Atletas de alto rendimento que dedicam uma substancial parte da sua vida ao desporto têm um plano estruturado para o seu pós-carreira? A sensação de serem imbatíveis e indestrutíveis leva-os a adiar um salto que é inevitável.
Pesquisas mostram que uma transição difícil para o pós-carreira pode manifestar-se de várias formas, como por exemplo ansiedade, depressão, isolamento, baixa autoestima, menor autocontrole, desorientação, sensação de vazio e frustração. O desporto de competição é, pela sua natureza, um desporto de grande atividade e intensidade, caracterizado por alguns níveis de dependência.
O pós-carreira é uma inevitabilidade, a diferença está na forma como o momento é preparado. Um dos factores que importa ter presente, e que pode minimizar este impacto, é que os atletas de alto rendimento tenham a consciência que este percurso corresponde apenas a 30% do tempo das suas vidas, e a grande oportunidade é perceber que muito ainda está para vir e que apenas estão a viver um processo com todas as emoções necessárias para se manterem vivos e interessados no verdadeiro e emocionante percurso da vida.
Sabendo que são uns primeiros 30% da sua vida muito intensos e desgastantes, podem encontrar dificuldades com rotinas menos rígidas, objetivos menos tangíveis para o sucesso. O que faz com que seja um grande desafio adaptar as suas skills a um mundo empresarial que não está focado em realizações atléticas.
A carreira desportiva de um atleta de alto rendimento, paradoxalmente, pode tornar-se uma zona de conforto, uma obediência quase cega, um ritmo infernal de preparação, que os faz perder o equilíbrio entre o que se vive e o que ainda está para vir. Muitas vezes é preferível adiar o fim da carreira, mesmo que a performance já não esteja no topo, o que contribui, independentemente da literacia, da preparação ou falta dela, para que cheguem atrasados e com mais idade ao mercado de trabalho.
As características transferidas do treino, trabalho duro e esforço para chegar ao topo, são altamente apetecíveis no mundo dos negócios, mas para tal é necessário que estejam preparados para dar esse salto, que tenham as soft skills necessárias para adequar as suas características ao ambiente extremamente competitivo das empresas.
Quando os atletas fazem a difícil e traumática transição para fora do desporto de alto rendimento, a lista de capacidades que possuem é realmente invejável. Por esse motivo, é fundamental criar planos estruturantes que tenham que ver com o acesso ao ensino superior e empregabilidade de atletas que representaram as cores da bandeira nacional, ao mais alto nível, durante quase um terço da sua vida.
Daí que esta iniciativa conjunta do ISEG, Jogos Santa Casa, Fundação AGEAS e Associação dos Atletas Olímpicos de Portugal, ao criar o 1º Curso de Empreendedorismo para Atletas Olímpicos com 25 vagas preenchidas, seja um primeiro passo inovador no sentido de criar um caminho que perspetiva uma vida para além das carreiras desportivas e que pode ter tanto ou mais brilho.
Como dizia Pessoa: “Afirmaram que a vida é breve, engano — a vida é comprida: cabe nela amor eterno e ainda sobeja a vida”.