Reina a confusão na Europa. No Reino Unido a situação política está enevoada como nunca. Dizer que o Brexit é mau quando o PIB cresce mais que o de muitos membros da União, a taxa de desemprego (3,8%) está em mínimos de 40 anos e as vendas a retalho aumentam perto de 5% é politicamente difícil. Se a libra está barata, o que ajuda as exportações mas só tem efeitos no imediato (uma desvalorização prolongada seria um empobrecimento dos britânicos), a curto prazo as pessoas estão ocupadas e contentes. Mas mesmo neste cenário o que foi vendido como uma vitória de Farage deu-lhe menos de 6 milhões de votos, contra 17,4 do Leave em 2016. O campo do Remain teve 6,7 milhões, mais perto dos 16,1 do referendo. No meio fica um terço dos votos, que castigam a incapacidade dos Tories (9%, o pior resultado desde 1832) e a “ambiguidade calculada” do Labour (14%), que ficou atrás dos liberais-democratas e o seu “bollocks to Brexit” – o “cálculo” de Corbyn foi mal feito, os eleitores preferiram as posições claras sobre o Brexit.
May faz as malas e o próximo PM não vai ter a vida fácil – cortar espaço a Farage é escolher um hard brexiter e Boris é o favorito, pois foi a cara do Leave, para evitar eleições. No seu estilo próprio, vai dar cabo de tudo – como disse Sir Alan Duncan, seu Secretário de Estado, tratar das gaffes dele “era um trabalho a tempo inteiro.” Corbyn vai ser empurrado para defender o segundo referendo, a única forma de disfarçar a indecisão, e pode ser ajudado pelo Parlamento britânico, a única coisa mais indecisa que ele. Clareza não vem num novo referendo, pois se o Remain ganhar apenas levará a pedidos para o terceiro; vem com eleições, quando votar bastante mais gente que o terço que agora votou.
Na Alemanha, só os verdes ganharam, mas está por saber se a AfD perdeu mesmo gás ou se foi por serem eleições europeias. O SPD puxou o tapete a Andrea Nahles, o que deverá pôr fim à grande coligação e fazer cair o governo; Merkel irá para casa já e não em 2021. Assim sendo, teremos eleições, o momento clarificador, e veremos quem governará o país âncora da União: vamos voltar aos tempos de Joschka Fischer? Como será o redesenho da CDU/CSU pós-Merkel?
De Itália não vêm incertezas, mas estranhamento os riscos são muito maiores. Salvini ganhou as eleições, e a Liga vale agora o dobro do 5-estrelas. É paradoxal que o mais nacionalista dos líderes europeus queira federar e comandar um movimento europeu, mas deixa de ser contraditório se notarmos que para ele apenas o poder conta. O défice orçamental italiano aumentou quase um ponto percentual em 2018 e em 2019 a dívida pública vai ultrapassar os 133% do PIB. À porta de um procedimento por défice excessivo, insiste numa redução de impostos de 30 mil milhões de euros, o que aumentará o défice mais de 1,5% do PIB, furando o teto de 3%. Como se vai a Itália financiar, quando o spread com a taxa alemã se aproxima dos 300 pontos base, vai ser interessante ver. O que vai fazer o BCE, idem. Salvini é o próximo desafio à União e vai eclipsar o Brexit.
Divórcio à Italiana