Não há aqui ponta de exagero ou de sensacionalismo. No início de 2022, quando o Papa Francisco apelou a que as pessoas tivessem mais filhos e que não os substituíssem por animais de estimação, alguns defensores dos direitos dos animais acharam oportuno atrair atenções para si e condenaram a mensagem, argumentando que o Papa estaria a desincentivar a adoção de animais de estimação.
Em vez de servir para suscitar uma reflexão sobre o sério problema demográfico e sobre as fragilidades sociais, psicológicas e morais do nosso tempo, o puro bom senso da mensagem papal foi mal interpretado e descartado, como é natural suceder em sociedades desligadas da sua essência, de instintos básicos e de uma hierarquia de valores testada pelo tempo.
Face às situações solitárias e potencialmente depressivas resultantes das condições de vida do meio urbano ou da distância entre membros da família, os animais são uma fonte de terapia e conforto emocional.
Apesar de existir uma motivação utilitária subjacente à posse de animais de estimação, não é raro que os defensores da crescente afectividade entre pessoas e animais sintam necessidade de apontar motivações utilitaristas – e até egoísmo ou irresponsabilidade ambiental – às pessoas que se reproduzem. Como se não fosse suposto as propriedades mais belas, intrínsecas e fundamentais do ser humano trazerem consigo utilidades, para além do seu valor intrínseco. Sempre assim foi e sempre será, ainda que a vida moderna reduza a utilidade da família quase exclusivamente aos seus benefícios emocionais.
Ainda assim, os benefícios emocionais proporcionados pela família, e sobretudo pelos filhos, jamais poderão ser equiparados ao tipo de benefícios proporcionados pela companhia de um animal. A parentalidade expressa dádiva, partilha de riscos e vontade de perpetuação do legado e da própria imagem no futuro. Qualquer tentativa de assemelhar os animais a filhos não passa de uma ficção comodista que ridiculariza o animal e desumaniza o homem.
Mas que tipo de sociedade é esta que prefere agarrar-se orgulhosamente à insuficiência do seu modo de vida, recusando ouvir conselhos edificantes? Que tipo de sociedade é que fica mais alarmada com um eventual desincentivo à posse de animais de estimação (inverosímil) do que com os inúmeros desincentivos modernos à parentalidade (tendência generalizada há décadas)?
A indiferença perante o declínio da natalidade é muitas vezes disfarçada com considerações sobre a precariedade, como foi exemplificado nas declarações públicas da líder do PAN. Embora existam obstáculos materiais que influenciam a decisão de muitos casais, não é honesto ignorar que muitas pessoas recusam a parentalidade simplesmente porque não querem abdicar de um certo padrão de vida a que se acostumaram. Tal como não é sério ignorar que ter um animal doméstico, ou vários, também envolve despesas muito avultadas, que não estão ao alcance de qualquer um.
A grande diferença é que o animal tem uma longevidade mais curta, não exige tanta atenção e não exige vínculo jurídico (até pode ser deixado para trás na hora de ir de férias, num gesto vil). Com tais características, o animal encaixa de forma mais eficiente na fluidez e no individualismo dos seus donos, mantendo uma fidelidade incondicional a estes.
Há poucos dias, o bispo do Porto, Manuel Linda, pronunciou-se sobre este tema no Twitter: “Os laços de sangue entre pais e filhos possuem uma tal força que nada os desfaz. Nunca os substituamos pelo apego a um qualquer animal de estimação, típico das sociedades decadentes”. A líder do PAN reagiu, não para falar de precariedade, como fez em reacção ao discurso do Papa, mas desviando o assunto para o tópico dos abusos sexuais. Citando a deputada: “Os laços de amizade que unem o ser humano aos animais nada têm de decadente! Já os abusos contra menores tipificam o de mais abjeto que há em sociedade.”
Não só não conseguiu refutar que os laços entre pais e filhos são superiores, como deturpou as palavras do bispo, tentando insinuar que a palavra “decadente” foi por ele associada à relação entre seres humanos e animais, quando foi utilizada para caracterizar o estado da sociedade.
Finalmente, sabemos bem como que é difícil resistir aos temas mediáticos, mas é preocupante que se banalize esta falta de lógica e seriedade da parte de representantes políticos. É óbvio que Inês Sousa Real jamais poderia ter referido o tema dos abusos sexuais se o mensageiro não fosse um clérigo, mas encontrando a oportunidade, não resistiu a cavalgar a justa indignação popular que se fez sentir na sequência das indignas declarações do Presidente da República.
Quanto a este ponto, importa ainda ter especial cautela para perceber as reais motivações de indignação que se generalizaram. Os portugueses estarão verdadeiramente sensibilizados para proteger os seus filhos e a inocência da infância, ou revoltam-se apenas à base de um anti-clericalismo desordenado? Note-se que a opinião pública reage emocionalmente, e bem, contra os ignóbeis abusos sexuais perpetrados por alguns membros da Igreja Católica, mas, por outro lado, é incapaz de se manifestar em uníssono contra o avanço de opções perversas no espaço escolar que constituem uma séria ameaça à privacidade e segurança de crianças e jovens, como o exemplo do acesso livre de alunos e professores a casas de banho “não-binárias”.
Os experimentalismos ideológicos que nos chegam do estrangeiro podem não vingar, mas não devemos subestimar o poder de tais avanços graduais perante uma população demasiado ingénua e passiva. Não será por acaso que temos entre nós o ditado que diz “casa roubada, trancas à porta”.
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.