André Marquet, CEO da Productized: “Falta uma estratégia nacional para a ´nova defesa´”

Ao longo dos próximos três dias, 15 startups estarão a desenvolver soluções nas áreas da defesa aérea no Eudis Defence Hackaton. O CEO da Productized, empresa que organiza o evento explica como a “Nova Defesa” pode alavancar o crescimento empresarial em Portugal.

André Marquet, CEO da Productized: “Falta uma estratégia nacional para a ´nova defesa´”
André Marquet

De hoje até sábado, 28, decorre a edição portuguesa do EUDIS Defence Hackathon da Comissão Europeia, no Beato Innovation District, em Lisboa. O evento vai reunir startups para desenvolverem soluções tecnológicas nas áreas da defesa do espaço aéreo –  incluindo tecnologias contra drones e segurança marítima.

Esta iniciativa da Comissão Europeia no âmbito do Fundo Europeu de Defesa, é organizada em Portugal pela Productized e irá decorrer em simultâneo em oito países europeus. André Marquet, CEO da Productized e auditor de Defesa Nacional levanta o véu do evento e diz como o setor da “Nova defesa” pode crescer em Portugal.

 

Com o aumento das exigências da NATO em matéria de despesa em Defesa, em que medida iniciativas como esta contribuem para a resposta portuguesa a esse desafio?
Vamos inevitavelmente gastar mais e isso já foi anunciado. A questão crítica é como é que esse dinheiro é gasto. Se for maioritariamente canalizado para aquisição de grandes sistemas como caças, fragatas ou submarinos, o impacto na economia nacional é muito reduzido, porque estamos essencialmente a importar capacidade.  A chamada “nova defesa” abre uma alternativa neste sentido. Estamos a falar de soluções mais rápidas de desenvolver, muito mais baratas, com potencial de adaptação contínua e muitas delas criadas por startups. Mesmo os Estados Unidos, que têm uma indústria de defesa gigantesca, já começaram a incorporar este modelo de forma mais agressiva.

Iniciativas como o EUDIS funcionam como ponto de entrada e dão início ao que pode ser uma estratégia de inovação, e permitem que parte do investimento em defesa possa, no futuro, ser canalizado para soluções desenvolvidas localmente. Isso não substitui o investimento tradicional, mas pode torná-lo muito mais eficiente.

A escolha das áreas de drones, deteção e segurança marítima foi deliberada — corresponde às lacunas tecnológicas mais críticas de Portugal neste setor?
Nesta iniciativa existem dois níveis. Por um lado, drones e deteção são áreas definidas ao nível europeu, através do EUDIS, e são comuns aos vários países participantes uma vez que refletem as prioridades claras no contexto atual.  Por outro lado, existe margem para adaptação nacional, e foi aí que a Productized com o nosso departamento de inovação em defesa decidimos introduzir o tema da segurança marítima. Essa escolha é bastante estratégica e resulta de um alinhamento entre as necessidades identificadas, nomeadamente pela Marinha Portuguesa, e aquilo que são as características estruturais de Portugal. Temos uma das maiores zonas marítimas da Europa e uma necessidade de monitorização e proteção. Portanto, faz sentido que Portugal se posicione onde tem contexto, escala e possibilidade de testar soluções.

Portugal tem já a massa crítica de talento e empresas necessária para se afirmar neste setor a nível europeu, ou ainda estamos numa fase de construção desse ecossistema?
Sem dúvida que Portugal tem talento e isso é evidente. Basta olhar para o nível de participação de Portugal, que está ao nível de países como a Polónia, que investem muito mais e têm uma pressão geopolítica completamente diferente. Há talento, há vontade e há recetividade, sobretudo por parte de talento jovem, para trabalhar nesta área. O problema não está aí. O problema é que esse talento não está a ser devidamente orientado nem potenciado. Falta uma estratégia nacional para a “Nova defesa”.

