Uma vitória esmagadora e acima de todas as expectativas do partido do presidente Javier Milei, o La Libertad Avanza (LLA) nas eleições legislativas de meio do mandato não deixa margem para qualquer dúvida: os argentinos deram uma inequívoca resposta positiva às opções liberais do presidente nas frentes económica e social. Milei foi talvez o mais surpreendido de todos: o seu silêncio na altura em que foi filmado a votar – que contrastou com a sua natural exuberância – mostrava que o presidente tinha sérias dúvidas que o dia que corresse bem. Dificilmente lhe podia ter corrido melhor: a partir de 10 de dezembro, o LLA, passa a ter, na Câmara dos Representantes, 101 lugares em vez de 37 (em 257) e, no Senado, 19 cadeiras em vez de nove (em 72 lugares). São mais do dobro num contexto em que não eram todo o Senado nem toda a Câmara dos Representantes que ia a votos – o que transforma a vitória numa verdadeira razia para os adversários, nomeadamente o chamado ‘kirchnerismo’ (uma espécie de pós-peronismo que liderou o país por décadas e que parece estar agora definitivamente ‘enterrado’).
Para Milei é a realização de um sonho político: finalmente conseguirá fazer aquilo que era o seu maior desejo – o ‘triângulo de ferro’: presidência, Câmara dos Representantes e Senado alinhados, e a partir de agora incapazes de continuarem a ‘debitar’ políticas e soluções contrárias às opções presidenciais. Principalmente ao nível da Câmara dos Representantes, deixou de haver uma maioria qualificada de dois terços que possa avançar com uma agenda política autónoma que, nos últimos dois anos, deitou por terra muito do esforço de Milei.
O presidente sabe agora qual é a sua prioridade: ‘estancar’ aquilo que são as tentações no interior do seu próprio partido, que têm levado à multiplicação de casos de corrupção e a tentativas de aliança de forças suspeitas com o LLA. Mas isso tem tempo: a altura é agora de comemoração e de enviar à Casa Branca um telegrama a explicar que o país está pronto para receber um novo empréstimo de 20 mil milhões de dólares e para concluir o tratado de livre comércio com os Estados Unidos.
Em termos político, Milei já está a tratar de tudo, tendo para isso um outro ‘triângulo de ferro’: ele próprio, a sua irmã Karina e o seu principal conselheiro, Santiago Caputo. Ao subir ao palco do Hotel Libertador, o chamado bunker libertário, o chefe de Estado enviou uma mensagem conciliadora e reafirmou o apoio contínuo do seu círculo íntimo à tomada de decisões: “Como esperado, aos dois gigantes que foram os arquitetos deste milagre, Santiago Caputo e Karina Milei. Muito obrigado”, disse, citado pela imprensa argentina.
Entre os membros mais poderosos da Casa Rosada – o palácio presidencial que é um símbolo das loucuras políticas do país – o gesto foi interpretado como um sinal claro de que Milei busca equilibrar e mediar a luta interna que decorre ‘a céu aberto’. “É claro que o triângulo de ferro está fortalecido”, disse um dos assessores do governo citado pelas mesmas fontes.
O LLA venceu em 16 dos 24 distritos, incluindo os cinco maiores, e ganha mais de dez pontos percentuais sobre o kirchnerismo no resultado geral. O próprio Milei havia dito que aspirava apenas a garantir um terço dos votos na Câmara dos Deputados – o suficiente para bloquear a maioria qualificada, que lhe permitiria blindar a Câmara contra vetos e leis próprias. O partido de Milei conquistou 40,84% dos votos nacionais e liderava por um ponto na província de Buenos Aires, o reduto onde a oposição do Fuerza Patria (FP) havia vencido por treze pontos nas eleições locais de 7 de setembro passado. Dizimado pela ‘onda Milei’, o FP não foi além dos 31,7%, uma poderosa derrota.
Ciente de que consolidou o seu projeto político, o presidente expressou confiança de que seria capaz de implementar medidas substanciais na segunda metade do seu mandato e convidou governadores não identificados com o kirchnerismo ao diálogo, chamando-os atores ‘racionais’ e ‘pró-capitalistas’. Assim, abriu as portas para os setores de oposição que cooperaram com Milei no Congresso, especialmente durante a aprovação da Lei Constitucional. Com estas palavras, Milei deu pistas concretas de que está a tentar deixar para trás as intermináveis discussões com os governadores, já que aspira agora a garantir a maioria no Congresso para aprovar as reformas tributária e das leis do trabalho.
“Parabéns ao presidente Javier Milei pela sua vitória esmagadora na Argentina. Ele está a fazer um excelente trabalho! O povo argentino justificou a nossa confiança nele”, escreveu Trump, a caminho do Japão, nas redes sociais.