Certo dia, no contexto de uma negociação importante de um contrato relevante, e isto apenas para que se fique com uma ideia da escala, sugeri a Francisco Pinto Balsemão que se juntasse na reunião seguinte com o argumento de que a sua presença sublinharia a importância que aquele negócio tinha para o Grupo Impresa.
De cigarro entre os dedos, sempre sorridente, respondeu como habitualmente fazia às pessoas que tinha a trabalhar consigo: “Se acha importante, com certeza que estarei”. Balsemão era assim: disponibilidade total para o seu grupo, confiança nas pessoas com quem trabalhava.
Informada a outra parte da sua relevante presença, rapidamente propuseram que a reunião fosse então realizada durante um almoço na presença de ambos os presidentes, o nosso, Balsemão, e o deles.
Marcaram para as suas próprias instalações. Balsemão ligou-me. Ria-se, explicando a impressão que lhe fazia esta moda dos almoços nos escritórios, sem janelas e sem outras pessoas, fechados ao mundo.
“Mas vamos lá a isso”, concluiu. Balsemão era assim: não impunha os seus hábitos, não forçava a sua presença, mas não escondia o gosto que a vida lhe dava e o prazer que era possível retirar de tudo, incluindo de um almoço de trabalho.
O contrato, escusado será lembrar, fechou-se com sucesso. Ao longo dos anos em que trabalhei no Grupo Impresa, na administração que Pedro Norton liderava com grande eficácia, retive, além do muito que aprendi, o enorme prazer que Balsemão colocava em tudo o que fazia.
Uma vez, no princípio do digital, de que ele era grande dinamizador, coube-nos procurar um modelo comercial que, indo ao encontro das expectativas do mercado, fosse capaz de contornar o difícil desafio de um preço que colapsava por força de um inventário que, online, é tendencialmente infinito.
Chegámos a um modelo que nos parecia inovador e queríamos discuti-lo com quem também pensava nestes desafios: Balsemão agarrou no telefone e agendou reuniões de trabalho nos principais grupos europeus de media. Os maiores. A voz dele era assim: reconhecida e respeitada num mundo de gigantes, entre iguais.
Antes da partida, colocando gelo no seu copo de água na enorme mesa onde reunia a administração, disse qualquer coisa assim – vejam lá se almoçam com alguns deles, celebrem, vão estar a tentar descobrir o futuro. Balsemão gostava do que era novo. Procurava o que era novo. E celebrava tudo.
Como daquela vez que ligou para o meu gabinete, divertido, para dizer que gostava muito de ter ouvido dizer que, umas noites antes, soubera que eu dançava animado na boîte de uma estância de ski. Já o disseram: não se levava demasiado a sério, sendo no entanto absolutamente sério em tudo o que fez.
Estas minhas histórias, naturalmente irrelevantes na história que Balsemão deixa ao país, revelam esse traço que por estes dias tão sublinhado tem sido – aquilo que fazia, além de fazer muito bem, era feito com entusiasmo genuíno e um sentido de liberdade muito especial. Tudo o resto que se tem dito sobre ele, sobre o impressionante legado que a sua vida nos deixa, é tal qual disse Maria João Avillez: não tem ponta de exagero.