Cimeira de Londres jura fidelidade a Washington

Depois de Donald Trump deixar evidente que não conta com a Europa para fazer a paz com a Rússia e de destratar de forma ostensiva o seu homólogo ucraniano, os líderes europeus repetem que contam com os Estados Unidos.

Cimeira de Londres jura fidelidade a Washington
Neil Hall/EPA

A reunião com os líderes europeus em Londres, convocada pelo primeiro-ministro britânico Keir Starmer, terminou com a decisão de alguns países, entre eles o Reino Unido, a França e outros não especificados, mas com a ressalva de que, para alcançar a paz, é preciso “o apoio dos Estados Unidos”, disse o anfitrião em conferência de imprensa. É por isso, explicou, que se encontrou com o presidente dos EUA para reforçar as relações com os Estados Unidos: “Estamos a trabalhar com Trump, com quem concordámos na urgência de uma paz duradoura”.

Segundo as agências noticiosas, Keir Starmer não quis comentar a reunião de Zelensky e Trump esta sexta, e evitou atribuir culpas pelo momento de discussão entre os dois chefes de Estado. Disse apenas que o apoio norte-americano é indispensável e “a relação entre os EUA e a Europa deve ser forte”. “O objetivo da reunião de Londres era unir os nossos parceiros em torno deste esforço para fortalecer a Ucrânia e apoiar uma paz justa e duradoura para o bem de todos nós. O nosso ponto de partida deve ser colocar a Ucrânia na posição mais forte possível, para que possa negociar a partir de uma posição de força, e estamos a reforçar o nosso apoio”, salientou.

Ora, como se sabe, não é nada disto que a administração Trump acha da matéria: Trump quer impor uma paz imediata, marcar uma nova fronteira no lugar onde estão os combates – o que quer dizer que a Ucrânia perderia o Dombass e não retomaria a Crimeia – apossar-se das riquezas do subsolo do país europeus, e tudo sem que a Ucrânia pudesse argumentar em sua defesa. O acordo para o subsolo foi entretanto riscado do panorama, mas Trump deixou bem claro que, ou Zelensky aceita a proposta norte-americana ou deixará de contar com o apoio do seu país.

Em Londres, a assunção de que o apoio de Washington é essencial demonstra que os líderes europeus, eventualmente, não acreditam que o presidente norte-americano leve até tão longe a sua recusa em apoiar a Ucrânia. De algum modo, estão a lutar contra a nova realidade que se instalou na Casa Branca, mas agem como se nada tivesse mudado.

A posição de Ursula von der Leyen, presidente da Comissão, não parece ser exatamente a mesma. Disse que “os Estados Unidos devem saber que estamos prontos para defender a democracia”, mas acrescentou que “está na altura de rearmar a Europa” e torná-la estrategicamente importante no mundo. E, para isso, defende que é preciso “intensificar e aumentar a defesa”. Von der Leyen lembrou que para criar uma força europeia afirmativa no cenário internacional, é preciso ter capacidade de produção: “Os estados-membros precisam de mais espaço fiscal para aumentar a defesa”. Para isso, apresentará em breve (mais precisamente no Conselho Europeu de 6 de março) “um plano abrangente sobre como rearmar a Europa”. “Temos de fazer um grande esforço. E, para isso, precisamos de um plano claro da União Europeia para os Estados-membros”. “Precisamos de uma abordagem europeia comum, mas os Estados-membros precisam de mais espaço fiscal para aumentar as despesas com a defesa”, reconheceu, abrindo a porta a uma solução de financiamento assegurado pelo bloco, com certeza recuperando o que foi feito no combate à pandemia de Covid-19. “As garantias de segurança são da maior importância para a Ucrânia, mas é preciso garantias de segurança abrangentes”, referiu von der Leyen. “Isto inclui a necessidade de colocar a Ucrânia numa posição de força que lhe permita fortalecer-se e proteger-se, desde a sobrevivência económica até à resistência militar”.

Entretanto, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, considerou a cimeira internacional de Londres sobre a defesa europeia “útil e importante” e afirmou que a União Europeia quer continuar a trabalhar com outros parceiros e aliados. Segundo as agências, Costa disse que vai agora trabalhar com todos os líderes dos Estados-membros para preparar o Conselho Europeu especial na próxima quinta-feira em Bruxelas.

“A União Europeia está pronta para trabalhar com todos os nossos parceiros europeus e outros aliados no plano de paz para a Ucrânia que garanta uma paz justa e duradoura para o povo ucraniano”, afirmou, para dizer que é necessário “aprender com o passado” e evitar “repetir a experiência de Minsk” – os acordos de paz de 2014 sobre os territórios ucranianos, que a Rússia diz que a parte ucraniana nunca cumpriu.

Já o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, mostrou-se satisfeito por ver mais países determinados em aumentar a despesa com a defesa e em participar numa força de manutenção da paz na Ucrânia. Em declarações à saída de uma cimeira em Londres, Rutte, citado pelas agências noticiosas, congratulou-se por ver os “países europeus a intensificar os seus esforços para garantir que a Ucrânia tem o que precisa para continuar a lutar enquanto tiver de continuar”. Referindo-se ao exemplo do Reino Unido, que anunciou na semana passada o aumento da despesa com a defesa para 2,5% do PIB, Rutte indicou que vários países deverão fazer anúncios semelhantes em breve. “O que vemos é que os países europeus estão a intensificar a sua ajuda com garantias de segurança para o momento em que for alcançado um acordo de paz. Obviamente, ainda não há acordo. Ainda não há um cessar-fogo, mas temos de nos preparar para esse momento e certificar-nos de que os países europeus estão dispostos a ajudar com as garantias de segurança”, vincou.

Organizada pelo Reino Unido, a cimeira sobre a segurança europeia reuniu líderes da Ucrânia, França, Alemanha, Itália, Países Baixos, Espanha, Noruega, Canadá, Finlândia, Suécia, Dinamarca, República Checa, Polónia e Roménia. O ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Hakan Fidan, também participou, assim como Mark Rutte, António Costa e Ursula von der Leyen. Portugal ficou mais uma vez de fora do lote dos convocados. Fonte do Ministério dos Negócios Estrangeiros confirmou essa ausência à agência Lusa. De acordo com o gabinete de Starmer, a reunião de Londres serviu para dar continuidade à de Paris, promovidas pelo presidente francês, Emmanuel Macron. Onde, aliás, Portugal também não esteve.

Relacionado

Reservas de gás da União Europeia estão no nível mais baixo em 15 anos

Reservas de gás da União Europeia estão no nível mais baixo em 15 anos

Ruben Pires3 Set
De acordo com a publicação BiGo Finance o nível de reservas de gás que a União Europeia detém nesta altura deve-se a um erro de cálculo. O bloco europeu vinha adiando as compras de gás na expetativa de que o conflito no Médio Oriente, que se iniciou em fevereiro entre Estados Unidos, Israel, e Irão, tivesse um desfecho rápido, permitindo que o gás natural vindo do Qatar voltasse a passar pelo Estreito de Ormuz a um preço mais baixo. Contudo o cenário de momento não se concretizou.