Extrema-direita está na luta pela vitória em dois estados de Leste

Lista da Alternativa para a Alemanha lidera as sondagens em Brandenburgo, até agora um feudo dos sociais-democratas. E também tem hipóteses na Saxónia, onde os democratas-cristãos cedem terreno.

Extrema-direita está na luta pela vitória em dois estados de Leste
Leitor 5d695f1f85b07 Afd.png

O partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) tem hipóteses de ser o mais votado nas eleições para os parlamentos dos estados de Brandenburgo e da Saxónia, que decorrem neste domingo, 1 de setembro. A vitória dos candidatos da AfD seria mais uma prova de que a retórica anti-imigração está a conquistar votos, nomeadamente em zonas do país que antes da reunificação pertenciam à República Democrática Alemã, embora não deva ter consequências práticas, pois não encontrarão aliados que lhes permitam governar o estado que envolve a cidade-estado de Berlim e aquele em que estão situadas as cidades de Dresden e Leipzig.

Apesar de a nova líder democrata-cristã Annegret Kramp-Karrenbauer, eleita após a chanceler Angela Merkel sair da presidência da CDU, ter endurecido a posição do partido em relação à imigração, a transferência de descontentes não dá mostras de parar, o que permite que a AfD tenha ligeiras chances de ser a mais votada na Saxónia. Revelada na terça-feira, a mais recente sondagem da INSA confere uma vantagem de quatro pontos percentuais aos democratas-cristãos, que lideram com 29%, contra 25% da extrema-direita, deixando a larga distância os esquerdistas da Linke (15%) e os Verdes (11%), e remetendo os sociais-democratas doSPD para a irrelevância dos 8%.

Os sinais de que a Saxónia continuará fiel a quem a governa desde a reunificação não escondem, porém, que a AfD mais do que duplicaria os 10% obtidos nas eleições de 2014. Todas as sondagens revelam que um em cada quatro eleitores do estado querem Jörg Urban como ministro-presidente, considerando o político de extrema-direita o mais preparado para responder aos seus problemas .

Ligeiramente menos capaz de convencer o eleitorado, mas muito mais próximo da vitória no domingo está Andreas Kalbitz, de 46 anos, que aparece empatado na primeira posição na última sondagem da INSA referente ao estado de Brandenburgo. Esse bastião social-democrata tem como ministro-presidente Dietmar Woidke, que volta a candidatar-se peloSPD, mas deve ficar dependente de uma grande coligação com a CDU ou com os Verdes, pois a atual aliança com a Linke dificilmente chegará para obter maioria no parlamento regional.

Tanto a AfD como o SPD têm agora 21% nas intenções de voto em Brandenburgo, o que representa uma subida de nove pontos percentuais para a extrema-direita e uma queda de 11 pontos para os sociais-democratas. Kalbitz chegou a liderar destacado, com uma sondagem da Forsa, conduzida nos últimos dias de julho e nos primeiros de agosto a dar-lhe os mesmos 21%, mas com três pontos de vantagem sobre a CDU e quatro pontos sobre oSPD. No entanto, os partidos tradicionais estão a conseguir mobilizar eleitores descontentes e pouco convencidos com a sua atuação, mas querem pretendem aquilo que consideram ser um mal maior.

Para isso contribuíram as notícias sobre as ligações neonazis do candidato da AfD à presidência do estado que faz fronteira com a Polónia. Desde os anos 1990 que Kalbitz tem um historial de pertença a associações consideradas revisionistas em tudo o que diz respeito ao Holocausto e altamente vigiadas pelas autoridades germânicas. Isso explica que tenha sido fotografado em 2007 num evento de um movimento juvenil neonazi. “Podem acusar-me de ter ligações a extremistas de direita, mas certamente que não podem dizer que a minha biografia é de extrema-direita”, disse quem espera que os resultados em Brandenburgo, na Saxónia e na Turíngia (que vai às urnas a 27 de outubro) façam passar “um sinal a todo o país” que o partido pode vencer eleições.

Mesmo assim, as sondagens a nível nacional mantêm a AfD nos 15% nas eleições que só deverão realizar-se no outono de 2021, quando Angela Merkel terminará o último mandato enquanto chanceler, concentrando as preferências na CDU de Annegret Kramp-Karrenbauer e nos Verdes, liderados por Annalena Baerbock e Robert Habeck. Tendo os democratas-cristãos (em conjunto com o ramo bávaro da CSU) apenas 26% nas intenções de voto, contra 24% dos Verdes, a solução de governo em Berlim seria complexa, envolvendo ainda oSPD em profunda crise (13%), os liberais do FDP (8%) e a esquerda da Linke (8%). Mas nos próximos dois anos muita água poderá passar pela economia alemã, à beira da recessão.

Relacionado

Covid-19: Somos todos Itália

Covid-19: Somos todos Itália

O coronavírus é um enorme desafio para a União Europeia: será capaz de manter a coesão num cenário de catástrofe? Ocaso de Itália, para já o mais extremo, serve como barómetro, e também como laboratório para os restantes países. As consequências serão, tanto em termos económico como políticos, tremendamente impactantes e absolutamente negativas. O conjunto de países terá de descobrir forma de ultrapassar uma ameaça que nunca antes aconteceu e para a qual não existe ‘jurisprudência’.