Emirados Árabes Unidos escondem emissões de metano à ONU

Petrolífera estatal, cujo líder presidirá a COP28 em dezembro, é acusada de estabelecer metas de redução "incoerentes" e de esconder emissões que deviam ser acrescentadas às estatísticas.

Emirados Árabes Unidos escondem emissões de metano à ONU
Arabia Saudita Petroleo

Os Emirados Árabes Unidos, que organizarão a cimeira climática da ONU COP28 em dezembro próximo, não comunicam as suas emissões do gás metano, com efeito de estufa, à ONU há quase uma década, revela o jornal britânico “The Guardian” na sua edição desta quinta-feira.

A empresa estatal de petróleo, a Adnoc, cujo presidente-executivo, Sultan Al Jaber, presidirá à cimeira do clima, estabeleceu uma meta de vazamento de metano muito maior que o nível que afirma já ter atingido. Al Jaber pediu recentemente aos países e empresas que sejam “brutalmente honestos” sobre a matéria, mas, pelos vistos, a recomendação não abrange a sua própria empresa.

Al Jaber, que conta com o apoio dos Estados Unidos e da União Europeia, é acusado pelos críticos de manter perspetivas de uma enorme expansão da produção de petróleo e de gás natural contra os conselhos dos cientistas e as decisões da ONU.

O metano é responsável por cerca de um quarto do aquecimento global, e os vazamentos da exploração de combustíveis fósseis são uma fonte fundamental do sobreaquecimento planetário. Reduzir essas emissões é uma forma rápida e de baixo custo de desacelerar o aumento da temperatura.

O órgão climático da ONU exige que os países apresentem as suas emissões de metano a cada dois anos desde 2014. Os Emirados Árabes Unidos não apresentaram nenhum relatório, ao contrário de outros países produtores do Oriente Médio, incluindo Arábia Saudita, Kuwait e Omã.

A Adnoc anunciou em outubro de 2022 que pretendia limitar os vazamentos a menos de 0,15% do gás produzido até 2025. No entanto, a estimativa da empresa para o seu nível de emissões em 2022 foi de 0,07%, anunciado após uma reunião do conselho da empresa, presidida pelo príncipe herdeiro dos Emirados Árabes Unidos, Khaled bin Mohamed bin Zayed.

A meta de 0,15% de metano é também maior que o nível alcançado em 2019 pelo Qatar (0,06%) e pela Arábia Saudita (0,14%), de acordo com uma análise de satélite publicada recentemente por cientistas da Universidade Harvard. O estudo revela que os vazamentos de metano dos Emirados Árabes Unidos em 2019 foram de 3,3%: “estes altos valores [nos Emirados Árabes Unidos e em outras nações] refletem infraestrutura vazada combinada com ventilação deliberada ou queima incompleta de gás”, diz o estudo.

Em julho, a Adnoc antecipou a sua meta geral de emissões líquidas ‘zero’ de 2050 para 2045. No entanto, nestas contas estão apenas incluídas as emissões resultantes da operação de exploração e produção, deixando de fora a queima do petróleo e gás.

Kjell Kühne, investigador da Leave it in the Ground, disse, citado pelo jornal britânico, que “construir novos projetos de gás fóssil, estabelecer metas incoerentes e não relatar adequadamente as emissões de metano são três maneiras pelas quais Abu Dhabi está a mostrar o oposto da liderança” que diz ter em vista.

Oficialmente, um porta-voz da Adnoc disse que “os nossos dados de emissões confirmaram a empresa como um dos produtores menos intensivos em carbono do mundo”, mas acumulam-se as evidências de que as contas continuam a ser mal feitas, ao não incluírem todos os itens previstos.

Relacionado