Donald Trump: insatisfação com proposta iraniana bloqueia processo de paz

Se é que não estava já bloqueado. A Casa Branca considera que negociações por etapas deixando a questão nuclear para o fim é impensável. Entretanto, Trump recebeu um mau comentário vindo da Alemanha e uma possível boa notícia vinda dos Emirados Árabes Unidos.

Donald Trump: insatisfação com proposta iraniana bloqueia processo de paz
epa12273726 US President Donald J. Trump, with HHS Secretary Robert F. Kennedy Jr., delivers remarks during a Making Health Technology Great Again event in the East Room of the White House in Washington, DC, USA, 30 July 2025. The White House and the Centers for Medicare and Medicaid Services have received commitments from 60 healthcare technology companies to collaborate on a new health technology advancement initiative. EPA/SHAWN THEW

Os esforços para colocar um fim ao conflito com o Irão voltaram a um impasse esta terça-feira, depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se ter declarado insatisfeito com o plano mais recente de Teerão, que propõe um escalonamento dos temas a discutir entre as duas partes, começando pelo fim dos ataques e pelo Estreito de Ormuz e deixando para mais tarde a questão nuclear. Como era de esperar – e uma vez que Trump disse sempre que essa era a questão central – Washington não gostou do que ouviu e impasse mantém-se, sem que haja no horizonte qualquer evidência de que um encontro entre os Estados Unidos e o Irão esteja para breve. Trump quer que as questões nucleares sejam tratadas desde o início, disse uma fonte da administração citada pela imprensa norte-americana.

Numa publicação nas redes sociais, Trump disse ainda que “o Irão acaba de informar-nos que está em ‘Estado de Colapso’. Eles querem que ‘Abramos o Estreito de Ormuz’ o mais rapidamente possível, enquanto tentam resolver a sua situação de liderança (o que acredito que conseguirão fazer!). Obrigado pela atenção a este assunto!”. Os analistas tendem a não acreditar na narrativa de Trump, dado que, em princípio, um qualquer ‘estado de colapso’, a existir, seria no mínimo escondido por todas as formas ao principal oponente numa guerra em andamento.

A possibilidade de existirem negociações por etapas já era conhecida desde segunda-feira, com a questão nuclear a ser deixada inicialmente de lado. Desde então, os analistas consideraram de forma unânime que não havia condições para os Estados Unidos aceitarem semelhante calendarização. Um primeiro passo exigiria, segundo a proposta iraniana, o fim da guerra e a garantia de que os Estados Unidos não poderiam reiniciá-la. Em seguida, os negociadores resolveriam o bloqueio naval dos Estados Unidos ao comércio marítimo iraniano e o destino do Estreito de Ormuz, que o Irão pretende reabrir sob seu controlo. Só um iraniano muito distraído colocaria a hipótese de esta agenda ser aceite pelos Estados Unidos, o que pode querer dizer que Teerão está a tentar ganhar tempo.

 

Merz farto disto tudo

Inesperadamente, o chanceler alemão, Friedrich Merz, decidiu ‘intrometer-se’ no assunto, para dizer que os Estados Unidos estão a ser “humilhados” pela liderança do Irão”. A avaliação de Merz sugere que era a equipa de Trump está a ser superada: “Os iranianos são obviamente muito habilidosos em negociar, ou melhor, muito habilidosos em não negociar, permitindo que os norte-americanos viajem para Islamabad e depois partam sem nenhum resultado”, disse.

“Uma nação inteira está a ser humilhada pela liderança iraniana, especialmente por esses supostos Guardas Revolucionários. E, portanto, espero que isso termine o mais rapidamente possível”.

 

E os Emirados Árabes Unidos também

Tão inesperadamente quanto eram as palavras de Merz, foi a decisão dos Emirados Árabes Unidos de deixarem o perímetro da OPEP já esta sexta-feira. O reino anunciou esta terça-feira que vai deixar a organização regulatória, o que representa um duro golpe para o grupo de produtores de petróleo, desferido em plena crise energética sem precedentes.

A saída dos Emirados Árabes Unidos – um dos maiores produtores do grupo – enfraquece o controlo da OPEP sobre o fornecimento global de setor do petróleo e amplia a divisão entre os Emirados Árabes Unidos e o seu vizinho, a Arábia Saudita, que é, na prática, o líder da organização.

Este controlo não é do agrado de todos. Vale a pena recordar que Angola decidiu sair do grupo no final do ano de 2023, depois de concluir que a política de quotas imposta pelos sauditas não servia os seus interesses.

Trump tem um histórico antigo de desentendimentos com a OPEP e acusou várias vezes a Arábia Saudita de ser demasiado conservadora.

Isso também poderia permitir que os Emirados Árabes Unidos aumentassem a produção em relação à política de quotas, impedindo que o preço do petróleo desça para níveis aceitáveis. Mas a saída de países do perímetro da OPEP não é necessariamente uma boa notícia para os Estados Unidos. Voltando ao exemplo de Angola, o país africano deu há dias a saber que fechou um acordo de alto nível com a China para a gestão do setor do petróleo – o que com toda a certeza não são boas notícias para Washington.

Seja como for, a saída dos Emirados deixa mais sozinhos os sauditas, que são os maiores inimigos do Irão no Médio Oriente islamita. Se isso é bom para o regime de Teerão, adiante se saberá. Para já, a expectativa global é que um produtor tão importante como os Emirados finalmente livre do espartilho da OPEP possa aumentar a produção e aliviar o pico de preços atual.

Num primeiro comentário público sobre o assunto, o ministro da Energia dos Emirados Árabes Unidos, Suhail Mohamed al-Mazrouei, disse à Reuters que a decisão foi tomada após uma análise das estratégias energéticas do país, sem discutir o assunto com nenhum outro país. “Esta é uma decisão política, tomada após uma análise cuidadosa das políticas atuais e futuras relacionadas com o nível de produção”, disse Mazrouei.

E esclareceu que o mundo está ávido de energia, dando a entender que os Emirados estariam em posição de atender a essas necessidades. Para todos os efeitos, o anúncio saudita aliviou o preço do petróleo nos mercados.

Segundo um comentador citado pela Reuters, a saída dos Emirados Árabes Unidos representa uma vitória para Donald Trump, que, num discurso em 2018 na Assembleia Geral da ONU, acusou a organização de “explorar o resto do mundo” ao inflacionar os preços do petróleo artificialmente, por via das quotas.

 

Entretanto, no Líbano

Entretanto, Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, levantou a possibilidade de uma nova ação militar israelita no Líbano, afirmando que mísseis e drones em posse do Hezbollah, continuam a representar uma ameaça para o Estado hebraico.

“Ainda existem duas ameaças principais do Hezbollah: os mísseis de 122 mm e os drones”, disse o primeiro-ministro em comunicado divulgado pelo seu gabinete. “Isso exige uma combinação de atividades operacionais e tecnológicas”. Ou seja, e como os analistas anteciparam, o cessar-fogo pode ser quebrado por Israel a qualquer momento.

Relacionado