares em ativos rentáveis denominados em dólares não deixará de continuar a ser uma boa opção para muitos investidores.

Kenneth Rogoffff defende que o default de 300 mil milhões de euros imposto à Rússia por causa da invasão da Ucrânia também aumentou a desconfiança nos mercados. Criou um precedente. A dívida externa detida pelos russos foi usada como arma por europeus e americanos…
Não ocorreu default de ativos russos detidos em euros, nem é expectável que venha a ocorrer, precisamente pelos riscos de destruição do sistema financeiro internacional. O que já ocorreu foi a utilização de rendimentos desses ativos, não o ativo em si, no que foi aliás uma decisão não isenta de dúvidas muito relevantes.

A China tem dois biliões de dívida americana. Janet Yellen, ex- presidente da Reserva Federal, diz que os chineses não vão tornar isto numa arma contra a América… inundando o mercado…
Percebe-se o argumento da ex-secretária do Tesouro e ex-Presidente da Reserva Federal. Inundar o mercado com títulos do tesouro, da qual a China é detentora em quantidades maciças, teria como consequência a desvalorização dos ativos que a própria China detém. Na prática, a atual política americana de descontrolo orçamental é, até certo ponto, uma política que serve bem os interesses chineses na medida em que irão exigir juros crescentes aos EUA e assim obterem mais recursos para financiarem as suas políticas internas. A ironia da situação é que neste momento os EUA estão objetivamente a melhorar a situação financeira chinesa.

E o contrário, é possível? Isto é, a América dizer que vai converter as obrigações detidas pelos chineses em dívida apenas com o compromisso de pagar dentro de 100 anos, sem direito ao pagamento de juros. Ou seja, um ‘default’ disfarçado. Que consequências teria para o mundo?
Esse cenário não seria um default disfarçado mas sim um genuíno, evidente e gigantesco default do dólar que levaria a consequências de tal forma negativas que se torna difícil antever.

A incerteza está por toda a parte. Uma delas, talvez das mais significativas, diz respeito, portanto, ao fim do dólar como moeda de reserva mundial. Vai acontecer?
O que muda do ponto de vista económico e geopolítico?
É difícil antecipar que se chegue a esse ponto de “im do dólar como moeda de reserva, até porque não se vislumbram alternativas credíveis. O mais provável que teremos é o aumento relativo do peso de outras moedas como moedas de transação e reserva, em especial em mercados/nichos específicos, mas sem que nenhuma detenha o estatuto de moeda global. Para o euro assumir esse papel seria necessário a existência de um Tesouro Europeu, e de uma divida europeia de dimensão significativa, o que não se vislumbra acontecer.

Teremos, a prazo, três moedas como reservas mundiais: euro, yuan e dólar?
O euro pode ganhar espaço, já que o yuan, que não flutua nos mercados, não oferece ainda a mesma solidez legal?
Como referi, esse é um caminho mais provável mas sempre com a forte presença do dólar face às limitações institucionais e de abrangência das outras moedas.

A UE, ainda assim, enfrenta riscos sistémicos: a crise económica estrutural alemã é uma forte ameaça à união?
A crise económica alemã não é uma ameaça à União. É uma realidade já bem descrita e reconhecida pelo sistema politico alemão, que detém hoje condições para a enfrentar com sucesso. Não será nem rápido nem fácil, mas se algum país já deu provas de conseguir dar a volta, este é a Alemanha.

Como deve reagir Portugal: estamos totalmente dependentes da UE, o que podemos fazer para ter uma via de saída, caso seja inevitável?
A Europa não está condenada a baixas taxas de crescimento e a baixos crescimentos da produtividade. O relatório Draghi aponta respostas muito concretas e eficazes, que vão desde a plena concretização do mercado único (de que ainda estamos tão longe…), à mobilização da poupança europeia para o investimento europeu. É essencial fazer o caminho.

Relacionado

Bundesbank diz que seca nos rios alemães dificulta recuperação económica do país

Bundesbank diz que seca nos rios alemães dificulta recuperação económica do país

Ruben Pires24 Ago
"A limitação das rotas de transporte utilizáveis ​​nos principais rios e o aumento acentuado dos custos de transporte provavelmente prejudicarão significativamente a produção industrial e o crescimento das exportações. Os baixos níveis de água também estão a ter um impacto considerável na atividade económica geral no terceiro trimestre", disse o Bundesbank, num relatório transcrito pela Reuters.