Bolso pesa mais do que política: economia faz cair apoio a Trump

53% dos norte-americanos considera que a sua situação financeira piorou desde o regresso de Donald Trump à Casa Branca, segundo uma sondagem do Financial Times. A inflação, o aumento do custo de vida e o impacto da guerra no Irão continuam a pesar no orçamento das famílias, contribuindo para a queda da sua popularidade a poucos meses das eleições intercalares de novembro.

Bolso pesa mais do que política: economia faz cair apoio a Trump
Donald Trump

Mais de metade dos eleitores norte-americanos considera que a sua situação financeira piorou desde o regresso de Donald Trump à Casa Branca, segundo uma sondagem publicada pelo “Financial Times”. O estudo, realizado pela empresa Focaldata entre 7 e 10 de agosto junto de 1.913 eleitores registados, surge a poucos meses das eleições intercalares (midterms) de novembro e aponta a economia como o principal fator de desgaste político do Presidente.

De acordo com os dados divulgados pelo jornal britânico, 53% dos inquiridos afirmam que as suas finanças pessoais deterioraram-se desde janeiro de 2025, quando Trump tomou posse. O descontentamento não se limita aos eleitores democratas: 57% dos independentes dizem estar em pior situação e quase um quarto dos republicanos partilha dessa perceção, sinalizando alguma erosão no apoio tradicional ao Presidente.

Economia pesa mais do que política externa

A sondagem mostra que a principal preocupação dos eleitores continua a ser o custo de vida. Cerca de 64% desaprovam a forma como Donald Trump tem gerido a inflação e o aumento dos preços, incluindo quase sete em cada dez independentes e aproximadamente um terço dos republicanos.

O estudo indica ainda que 55% dos eleitores desaprovam globalmente o desempenho de Trump como Presidente. Entre os próprios republicanos, a aprovação líquida caiu oito pontos percentuais face ao mês anterior, um indicador que poderá preocupar a administração norte-americana à medida que se aproximam as eleições intercalares.

Guerra no Irão e subida dos preços

O agravamento do custo de vida tem sido atribuído, em parte, às consequências económicas da guerra envolvendo o Irão. O aumento dos preços da energia refletiu-se nos combustíveis, nos bens de consumo e também no custo do crédito.

Segundo dados da associação automóvel norte-americana AAA, citados por vários meios de comunicação dos Estados Unidos, o preço médio da gasolina rondava os 4,06 dólares por galão no início de agosto, cerca de 36% acima dos níveis registados antes do conflito. Apesar de a inflação ter abrandado ligeiramente em julho, continua nos 3,4%, acima do nível registado quando Joe Biden deixou a presidência.

Democratas em vantagem nas intenções de voto

As eleições intercalares de novembro serão determinantes para a segunda metade do mandato de Trump. Embora o Presidente não esteja em votação, tradicionalmente estas eleições funcionam como um referendo ao desempenho da administração em funções.

Segundo a sondagem do Financial Times, os democratas lideram atualmente as intenções de voto para a Câmara dos Representantes com 44%, contra 39% dos republicanos. Várias projeções eleitorais apontam para uma possível recuperação da maioria democrata naquela câmara, embora o Senado continue a apresentar um mapa eleitoral mais favorável aos republicanos.

Outros meios norte-americanos confirmam a tendência

A deterioração da perceção económica dos eleitores tem sido igualmente destacada por vários órgãos de comunicação social dos Estados Unidos.

A Reuters, em parceria com a Ipsos, publicou nas últimas semanas sondagens que mostram uma queda da popularidade de Donald Trump, impulsionada sobretudo pela insatisfação com a inflação, o custo de vida e as consequências económicas da política comercial da administração.

Também a CNN, citando estudos da SSRS, tem referido que a economia continua a ser o tema que mais influencia a opinião dos eleitores, com uma maioria a considerar que os preços permanecem demasiado elevados e que o rendimento das famílias não acompanha o aumento do custo de vida.

Por sua vez, o The Washington Post, em conjunto com a Ipsos, concluiu recentemente que a confiança dos norte-americanos na capacidade da administração para controlar a inflação continua em níveis reduzidos, apesar de alguns indicadores macroeconómicos revelarem crescimento económico.

Já o The Wall Street Journal tem assinalado que, embora o mercado de trabalho permaneça relativamente sólido, a perceção dos consumidores continua negativa devido ao impacto dos preços da habitação, dos alimentos, da energia e das taxas de juro, fatores que poderão influenciar decisivamente o sentido de voto nas eleições de novembro.

Apesar destes indicadores desfavoráveis, analistas recordam que Donald Trump já contrariou previsões semelhantes no passado. Nas eleições presidenciais de 2024, a maioria das sondagens atribuía uma ligeira vantagem à então candidata democrata Kamala Harris, mas foi Trump quem acabou por conquistar a vitória eleitoral.

Relacionado

EUA: Compra de obrigações pelo Tesouro vista como positiva para as ações

EUA: Compra de obrigações pelo Tesouro vista como positiva para as ações

Ruben Pires2 Set
A maioria dos analistas consultados pelo JE consideram que a subida do limite mínimo de recompra pelo Tesouro dos Estados Unidos de obrigações, de dois mil milhões de dólares para quatro mil milhões de dólares (1,7 mil milhões de euros e 3,4 mil milhões de euros), a partir de 9 de setembro, pode ter um efeito positivo sobre o mercado de ações, apesar da dimensão da intervenção ser reduzida. Entre os setores que podem sair mais beneficiados estão os que possuem maior sensibilidade às taxas de juro como o tecnológico, o imobiliário e as utilities.