Diogo Roberto, Aluno do 3º ano da licenciatura de Economia na Nova SBE

As possíveis consequências de uma redução do valor das propinas

Apesar de todas estas áreas serem importantes na perspetiva da qualidade do ensino e das instituições de ensino superior, a inclusão social de alunos mais carenciados é um aspeto particularmente relevante.

O ensino superior e o valor das propinas são temas cada vez mais debatidos em Portugal, com várias pessoas a pedir uma redução no seu valor. No entanto, antes de avançar com esta medida é importante perceber quem vai beneficiar com ela, e se esta medida vai tornar o acesso ao ensino superior em Portugal mais inclusivo.

Primeiro é importante analisar o valor das propinas máximas em Portugal. Ao longo dos últimos anos o seu valor esteve em aumento constante entre 2003 (852 euros) e 2014 (1.065 euros), seguindo-se uma ligeira estagnação nos três anos seguintes e, desde então tem vindo a decrescer, situando-se atualmente nos 697 euros.

Já o número de estudantes no ensino superior tem feito o caminho oposto. Segundo o PORDATA, em 2021, Portugal atingiu o valor mais alto de sempre de alunos no ensino superior, estavam matriculados 411.995 alunos (261.299 alunos universitários e 150.696 alunos inscritos em politécnicos), sendo que o anterior máximo tinha sido registado em 2003, com 400.831 alunos (255.109 alunos universitários 145.722 alunos inscritos em politécnicos) matriculados.

Tendo em conta estes números, é normal que exista uma maior pressão orçamental nas instituições de ensino superior, já que o número de alunos é cada vez maior e as propinas cada vez menores. No entanto, segundo um relatório por parte da Associação Europeia de Universidades, em Portugal os fundos destinados a universidades públicas mantiveram-se 0,38% do PIB entre 2015 e 2019, enquanto em países como a Alemanha ou a Suécia registaram-se 0,93% e 1,18% do PIB, respetivamente.

No entanto, o tema relacionado com os fundos destinados a instituições de ensino superior é um tema delicado. O ensino superior compete com os outros tipos de ensino (ensino pré-escolar, primário, básico e secundário), que normalmente têm prioridade no acesso a fundos do orçamento de estado, algo que é suportado por alguns estudos. Não só os outros tipos de educação, mas também outras áreas muito importantes como a saúde que receberam ainda mais importância com a pandemia, isto tudo tendo em conta que os fundos são limitados.

Este tópico já foi debatido noutros países europeus em anos anteriores, por exemplo, em 2019 em Inglaterra. Nessa altura o comité de Ciência e Tecnologia do parlamento inglês sugeriu através de um relatório que, caso a opção seja diminuir o valor das propinas, teria necessariamente que haver um aumento de fundos públicos direcionados às universidades para poderem manter o mesmo nível de financiamento que antes.

Caso essa compensação não exista, as universidades seriam forçadas a retirarem financiamento a outras áreas muito importantes como a investigação, investimento em infraestruturas ou na manutenção da qualidade dos serviços prestados.

Apesar de todas estas áreas serem importantes na perspetiva da qualidade do ensino e das instituições de ensino superior, existe também outra perspetiva muito relevante, a inclusão social de alunos mais carenciados. Uma redução do valor das propinas veria necessariamente uma redução no número de bolsas e/ou no seu valor. Para os alunos com capacidade financeira de suportar os custos não causa nenhum problema, mas para os alunos que não têm essa capacidade e necessitam de outras formas de financiamento, pode ser muito prejudicial.

Isto pode alargar a desigualdade social no acesso ao ensino superior, algo oposto ao que tem acontecido em Portugal. Desde 2005, excetuando o período entre 2011 e 2015, o número de bolsas de estudo atribuídas a alunos no ensino superior tem vindo a aumentar gradualmente, situando-se num novo máximo em 2020, de 79.249 bolsas atribuídas, de acordo com o PORDATA.

Para saber mais sobre este e outros temas relacionados com o ensino superior em Portugal, pode assistir ao debate que ocorreu no Economia Viva, onde este tema, “O ensino superior e a política de propinas” foi abordado. O debate ocorreu no dia 9 de fevereiro e está disponível nas nossas redes sociais.

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