“The Boys from Macau”, em português, Os rapazes de Macau, é o nome pelo qual era chamada a elitista comunidade de portugueses e luso-asiáticos que, nas décadas de 30 e 40 do século XX, emigrou para Hong Kong a partir de Macau. Sendo uma classe privilegiada, económica e culturalmente, os seus membros ocuparam numerosos cargos públicos e de influência, tendo desempenhado um papel muito importante na recuperação económica de Hong Kong nas décadas de 50 e 60.
Da mesma forma que os lusodescendentes deixaram marcas indeléveis no território, servindo a sua presença centenária de ponto de partida à exposição que está a ser preparada pelo Museu de História de Hong Kong, a inaugurar em meados do próximo ano. A comunidade será a primeira a merecer destaque entre várias exposições temáticas rotativas que o museu está a preparar, desde 2017.
Num folheto sobre uma campanha de recolha de artefactos, documentos e fotografias para a exposição, o museu diz querer “trazer para a ribalta a excecional história da comunidade portuguesa em Hong Kong”, por ocasião da reabertura do museu, na sequência de uma renovação que estava prevista abrir ao público ainda este ano. O museu destaca ainda “a pitoresca diversidade” dos lusodescendentes, incluindo as tradições religiosas católicas, a gastronomia de fusão e o patuá, uma língua crioula de base portuguesa, em risco de extinção.
A pandemia de Covid-19 atrasou os planos de lançamento da exposição, mas agora tudo indica que está bem encaminhada para dar a conhecer ao público a comunidade eurasiática que, durante os primeiros anos da fundação da colónia britânica, “aproveitou o talento para as línguas e o estatuto único de ‘nem chinês nem ocidental’ para servir de ponte entre os mercadores e funcionários do governo britânico e os chineses”, como salienta o investigador Francisco da Roza.
Um livro que ilustra bem essa comunidade e a sua participação na construção dos serviços públicos de Hong Kong é “The Boys from Macau. Portugueses em Hong Kong”, de Luís Andrade de Sá, numa edição da Fundação Oriente/Instituto Cultural de Macau, 1999. Sintetizando o mesmo, pode dizer-se que do outro lado do rio, em Hong Kong, existe uma comunidade portuguesa com uma história rica e colorida como poucas.

“Foi a Macau e aos seus portugueses que os britânicos recorreram para criar a administração pública e para montar as companhias comerciais quando foi fundada a nova colónia, em 1841. A presença manteve-se até aos dias de hoje, agora menos significativa do que o foi quando havia portugueses em todos os sectores – na justiça e na banca, na função pública, de armas na mão em defesa da colónia, no desporto, nos jornais e nas igrejas”. É um livro que convoca histórias de “indígenas, porque naturais de Hong Kong e da região; e estrangeiros, porque comprometidos com uma pátria distante e com uma colónia na vizinhança”.
O declínio da comunidade começou em 1967, quando o impacto da Revolução Cultural na China começou a fazer-se sentir na então colónia britânica. A imigração dos lusodescendentes acentuou-se e manteve-se depois da crise mundial do petróleo em 1973. Entre as instituições da comunidade que ainda sobrevivem na região administrativa especial chinesa, contam-se o Clube de Recreio e o Clube Lusitano.