Naiole Cohen, Economista, Professora na Universidade Agostinho Neto, Luanda

ESG verdades incómodas

ESG pode tornar-se mais um obstáculo para as Áfricas acederem ao financiamento? Sim, se for aplicado como uma nova condicionalidade externa, desenhada fora do continente, com métricas caras, complexas e pouco sensíveis às realidades das 'Áfricas'.

As Áfricas estão a ser chamadas a provar sustentabilidade perante um sistema que enriqueceu poluindo, explorando recursos e financiando-se de forma barata. Agora, as Áfricas querem industrializar-se, transformar matérias-primas, construir estradas, processar alimentos e criar fábricas, e aparece uma nova linguagem: o ESG.

O problema não é o “E”, o “S” ou o “G”! Ninguém sério pode ser contra o ambiente, a inclusão social e a boa governação. O problema é quem define as regras, quem mede, quem cobra, quem lucra e quem fica excluído.

Risco climático, taxonomia verde, relatórios ESG, carbono incorporado, rating soberano, due diligence, disclosure, salvaguardas, compliance, enfim! Muitas normas para as Áfricas que transformam uma agenda moralmente correcta, como a sustentabilidade, numa nova barreira financeira, técnica e comercial criada por quem já se industrializou. Vejamos, a Europa sofre com o rápido aumento das temperaturas e ondas de calor sufocantes agravadas por massas de ar vindas do norte das Áfricas. As Áfricas, que só contribuem com menos de 4% das emissões globais de carbono[1], enfrentam impactos muito mais severos, combinando secas severas, ciclones e inundações catastróficas que ameaçam a segurança alimentar e a sobrevivência de milhões.

São factos com evidências formais e, portanto, a pergunta que não se cala é: o ESG pode tornar-se mais um obstáculo para as Áfricas acederem ao financiamento? E a resposta é SIM; se for aplicado como uma nova condicionalidade externa, desenhada fora do continente, com métricas caras, complexas e pouco sensíveis às realidades das Áfricas.

O ESG virou passaporte financeiro, pois já não basta apenas de demonstrar viabilidade económica; é preciso provar que se cumpre com normas ESG e os standards internacionais de sustentabilidade, como as IFRS S1 e S2, que exigem divulgação sobre governação, estratégia, gestão de risco, métricas e metas relacionadas com sustentabilidade e clima. O problema não é apenas “ser sustentável”. O problema é provar a sustentabilidade segundo padrões internacionais complexos.

O mecanismo europeu CBAM, por exemplo, entrou no regime definitivo em 1 de Janeiro de 2026 e aplica custos associados ao carbono em certos produtos importados para a União Europeia. Isto pode afectar exportadores das Áfricas de sectores como cimento, alumínio, fertilizantes, ferro, aço e electricidade, se não tiverem capacidade técnica para medir e reduzir emissões. Para a Europa, isto é, política climática. Para África, pode ser uma nova barreira comercial.

Sobretudo, agora que as Áfricas precisam de deixar de exportar matéria-prima bruta e começar a transformar se esses sectores forem penalizados antes de amadurecerem, a mensagem é simples: “vocês podem exportar matéria-prima, mas não podem industrializar sem pagar portagem climática”. É aqui que o ESG deixa de ser ético e passa a ser geopolítica.

As Áfricas não devem rejeitar o ESG, apenas precisam de uma versão menos injusta, cara, importada e punitiva. As Áfricas precisam de uma agenda ESG proporcional, desenvolvimentista e que diga que o ambiente importa, mas o emprego também; o carbono importa, mas a pobreza energética também; a transparência importa, mas o custo de reporte também; a transição importa, mas quem causou a crise deve pagar mais pela solução.

Não queremos ser radicais, mas o ESG pode transformar-se no novo nome da desigualdade financeira global.

[1] Global Carbon Budget: países africanos têm contributos históricos extremamente reduzidos para as emissões globais desde 1750.

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