Angola: corrupção no poder judicial é “absolutamente lesiva dos interesses do país”, diz bastonário José Luís Domingos

O bastonário discursava na abertura do ano judicial, sob o lema “Justiça, Ética e Responsabilidade”, que decorre hoje no complexo protocolar da Presidência da República, em Luanda.

Angola: corrupção no poder judicial é “absolutamente lesiva dos interesses do país”, diz bastonário José Luís Domingos
Ordem dos Advogados de Angola-Oficial | Facebook

O bastonário da Ordem dos Advogados de Angola afirmou esta terça-feira que a corrupção instalada no poder judicial é “absolutamente lesiva dos interesses do país” e defendeu um resgate “urgente” da credibilidade da justiça, apelando à coragem de acolher as denúncias.

O bastonário discursava na abertura do ano judicial, sob o lema “Justiça, Ética e Responsabilidade”, que decorre hoje no complexo protocolar da Presidência da República, em Luanda.

“Angola já venceu batalhas decisivas: vencemos a luta da independência, ganhámos a paz, ganhos que devem nos orgulhar, mas falta um passo determinante para desfrutarmos das nossas vitórias: a consagração de um Estado de direito materialmente forte”, afirmou.

O responsável considerou que “só quando o Direito impera é que as instituições são fortes e só quando são fortes um país prospera”, perguntando qual é hoje a perceção do cidadão sobre o Estado de direito em Angola.

“O angolano acredita que ao recorrer aos tribunais terá decisão em tempo útil, que será julgado com imparcialidade e que a lei é igual para todos”, questionou.

Para o bastonário, é preciso “urgentemente resgatar a credibilidade do poder judicial”, sublinhando que essa mudança “não virá por decretos, não cairá do céu e não virá de discursos”, mas será “resultado de mudança institucional”.

“Ou caminhamos juntos na resolução dos problemas estruturais que afetam a nossa justiça ou falharemos todos”, advertiu, lembrando que os tribunais são “a esperança do cidadão”, mas quando essa esperança é frustrada instala-se “um sentimento de abandono”.

Entre os problemas estruturais apontados, destacou “um, gravíssimo, que tem de ser encarado com frontalidade: a corrupção que se instalou no poder judicial e que é absolutamente lesiva dos interesses do país”.

“Destrói qualquer possibilidade de termos o país que queremos e merecemos. Quando a justiça se corrompe já não há esperança”, afirmou, apontando como exemplos encomendas de sentenças, compra de decisões, arquivamento de processos, entre outras práticas injustas.

O bastonário defendeu que o problema tem de ser resolvido “pela própria justiça”, que deve ter “coragem de acolher as denúncias”, rejeitando o argumento da falta de condições.

“Quem é íntegro não se corrompe independentemente das dificuldades que enfrentamos. Aqueles que se corrompem já eram corruptos”, frisou.

O responsável adiantou que a Ordem dos Advogados não ficará apenas pelos discursos e está a implementar um canal de denúncia, designado “Justiça Limpa”, em articulação com a Procuradoria-Geral da República, criando um mecanismo permanente com proteção dos denunciantes.

“Alertamos mais uma vez: os corruptos não podem dominar a justiça. Os corruptos têm de ser banidos do poder judicial”, concluiu.

Relacionado

“Advogados angolanos continuam praticamente excluídos da assessoria ao setor petrolífero”, diz bastonário

“Advogados angolanos continuam praticamente excluídos da assessoria ao setor petrolífero”, diz bastonário

Inês Amado24 Nov
Em comunicado, o Bastonário da Ordem dos Advogados de Angola, José Luís Domingos, lamenta que, cinco anos após a entrada em vigor do decreto presidencial que aprovou o Regulamento do Conteúdo Local do setor petrolífero, os "advogados angolanos continuam praticamente excluídos da assessoria" àquele que é o "principal pilar da economia angolana".