Raúl Proença Mesquita, Professor reformado, Escritor

Carmen, charme, o feitiço

A estreia de "Carmen" não caiu bem à época. Desde defeitos na maquinaria da encenação ao papel principal, passando pelo libreto, quase tudo suscitou desagrado. Parte do público achou imoral. E hoje?

Casta quam nemo rogavit (é pura a desdenhada) Ovídio – citado por Mérimée no fim da sua obra “Carmen”, de 1845, no Cap. IV, ao fazer uma espécie de ensaio sobre os ciganos, quando alega que dizem que as ciganas são castas fora da sua gente.

Todas as vezes que fui ver a ópera “Carmen”, no fim da mesma as minhas interrogações eram invariavelmente muitas. Já tinha ouvido muito sobre esta personagem e sobre o compositor, Bizet, mas separadamente, como se ambos fossem rasgados um do outro.

De um lado, Carmen a mulher livre, do outro, o compositor brilhante. Cedo pus mãos à obra. Ouvi a ópera várias vezes a ler o libreto de Henri Meilhac e Ludovic Halévy. Tive, como referi, a oportunidade de rever a mesma em palco várias vezes. Diz-se que é a ópera francesa mais representada em todo o mundo.

Estreada em Paris na Opéra Comique, no dia 3 de Março de 1875, esta ópera não caiu bem. Desde defeitos na maquinaria da encenação ao papel principal, passando pelo libreto, quase tudo suscitou desagrado. Parte do público achou imoral. Porquê, não consegui apurar as razões. Uma cigana insinuante? Um homem que se deixa manobrar? Assim parece ser. Será?

Do outro lado, o compositor. Compositor de outras óperas (“Les Pêcheurs de perles“), sinfonias, música para piano, deixou-se abater no dia da estreia da Carmen, dia em que curiosamente recebeu a Légion d’honneur, e morreu de enfarte no dia 3 de Junho, exactamente três meses após o dia da estreia da ópera Carmen, apenas com 36 anos. Hoje em dia a música da Carmen é considerada genial e apropriada na sua força tanto para a história como para o libreto. Este foi inspirado na novela homónima de Prosper Mérimée, de 1845, que também li para compreender a obra em todo o seu conjunto: imaginada, escrita e em cena.

A ideia da imoralidade do libreto pareceu-me falha desde sempre. Quantos e quantos não pintaram em óperas mulheres soltas? Livres? Mas se metade da sala saiu logo no fim do 1.º Acto na primeira récita?  Está bem, as coisas não correram como deviam ter corrido. Os críticos, que ficaram até ao fim (quatro actos) esses já viram a coisa de outra maneira. Mas ficaram chocados porque, cito:  “CARMEN Jamais Carmen ne cédera. Libre elle est née et libre elle mourra.”? (Carmen nunca cede. Nasceu e vai morrer livre).

É preciso dizer que, anteriormente, ela já tinha dito que uma sina tinha predito, quase no fim do 3.º Acto, a morte de ambos, ela, primeiro, ele, Don José, a seguir: “CARMEN C’était écrit! cela doit être: Moi d’abord … et puis lui … Le destin est le maître.” (Estava escrito! Tem de ser: primeiro eu… depois ele… O destino é quem manda.).

Como é que se pode conciliar a liberdade com o destino aceite? Prosper Mérimée dá-nos na sua novela uma saída. Carmen é cigana mas fala de responder perante o Senhor. Vivendo em Espanha, as coisas misturaram-se como em tantos casos… Ora, que choque é esse que os críticos sofreram? O de uma mulher livre? Aqui chegamos a um quadrado que complica esta obra: Mérimée, os libretistas, a soberba música e os encenadores das produções.

Creio que conheço o segredo dos primeiros críticos de “Carmen” e da sua atitude escandalizada. Entrou-se depois pelo século XX e julgou-se a atitude desses homens como sendo a de burgueses ultrajados pela pretensa liberdade de uma mulher e uma trabalhadora de tabaco e uma cigana ainda por cima! Não me parece.

Franceses? Se fossem ingleses, sim. Julgo que eles entreviram o que ninguém desde há muito, muito tempo tinha ousado descrever, a ligação entre o amor e a morte. Carmen não lutou pela liberdade como uma feminista, como se quis no século XX; Carmen usou a sua liberdade e a sua enorme força para se entregar ao destino, aquele que é sucumbir nos braços do homem que amou e que hesita em matá-la. Como fazer? Suscitar o ciúme. Toreador! O rival.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

Relacionado

As histórias que a ópera canta

As histórias que a ópera canta

Ana Pina27 Ago
O calendário dita que a nova temporada do canto lírico, de Nova Iorque a Milão, Paris, Madrid e Viena, se revele a partir de setembro. A tradição cumpre-se, com novas produções, algumas mais arrojadas, outras fiéis ao cânone. O mais importante é que a ópera está viva.
O que faz Anselm Kiefer com o peso da história?

O que faz Anselm Kiefer com o peso da história?

Ana Pina25 Ago
Memória, mitologia, literatura, música e paisagem. Tudo está interligado nas onze obras que o pintor alemão Anselm Kiefer, um dos grandes nomes da arte contemporânea europeia, expõe até 25 de outubro no Centro de Arte Hortensia Herrero, em Valência, Espanha.