As sociedades anónimas desportivas (SAD) dos três principais clubes do futebol português já informaram o mercado sobre as contas consolidadas da época 2018/2019 e o quadro que se faz dos “motores” do desporto-rei no país permanece misto. Na opinião do vice-reitor da Faculdade de Ciências da Saúde e do Desporto da Universidade Europeia, Luís Vilar, os números antecipam que o Benfica “tem os resultados financeiros de 2019/20 garantidos no verde, sabendo que não pode deixar o FC Porto ser campeão de forma a garantir também os resultados financeiros de 2020/2021 no verde”.
Os números vindos da Luz indicam que o Benfica na última época fez o pleno: venceu no plano desportivo e no plano financeiro. É na Luz que se registaram mais lucros, ativos mais elevados, mais ganhos em direitos televisivos e em patrocínios e melhores contas operacionais. E a SAD das águias é a única com capitais próprios positivos (quando ativo cobre o passivo). “É inequívoco que a Benfica SAD é a que se tem organizado melhor”, disse Vilar ao Jornal Económico, alertando que a gestão financeira das SAD não pode ser olhada só pelo ano passado, “porque a saúde financeira mede-se pela organização estrutural e estratégica das contas a longo prazo”.
Do outro lado da segunda circular e na cidade Invicta, as contas agora comunicadas também permitem antecipar cenários para o próximo exercício anual, o de 2019/2020.
Depois de conseguir “quebrar um ciclo de dois anos de resultados negativos” – sobretudo pelo novo modelo de receitas da Liga dos Campeões e pelo início da contabilização do contrato celebrado com a Altice – o FC Porto tem agora o desafio de “tapar um buraco de 81 milhões de euros [valor amealhado pelo clube na última época em provas da UEFA]”, falhado o apuramento do clube para a Champions.
Luís Vilar, que também é responsável pelo Observatório do Futebol da Universidade Europeia, defendeu ao JE que os dragões terão de fazer dinheiro na venda de jogadores para evitar constrangimentos financeiros futuros: “Ainda que consiga fazer 12 milhões na Liga Europa, e que abdique dos 9 milhões em resultados positivos, o Porto terá de fazer mais valias na venda de jogadores na ordem dos 60 milhões até 30 de Junho de 2020. Considerando que tem cada vez menos talento vendável, e que não são muitos os jogadores cujo passe é detido por si a 100%, este é um desafio enorme para a FC Porto”.
Em Alvalade, reside o maior desafio para o exercício 2019/2020, visto que a SAD do Sporting registou os piores resultados financeiros entre os ditos três grandes. O excesso de gastos, “desproporcionais ao ativo e à receita ordinal anual”, e um passivo muito alto geram uma “pressão enorme da dívida de curto prazo”.
Qual a solução, então para um resultado positivo nas contas anuais da época 2019/2021? “Vai ter de continuar a baixar a folha salarial do plantel [algo que já deve ter feito por esta altura] e manter índices elevados de competitividade”, através do apuramento para a fase de grupos da Liga dos Campeões da época 2020/2021, respondeu LuísVilar.
Mas os desafios não ficam por aqui. Os leões terão de conseguir “incrementar a receita proveniente do marketing”- nas contas anuais da época passada o clube apenas canalizou 13,3 milhões de euros. Mas para gerar mais receita no marketing, os verde e brancos terão de ter sucesso desportivo. “Paralelamente, o Sporting terá de vender jogadores [possivelmente Bruno Fernandes] para ir pagando o estrago financeiro que ainda está por sanar”, acrescentou.
FC Porto e Sporting com endividamentos superiores a 100%
Benfica, Porto e Sporting – que pela segunda época consecutiva apresentou prejuízos – registaram dívidas demasiado elevadas para a dimensão do futebol português. Terão os ditos três grandes incapacidade de alienar dívida?
“Um dos erros quando se comparam empresas diferentes [e de dimensões também diferentes] é comparar-se o passivo. Importa considerar a divida que cada SAD tem face ao seu ativo, isto é, face ao valor dos seus bens tangíveis e intangíveis. Esse exercício permite-nos perceber que Porto e Sporting tem endividamentos superiores a 100% [109% e 108%, respetivamente], enquanto Benfica tem um endividamento de 76%. Isto quer dizer que o montante em dívida pelo FCPorto e Sporting é superior ao seu valor”, explicou Vilar.
Assim se explicam os capitais próprios negativos (falência técnica) de Porto e Sporting. “Esta é uma situação difícil de reverter numa empresa tradicional, mas não tão difícil numa SAD”, afirmou Luís Vilar.´ A solução para uma redução dos passivos passa sempre pelo sucesso desportivo.
“Parece-me claro que quem ficar fora da liga dos campeões de forma consecutiva estará afastado da luta pelo titulo nacional a curto prazo, considerando a dimensão da receita do novo modelo de distribuição da Champions entre 2018 e 2021 e o impacto que isso traz para a contratação de jogadores e incremento da folha salarial. Sairá da crise mais rápido quem tiver melhores resultados desportivos e quem tiver melhor proveito nas transações de jogadores”, concluiu o especialista.