Sílvia Vasconcelos Médica Veterinária, MSc e PhD Ciências Veterinárias

Continuamos, Portugueses, a ser dos mais pobres da Europa

São mais de 2 milhões, as pessoas, no nosso país que vivem ou numa situação de pobreza ou em condição de exclusão social ou abaixo do limiar de pobreza, situações estas que se vêm confirmando com vários estudos e relatórios de Observatórios e outras organizações públicas desde há anos consecutivos, 2020 a 2024.

… e parecemos conformados com o facto de sermos o quarto país mais desigual da UE. Temos rendimentos desiguais e abaixo da média europeia, pagamos impostos e bens essenciais como se fossemos países nórdicos, os serviços públicos de que dispomos escasseiam e os privados que nos disponibilizam vão além do que podemos pagar. E nem vou aprofundar a dimensão dos custos da habitação na pobreza, problema que exige um compromisso público e empenho político a médio /longo prazo o que, como se sabe, não se revertendo no imediato da receita eleitoralista, é uma decisão adiada, repetidamente prometida e não concretizada.

São mais de 2 milhões, as pessoas, no nosso país que vivem ou numa situação de pobreza ou em condição de exclusão social ou abaixo do limiar de pobreza, situações estas que se vêm confirmando com vários estudos e relatórios de Observatórios e outras organizações públicas desde há anos consecutivos, 2020 a 2024. Pergunta-se então: que políticas têm sido empreendidas pelos sucessivos governos para combater e (mais importante) reverter esta tendência? Capitalizam votos à custa da população empobrecida sem qualquer pudor em prometer-lhes o que não lhes ocorre sequer concretizar e até chegam a afirmar ridiculamente que “os portugueses estão piores, mas o país não” (lembram-se?). Fazem pior e ninguém os responsabiliza por tal: escondem motivações políticas nos seus programas eleitorais e uma vez eleitos desancam medidas que empobrecem ainda mais quem vive do seu trabalho: os que pagam impostos, e não têm avenças de contornos pouco éticos, nem se deixam corromper por poder e dinheiro e nem tão pouco enriquecem à custa do serviço público que deve ser toda a política!

20.1% da população a viver em Portugal está em risco de Pobreza ou Exclusão Social, manifestando-se em pobreza monetária (com rendimentos mensais inferiores a 600 euros) e/ou situações de privação material e social muito severa, com muita gente abaixo dos 65 anos a viver em agregados com atividade laboral reduzida ou precária. Mas também se tem mantido a manifestação da feminização da pobreza (em 2024, 978000 mulheres estavam na pobreza); e a pobreza de quem trabalha. Sim, somos um país de trabalhadores pobres ou a empobrecer e com dificuldades crescentes de aceder a serviços essenciais à vida, como a saúde, a educação, a habitação condigna, a fruição da cultura, serviços que constitucionalmente deveriam ser providenciados pelo Estado.

Há uma fação política (de direita, que deu o dito por não dito do “não é não”, e que já sem dissimular se tem aliado à política de natureza racista e xenófoba – e, portanto, inconstitucional!) que amiúde ataca os apoios sociais. saberá esta direita que se não houvesse ação e transferência social para os grupos mais vulneráveis da sociedade, a pobreza dispararia para os 40.3%?! E com a agravante de que sendo a própria distribuição de prestações sociais, como pensões de velhice e de sobrevivência, também desigual, sem estas a desigualdade entre Portugal e a média europeia seria ainda mais assimétrica!

E já não são só os idosos o maior foco de preocupação de pobreza. Esse foco tem-se redirecionado preocupantemente para crianças e jovens, chegando a ultrapassar a pobreza dos idosos. E não é difícil concluir sobre as causas subjacentes a esta situação: os baixos salários dos pais (em 2024 tínhamos 1,76 milhões de pobres e metade da população tinha um rendimento inferior a 903 euros); a precariedade laboral dos pais; as prestações sociais tão baixas que mal dão para comer e muito menos evitar a exclusão social; a dificuldade de manter ou aceder a uma casa; e tudo isto agravado em famílias monoparentais ou em famílias com baixos níveis de escolaridade – fenómeno que, comprovadamente, tende a arrastar-se geracionalmente renovando os ciclos de pobreza e desigualdade.

Portugal tem uma das maiores taxas de pobreza infantil na Europa! E tudo isto pode agravar-se ainda mais com as alterações ao código do trabalho do atual governo que, como que numa emboscada, sem o anunciar, nos deu o golpe quase em surdina não fosse a escolha temporal a isso propícia: a população está de férias e as notícias respingam aqui e ali, sob a capa de destaque mediático de outras parangonas que distraem a maioria dos portugueses da dimensão da pobreza e das desigualdades em Portugal.

Relacionado

Portugal converge com os níveis de qualificação europeus nas gerações mais jovens

Portugal converge com os níveis de qualificação europeus nas gerações mais jovens

Almerinda Romeira15 Jun
O país consolidou nas gerações mais jovens uma convergência com os níveis de qualificação europeus, mas as desigualdades persistem. Estão agora dentro do sistema: hoje são os percursos e não o acesso que filtram quem beneficia plenamente do ensino superior. Balanço Anual da Educação 2026 do think tank para a Educação da Fundação Belmiro de Azevedo, do EDULOG, é apresentado esta segunda-feira, 15, à tarde, no Pavilhão de Portugal, em Lisboa.