EUA: consumo em queda corta perspetivas de crescimento para 2026

O aumento dos custos energéticos e da inflação coincide com a redução do crescimento do rendimento real, o que leva a uma revisão em baixa da previsão de crescimento do consumo para este ano, para 1,7%, menos 0,2 pontos percentuais.

EUA: consumo em queda corta perspetivas de crescimento para 2026
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O aumento dos preços da energia, acompanhado por efeitos inflacionistas secundários, chegou numa altura em que as famílias americanas assistem a um crescimento reduzido do rendimento real. Os dados dos dois primeiros meses do ano apontam para um crescimento do consumo de não mais de 1% anualizado no primeiro trimestre, face a uma dinâmica de rendimento real muito fraca, anterior ao impacto no poder de compra devido ao choque petrolífero. Consequentemente, as perspetivas para o consumo enfraqueceram: “prevê-se que as compras aumentem apenas até 1,7% em 2026, em comparação com o período homólogo, menos um ponto percentual do que o aumento observado em 2025. Esta perspetiva moderada para o consumo é o principal fator por detrás da revisão em baixa da previsão de crescimento para 2026, que está agora ligeiramente abaixo do consenso, em 2,3%, face aos 2,5% anteriormente previstos”, refere Paolo Zanghieri, economista na consultora Generali AM.

O fator que mais contribui para a desaceleração do crescimento do consumo é a deterioração do mercado de trabalho. “A criação de emprego no sector privado praticamente estagnou, exceto na área da saúde, e em fevereiro, a taxa de contratação atingiu o seu nível mais baixo desde abril de 2020”, no período da pandemia. Embora os despedimentos e os pedidos de subsídio de desemprego permaneçam em níveis historicamente baixos, este equilíbrio entre contratações e despedimentos mínimos é precário”, refere o analista. Caso a atividade económica enfraqueça ainda mais, é provável que se verifique um aumento dos despedimentos.

Com o crescimento nominal dos salários em queda e a inflação persistente, o rendimento real está sob pressão. Consequentemente, o crescimento do consumo foi mantido através da convocação de poupanças. “Nos três meses do ano, a taxa média de poupança foi de 4,1%, o que representa dois pontos percentuais abaixo da média pré-pandemia e um ponto percentual abaixo da média desde 2023”. Embora os bancos estejam a restringir os critérios para os cartões de crédito, “o incumprimento mantém-se em níveis historicamente elevados e é pouco provável que desça significativamente”, dados os problemas no mercado de trabalho.

Ricos e pobres

A quota de consumo dos 20% de norte-americanos mais ricos aumentou de 55% em 2019 para 59% em 2025. O padrão divergente começou a surgir desde 2023. A riqueza cresceu acentuadamente, “mas a sua distribuição tornou-se ainda mais desigual. Os ganhos com a subida dos preços das ações beneficiaram principalmente as famílias com rendimentos mais elevados, não só impulsionando o património líquido, mas também aumentando o seu acesso a ativos líquidos que podem financiar o consumo”, refere Paolo Zanghieri.

Depois da rápida reabertura pós-pandemia, esta tendência inverteu-se com a diminuição da procura de mão-de-obra, o que se torna evidente com a forte desaceleração do crescimento dos salários dos trabalhadores com baixos rendimentos. “Um mercado de trabalho fraco garantirá que uma maior proporção dos ganhos de produtividade se acumula em lucros em vez de salários. Além disso, o impacto no rendimento real é intensificado pelo facto de os cabazes de consumo das famílias de baixo rendimento serem ponderados em relação aos bens cujos preços aumentaram mais devido às tarifas”.

Além disso, as famílias com baixos rendimentos serão impactadas de forma desproporcional pelo aumento dos preços da energia e dos alimentos, uma vez que os gastos com estes bens essenciais não podem ser facilmente reduzidos, obrigando a cortes nas compras. Algum alívio pode surgir dos cortes de impostos previstos no Orçamento, que são parcialmente compensados ​​pelas reduções nas despesas sociais. “Com o aumento da procura de despesas de segurança, não há margem para novas medidas de apoio ao rendimento disponível antes das eleições intercalares de novembro”.

Consequentemente, a perspetiva para o poder de compra das famílias de baixos rendimentos deverá deteriorar-se. Em 2024, os 40% das famílias mais pobres representavam 23% do consumo, enquanto os 20% mais ricos representavam 40%.

“Esperamos que a economia dos EUA cresça um pouco abaixo do potencial, apesar do grande choque que enfrentou no último ano. Ainda assim, a persistente fraqueza no consumo é uma importante fonte de fragilidade e, juntamente com a incerteza sobre a magnitude e a duração do choque petrolífero e a dependência do investimento em inteligência artificial, são outros fatores de instabilidade.

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