Joana Santos Silva, CEO e Professora, ISEG Executive Education

Espelho meu, espelho meu, haverá alguém mais feio do que eu?

O autor Ian Mortimer afirma que antes da invenção do espelho, o conceito de identidade individual nem existia. O que fazer para evitar o destino de Narciso?

No verão de 2020, houve um aumento em mais de 50% de procura por cirurgias estéticas ao rosto. Os pacientes estavam dispostos a correr o risco de uma intervenção cirúrgica em plena pandemia pois eram confrontados (em demasia) pela sua própria face. 86% dos indivíduos referiram que as horas intermináveis em videoconferências motivaram a ida ao dermatologista ou cirurgião plástico, e assim nasce um síndroma novo – a dismorfia do Zoom.

As câmaras dos nossos computadores não são nossas amigas – ângulos próximos (muito próximos) e pouco favoráveis, e uma câmara frontal que pode deformar os traços do rosto são ingredientes perfeitos para alimentar uma perceção mais negativa do nosso semblante do que a realidade. Se, por um lado, a exposição ao nosso próprio rosto é atualmente desmesurada, por outro, a maioria de nós não está ciente de que existe distorção na captura destas imagens – narizes maiores, olhos mais pequenos, papadas, bandas no pescoço, má iluminação… é como se estivéssemos a ver-nos num espelho de um parque de diversões.

Apesar de ter começado com a pandemia, esta síndroma não parece ter um efeito temporário. Podemos desligar a câmara e a videochamada, mas não podemos “desligar” a distorção a respeito da nossa autoimagem de forma tão simples. Estima-se que 48% dos adultos e 66% das crianças têm sentimentos negativos a respeito da sua imagem corporal.

Hoje, somos confrontados com a nosso reflexo em demasiados contextos – espelhos, chamadas de videoconferência, redes sociais, etc. O mundo digital prioriza conteúdos visuais acima de tudo e vivemos numa cultura em que a beleza e juventude é sinónimo de poder. Assim, esta exposição aumenta o escrutínio que temos sobre a nossa imagem e cria uma pressão desmesurada na procura da “perfeição da imagem”. Adicionalmente, os milhares de filtros que permitem “melhorar” a nossa aparência digitalmente apenas alimentam mais a dissonância entre a nossa perceção e a nossa realidade.

Quando vemos a nossa própria imagem ativamos uma área no cérebro chamada área da face fusiforme que aumenta a autoconsciência. Tal pode ser importante para o desenvolvimento, mas quando em demasia também amplifica a autocrítica e uma obsessão pela autoimagem.

No passado, não tínhamos a possibilidade de nos olharmos com frequência ou com nitidez. O autor Ian Mortimer afirma que antes da invenção do espelho, o conceito de identidade individual nem existia. Os espelhos introduziram, pela primeira vez, a capacidade de nos olháramos e perceber as nossas expressões e características únicas.  Hoje, vivemos num loop de autocrítica que cria uma crise de autoestima.

O que fazer para evitar o destino de Narciso? Devermos despriorizar a importância da imagem e conformismo de padrões de beleza? Devemos simplesmente desligarmo-nos da tirania da câmara? Seja qual for a solução, esta exposição permanente não nos é favorável e está a agudizar os sentimentos negativos com o próprio e a primeira etapa é tomar consciência do tema. Assim, não se esqueça: as câmaras não são amigas, pois elas “mentem” e você é muito mais belo do que a sua selfie!

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