Cresce a procura dos investidores por futuros que não têm fim

Estes contratos são mais simples e permitem aos investidores manterem posições sem serem obrigados a mexer. O volume de negociação já ultrapassou os 52 biliões de euros.

Cresce a procura dos investidores por futuros que não têm fim
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Os futuros perpétuos, também designados contratos perpétuos ou perpetual swaps, são derivados que permitem ganhar ou perder com a variação do preço de um ativo sem o comprar diretamente e sem que exista uma data de vencimento. E estão em crescimento.

Dados da Universidade de Cornell indicam que o volume acumulado de negociação destes contratos desde 2020 ultrapassou os 60 biliões de dólares (52,8 biliões de euros). A Pantera Capital estima, por sua vez, que o volume total de derivados negociados em bolsas centralizadas tenha atingido 86 biliões de dólares (75,5 biliões de euros) em 2025, dos quais 62 biliões de dólares (54,4 biliões de euros) corresponderam a contratos perpétuos.

Os analistas da corretora XTB Vítor Madeira e João Cruz consideram que o interesse crescente se deve, sobretudo, à eliminação da maior fricção associada aos futuros convencionais: “A existência de uma data de expiração”.

Num contrato de futuros tradicional, o investidor que pretende manter a exposição é periodicamente obrigado a fechar a posição e a abrir outra num contrato com vencimento posterior, uma operação conhecida como rollover no jargão do mercado.

“Ao eliminar por completo a maturidade do contrato, o perpétuo permite uma manutenção linear da exposição ao mercado, sem qualquer interrupção administrativa, custos de transição ou quebras na estratégia de negociação”, explicam Vítor Madeira e João Cruz.

João Queiroz, head of trading do Banco Carregosa, considera que os futuros perpétuos podem acrescentar valor porque “simplificam a exposição, concentram liquidez, reduzem o problema do rollover e criam uma ponte entre a flexibilidade dos contratos por diferença, ou CFD, e a disciplina dos derivados padronizados”.

Embora não estejam generalizadamente disponíveis para os investidores de retalho na Europa, estes instrumentos “poderiam ser úteis quando usados com consciência, moderação, conhecimento e controlo de risco”. Para os investidores institucionais, constituem “uma ferramenta eficiente de cobertura, arbitragem e gestão dinâmica da exposição”, diz.

A principal vantagem está na simplicidade. O produto “permite tomar uma posição longa ou curta num ativo sem comprar o subjacente, sem abrir uma conta de custódia do ativo físico ou digital e sem gerir vencimentos sucessivos”, salienta.

Uma posição longa beneficia de uma subida do preço do ativo, enquanto uma posição curta ganha valor quando o preço desce. O investidor não adquire, contudo, o ativo subjacente nem os direitos que lhe estejam associados.

João Queiroz considera que este tipo de produto “pode ser útil” para investidores experientes que pretendam assumir exposições táticas, fazer uma cobertura parcial das carteiras ou gerir riscos de curto prazo.

No segmento institucional, a proposta de valor é diferente. “O perpétuo pode funcionar como instrumento de cobertura contínua, gestão de inventário, implementação rápida de cenários macroeconómicos ou setoriais, estratégias de basis, arbitragem entre o mercado à vista, o perpétuo e os futuros tradicionais, ou construção de exposições neutras ao mercado”, explica.

As estratégias de basis procuram explorar as diferenças entre o preço do ativo no mercado à vista e o preço dos respetivos derivados. Já uma estratégia neutra ao mercado tenta limitar a exposição à direção geral das cotações através da combinação de posições compradoras e vendedoras.

“A ausência de maturidade reduz o risco operacional de renovação de contratos e evita que a liquidez se fragmente por vários vencimentos”, afirma.

Em contrapartida, a taxa de financiamento, ou funding rate, torna-se uma variável económica determinante. Pode representar um custo de manutenção da posição, uma fonte de rendimento em estratégias de carry ou um indicador do desequilíbrio entre a procura por posições longas e curtas.

Cripto, ações, matérias-primas

Henrique Valente, analista da ActivTrades, recorda que o primeiro futuro perpétuo sobre Bitcoin foi lançado em 2016. “Desde então, este tipo de contrato tornou-se um dos instrumentos dominantes” no mercado de criptoativos, assinala.

A utilização do produto começou, entretanto, a alargar-se a ativos tradicionalmente associados aos mercados financeiros convencionais.

“Hoje já existem plataformas a oferecer contratos perpétuos com negociação praticamente contínua sobre ouro, petróleo, índices acionistas, ações e até empresas privadas ou em fase de pré-oferta pública inicial, como a SpaceX, a OpenAI e a Anthropic”, descreve Henrique Valente.

Nestes últimos casos, os produtos não representam necessariamente uma participação direta no capital das empresas. São instrumentos sintéticos cujo preço procura acompanhar uma avaliação ou uma referência definida pela plataforma, o que pode aumentar os riscos de liquidez, formação de preços e contraparte.

Valente considera que, em termos teóricos, os futuros perpétuos, tal como os mercados de previsão, “podem trazer mais liquidez” e contribuir para uma formação de preços mais eficiente. “Na prática, porém, têm sido sobretudo utilizados para fins especulativos e tendem a beneficiar uma pequena parte dos participantes mais sofisticados do mercado. Ao mesmo tempo, levantam novos desafios regulatórios, éticos e de proteção do investidor”, acrescenta.

Como não existe uma data de vencimento que obrigue o preço do contrato a convergir com o preço do ativo subjacente, os futuros perpétuos recorrem normalmente a uma taxa de financiamento.

Os analistas da XTB explicam que, quando o preço do contrato perpétuo negoceia acima do preço do mercado à vista devido a uma maior pressão compradora, os investidores com posições longas pagam uma taxa aos investidores que estão curtos. Este pagamento torna mais onerosa a manutenção das posições compradoras e procura reduzir o prémio do contrato.

Quando o perpétuo negoceia abaixo do preço à vista, o fluxo é invertido: os investidores com posições curtas pagam aos que estão longos.

O mecanismo procura incentivar operações que aproximem o preço do perpétuo do valor do ativo subjacente. Não garante, porém, uma correspondência perfeita e permanente, uma vez que podem subsistir diferenças em períodos de forte volatilidade, menor liquidez ou desequilíbrio acentuado entre compradores e vendedores.

“Para o investidor, este reajuste contínuo traduz-se numa maior previsibilidade do preço, procurando assegurar um alinhamento próximo com o ativo subjacente e reduzir as distorções de prémio ou desconto que afetam os futuros tradicionais à medida que a data de entrega se aproxima”, explicam Vítor Madeira e João Cruz.

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