Brasil: petróleo e gás natural, os vilões amigos

A transição energética é fundamental para o desenvolvimento económico, mas também para responder às alterações climáticas. Numa série de 10 artigos de opinião, membros da Federação de Advogados de Língua Portuguesa avaliam as diferentes geografias da lusofonia. Este é o terceiro, sobre o Brasil.

Brasil: petróleo e gás natural, os vilões amigos
Alexandre Scherman

A humanidade vem sofrendo com severas mudanças climáticas ocasionadas, sobretudo, pela elevada emissão de gases de efeito estufa. Estas mudanças climáticas causam severos danos para a sociedade e trazem uma consciência coletiva da necessidade de promover uma alteração no uso e aplicação de fontes energéticas potencializadoras da poluição ambiental.

Essa alteração é concretizada pela denominada “transição energética”, que é um conjunto de medidas que tem como objetivo a substituição de fontes energéticas poluentes por outras limpas e não impactantes.

De fato, a transição energética é um caminho irreversível, porém longo e cheio de nuances, levando a peremptória necessidade de que cada país adeque seu portifólio energético artesanalmente, ou seja, talvez a transição energética deva ser adequada às potencialidades, necessidades e ao histórico da poluição gerada até então.

Naturalmente, o ideal é que todas as nações possam se desenvolver ou continuar se desenvolvendo, mas os casos não são iguais e devem ser olhados na medida das suas desigualdades.

O tema é sensível e deflagra amplos debates que se inserem em contextos de tensas e elevadas dicotomias ideológicas, já que mexe com aspectos sempre polêmicos, tais como: proteção ao meio ambiente; justiça geracional; direito ao desenvolvimento; e outro tantos capturados, muitas vezes, por discursos políticos bonitos de se ver, mas difíceis de se aplicar na prática.

O Brasil tem papel de destaque na transição energética na medida em que possui uma matriz energética com elevada utilização de fontes renováveis, que beira a 50%, contra 14% de média global e 13% quando se olha os países da OCDE.

Paralelamente, no Brasil a exploração e produção de petróleo e gás natural ainda tem um logo caminho pela frente e não pode ser desperdiçada por diversos fatores que corroboram com sua imprescindibilidade no curto prazo, considerando, ainda, que o petróleo e o gás natural respondem por mais da metade da energia produzida no mundo e é a mais confiável em termos de geração primária.

A indústria petrolífera brasileira recentemente iniciou explorações em uma nova grande fronteira [petrolífera] na denominada Margem Equatorial, com o potencial de dobrar as atuais reservas nacionais.

Os recursos financeiros advindos de grandes produções de petróleo e gás natural podem ser um importante incentivador e implementador de políticas de transição energética, em especial quando identificamos as denominadas cláusulas de investimentos obrigatórios em Pesquisa, Desenvolvimento & Inovação (P,D&I) presentes nestes contratos.

Com efeito, os investimentos obrigatórios em P,D&I advindos do sucesso da produção de hidrocarbonetos podem e devem ser direcionados para promover o desenvolvimento científico e tecnológico no mundo da transição energética.

Nesse contexto, projetos de P,D&I direcionados à captura e armazenamento de carbono (CCUS), hidrogênio de baixo carbono, eletrificação de operações offshore e digitalização de processos produtivos deixam de ser meros custos regulatórios para se tornarem mecanismos de incentivos.

Portanto, trazer a indústria do petróleo e do gás natural à mesa da transição energética é muito mais que confirmar sua essencialidade em termos de garantia energética no presente, mas também é convidar amigos que contribuirão para a garantia de um clima melhor.

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