Por muito que a Comissão Europeia e o Conselho Europeu tentem dizer o contrário – é esse o papel de ambos – a Europa, que ainda se conta a 28, está numa encruzilhada e enfrenta as maiores dúvidas sobre o seu futuro. A ter um. Não há como desmentir: um dos seus membros está de saída – logo um dos que mais dificuldade teve em ingressar no ‘clube’; ninguém está com muita pressa para entrar (os países dos Balcãs); há mesmo quem já tenha desistido de todo de o fazer (a Turquia); e o Parlamento Europeu ficou subitamente a abarrotar de eurocéticos em alegre confraternização com os antieuropeístas. É impossível outro diagnóstico que não seja a existência de uma doença, possivelmente prolongada e de final incerto.
As causas profundas da crise são, para os analistas destas coisas, uma enorme surpresa: a questão dos refugiados. Convém recordar que em 2015 a Europa – sempre levemente distraída, dado que o ano anterior tinha sido ainda pior – estava em pleno período de crescimento económico quando se sentiu repentinamente invadida por uma interminável fila de famintos e andrajosos, que recebeu como se estivesse perante uma horda de bárbaros bem armados e peritos em saque e pilhagem.
A questão dos imigrantes e refugiados não se colocava, portanto, no plano da partilha de migalhas e muito menos ainda da sobrevivência. Era apenas uma questão de gosto e requinte: é maçador ver as nossas belas cidades, cheias de palácios, catedrais e turistas embasbacados a admirarem a nossa história (que quase ninguém conhece), infestadas por gente que tem o aspeto de ter chegado mais ou menos viva à última fronteira.
Como é maçador, a Europa pagou – literalmente – à Turquia, bem mais habituada a famintos e andrajosos, para que tomasse conta dos despojos das guerras, das fomes e do geral desinteresse europeu em relação aos azares do mundo desde que sucedidos em outros continentes.
A morte
De algum modo, como disseram tantos analistas – entre eles o embaixador Francisco Seixas da Costa ao JE –, o que primeiramente morreu na fronteira entre a Europa e a Turquia foi uma ideia de Europa solidária, unificada e coesa, ideia essa que havia servido de esteio a um continente que tinha saído literalmente devastado da II Guerra Mundial.
Mas mais de 70 anos de paz (tirando a vergonha dos Balcãs) parecem ter feito mal à Europa: aburguesou-se, ganhou peso, tornou-se preguiçosa, não perdeu sobranceria – e tudo isso foi mais que suficiente para perder densidade intelectual e tornar-se cada vez mais uma irrelevância a nível global. Isto sim, coisa inesperada: em 1989, quando aos saltos de contentamento os europeus comemoravam a queda do muro de Berlim achando que agora seriam eles e os americanos, surgiu sabe-se lá de onde a China, numa amálgama confusa entre capitalismo e comunismo a que rapidamente foi vaticinado fim iminente. O melhor era prolongar um pouco mais a festa, que a vez da Europa haveria de chegar. Não chegou.
A irrelevância
E agora sim, neste quadro de irrelevância – em que verdadeiramente ninguém liga muito ao que diz a Europa se tal coisa não se revelar estritamente necessária (como é, neste momento, o caso do Irão) – os europeus perceberam que afinal de contas têm que defender com ‘unhas e dentes’ o pouco que lhes resta defender como seu. Daí, dizem os estudiosos, o surgimento – primeiro em bolsas bem identificadas e inteligíveis, finalmente por todo o lado – de extremismos de direita que se vão tornando cada vez mais significativos.
A entrada destes extremistas no Parlamento Europeu, desde logo com capacidade de dispor, pelo seu peso político, de acesso direto aos gabinetes do poder e com o intuito expresso de mudar o continente a partir do interior (como disseram sem margem para dúvidas tanto Marine Le Pen como Matteo Salvini), deitou por terra o conceito de Europa que era subjacente às iniciativas dos último executivos comunitários (desde pelo menos a primeira Comissão Barroso).
Como parece claro, a Europa das federações há já muito que foi barbaramente assassinada, e com ela a justiça que em princípio a união bancária patrocinaria, primeiro passo para uma mais difícil mas possível união fiscal – essa sim, forma de aproximar os rendimentos dos Estados-membros de maneira bem mais perene do que, por exemplo, a disparatada uniformização dos salários mínimos.
O pilar da defesa comum é outro dos mortos recentes – a não ser que haja uma boa explicação para o facto de o exército europeu (anunciado e com financiamento previsto e detalhado) ter de repente deixado de ser motivo de conversa entre os líderes da União, como se nunca tivesse existido.
Inversamente ao que estava previsto há tão pouco tempo, por exemplo no Tratado de Lisboa, a Comissão Europeia vê-se agora confrontada com a inesperada função de tentar manter a democracia à tona da água – face à evidência do acelerado processo de desenvolvimento de soluções limitativas. E não parecem restar dúvidas que a iniciática ideia de Europa precisa de democracia para ser exequível.
A geografia dos países onde a extrema-direita e/ou direita ultraconservadora domina, pode vir a dominar ou já é relevante, é a seguinte: Espanha, França, Alemanha, Itália, Áustria, Finlândia, Dinamarca, Hungria, Reino Unido, República Checa, Bulgária, Eslováquia, Eslovénia, Lituânia, Polónia, Croácia, Estónia, Letónia, Bélgica, Holanda, Suécia, Chipre e Grécia. Por questões de espaço, mais valia ter ido pelo lado contrário: só Portugal, Irlanda, Luxemburgo, Malta e Roménia estão para já a salvo do fenómeno.
As enormes dificuldades de substituir a Comissão Juncker pela Comissão van der Loyden foi o corolário patusco e risível de uma movimentação intra-europeia que não estava escrita em lado nenhum e que, por isso, ninguém sabia enfrentar, como ninguém sabe ainda.
Parece evidente – mas cada vez para menos europeus – que o ‘deslace’ da União Europeia a tornará cada vez mais irrelevante em termos do globo, o que vai acabar por acentuar os sintomas desta doença transversal aos 28. No limite, dizem os mais céticos (não confundir com os eurocéticos) é a própria União Europeia, o seu projeto e a forma de lá chegar, que está em causa. E por muito que ela, a União Europeia, não acabe, o certo é que, lá atrás no tempo mas não muito, houve um desvio que se consubstanciou a 26 de maio passado (data das eleições para o Parlamento Europeu), o dia a partir do qual a União Europeia nunca mais será a mesma.