Frederick Lehmann, Presidente da EXHIBITIO, Fundador e Diretor da Lehmann

Dez anos de ARCOlisboa: um momento de balanço

Talvez aqui resida um dos maiores méritos da ARCOlisboa: a capacidade de funcionar simultaneamente como plataforma de entrada para galerias emergentes e como espaço de consolidação para galerias mais estabelecidas.

Em 2026 celebram-se dez anos desde a chegada de ARCOlisboa à capital. Isso permite fazer um balanço sobre aquilo que ARCOlisboa representou para as galerias portuguesas, para o ecossistema artístico nacional e para a própria cidade de Lisboa.

Recentemente, a EXHIBITIO — Associação Portuguesa de Galerias de Arte Contemporânea — promoveu um inquérito junto das galerias associadas precisamente com esse objetivo. Os resultados revelam uma realidade simultaneamente muito positiva e bastante complexa.

ARCOlisboa coincidiu com uma década de profunda transformação internacional da cidade. Entre 2016 e 2026, Lisboa consolidou-se como um dos polos europeus de turismo, tecnologia, criatividade e eventos globais. A chegada do Web Summit, o crescimento das conferências internacionais, a expansão da comunidade internacional residente e a afirmação da cidade enquanto destino cultural criaram um contexto particularmente favorável para o desenvolvimento de uma feira internacional de arte contemporânea.

Naturalmente, ARCOlisboa não foi a causa dessa transformação. Mas também seria difícil negar que a feira se tornou parte integrante dessa nova projeção internacional da cidade.

Talvez aqui resida um dos seus maiores méritos: a capacidade de funcionar simultaneamente como plataforma de entrada para galerias emergentes e como espaço de consolidação para galerias mais estabelecidas.

Além de ARCOlisboa, Portugal continua a ter relativamente poucas plataformas capazes de proporcionar, em tão poucos dias, um contacto tão intenso entre galerias, artistas, colecionadores, curadores, instituições e públicos internacionais.

ARCOlisboa também não pode ser analisada isoladamente das instituições culturais que ajudaram a consolidar Lisboa como um centro artístico internacional cada vez mais relevante. Instituições como o CAM – Centro de Arte Moderna Gulbenkian, o MAC/CCB – Museu de Arte Contemporânea Centro Cultural de Belém, o MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, a Fundação EDP ou o recente MACAM – Museu de Arte Contemporânea Armando Martins têm desempenhado um papel importante na visibilidade de artistas portugueses emergentes e de meia-carreira. Muitos desses artistas são representados por galerias associadas da EXHIBITIO e estiveram presentes em várias edições de ARCOlisboa.

O inquérito mostra também uma realidade mais exigente: o atual modelo internacional de feiras tornou-se economicamente muito pesado para as galerias. Custos de stand, transporte, logística, produção de obra, hotéis e viagens criam hoje uma pressão financeira muito superior àquela que existia há dez anos.

Mas, para além dos custos, é consensual que as feiras impõem hoje uma forte pressão operacional sobre equipas cada vez mais reduzidas.

Ainda assim, as galerias associadas da EXHIBITIO continuam a acreditar profundamente na relevância estratégica de ARCOlisboa. O verdadeiro desafio parece estar menos na existência das feiras e mais na sustentabilidade económica do modelo.

Talvez por isso as prioridades identificadas pelo inquérito sejam tão claras: reforçar o programa internacional de colecionadores, aumentar a capacidade internacional de comunicação da feira e encontrar formas de aliviar parte da pressão financeira associada à participação.

Dez anos depois, ARCOlisboa deixou de ser apenas uma feira. Tornou-se parte integrante da forma como Lisboa e Portugal passaram a posicionar-se internacionalmente enquanto território cultural contemporâneo.

E isso é um ativo que importa consolidar e fazer evoluir.

Relacionado

O planeta Brumadinho volta a dar que falar

O planeta Brumadinho volta a dar que falar

Ana Pina30 Ago
A mata atlântica, em Minas Gerais, Brasil, não invoca apenas o poder da natureza. Nela nasceu o maior museu a céu aberto do mundo. Bernardo Paz sonhou-o e, agora, está a erguer um novo capítulo ali ao lado.
O que faz Anselm Kiefer com o peso da história?

O que faz Anselm Kiefer com o peso da história?

Ana Pina25 Ago
Memória, mitologia, literatura, música e paisagem. Tudo está interligado nas onze obras que o pintor alemão Anselm Kiefer, um dos grandes nomes da arte contemporânea europeia, expõe até 25 de outubro no Centro de Arte Hortensia Herrero, em Valência, Espanha.
Guggenheim Abu Dhabi inaugura em dezembro

Guggenheim Abu Dhabi inaugura em dezembro

Ana Pina10 Ago
Inquestionavelmente Gehry. É o pensamento que ocorre perante o projeto do arquiteto americano Frank Gehry que vai ganhando forma em Abu Dhabi. Vinte anos depois do primeiro anúncio, o Guggenheim Abu Dhabi vai mesmo acontecer. A 11 de dezembro de 2026 abre as portas ao público.