Imagem da última edição do EUDIS defence Hackathon

Atualmente, o que vemos do ponto de vista de programas públicos e investimento ainda está muito longe do que seria necessário para estruturar um verdadeiro ecossistema. Portugal tem uma oportunidade através do talento, da localização e pelo contexto atual, mas essa oportunidade só se concretiza se houver uma decisão clara: canalizar parte do investimento em defesa para startups e inovação. Sem essa orientação e sem bases sólidas, continuaremos com iniciativas isoladas, sem ligação às necessidades operacionais e sem capacidade de escalar soluções.

Para além do hackathon, que mecanismos concretos garantem que as soluções desenvolvidas chegam efetivamente ao mercado de defesa?
O hackathon é só o ponto de entrada. O que começa a acontecer, e isso é relevante, é que há cada vez mais interesse por parte de players do mercado em aproximar-se da inovação. Estamos a ver empresas a querer trabalhar com startups, a perceber que esta lógica de “Nova defesa” vai ganhar peso.

A Productized tem procurado assumir esse papel de ligação. Temos, por exemplo, uma parceria com a Critical Software para organizar meetups e momentos de networking focados em defesa, onde juntamos startups, indústria, investidores e o restante ecossistema. Estes encontros vão continuar a realizar-se até ao final do ano e vamos lançar novas edições em breve. Depois há um segundo nível, que é mais estrutural. As Forças Armadas têm mostrado abertura para testar soluções através de programas como o Repmus ou o Artex, sendo isto essencial, porque permite validação em contexto operacional. Mas falta ainda a peça mais importante é que um mecanismo de financiamento e aceleração nacional que faça a ponte entre protótipo e produto. Atualmente existem programas europeus e fundos internacionais, mas isso responde a prioridades mais amplas. Se queremos defender interesses nacionais, precisamos de instrumentos próprios — um fundo “ponte”, com participação do Estado e coinvestimento privado, que reduza risco e dê previsibilidade. No limite, o mercado aqui é o próprio Estado. Se houver sinal claro de compra, o ecossistema responde. Sem isso, continuamos a gerar boas ideias que não chegam a contrato.

Como está estruturado o financiamento dos prémios — os 10 mil euros vêm da Productized, dos parceiros privados, ou há financiamento europeu do EUDIS?
Os 10 mil euros são integralmente assegurados por financiamento privado, mobilizado pela Productized. Isto não vem diretamente de fundos europeus, mas sim de um trabalho ativo de envolvimento do ecossistema. Na prática, isto significa ir ao mercado e trazer parceiros relevantes para dentro da iniciativa.

Estamos a falar de entidades como a Vieira de Almeida, a Tytan (um dos grandes players internacionais na área de drones), a Critical Software e a Unicorn Factory Lisboa, que se associam ao projeto não só pelo financiamento, mas também pela proximidade ao ecossistema e pela capacidade de gerar oportunidades futuras para as startups.

Portugal aparece como o terceiro país mais participativo desta edição europeia. O que explica esse resultado?
Há uma ideia instalada de que não existe interesse pela área da defesa em Portugal, e isso não corresponde à realidade. O que estamos a ver é exatamente o contrário: existe uma apetência crescente por parte dos fundadores, engenheiros e talento mais jovem para trabalhar em defence tech, até superior ao que seria expectável para um país que está relativamente afastado dos principais focos de conflito.

Isso também reflete uma maior consciência do contexto geopolítico atual. Há uma geração mais informada, mais atenta e com vontade de contribuir para soluções tecnológicas ligadas à segurança e defesa.

A equipa Raid, vencedora da edição de outono, converteu a participação no ARTEx26 em algo concreto — um contrato, uma parceria, receita?
A equipa Raid levou o seu protótipo até à final europeia, onde ficou em segundo lugar, o que demonstra claramente a qualidade técnica e o potencial das equipas portuguesas neste setor.

Neste momento, estão ainda em fase de desenvolvimento do produto, que não é um sistema simples. Trata-se de um sistema de radar relativamente sofisticado, o que implica ciclos de desenvolvimento mais exigentes e demorados.

O próximo passo será a validação em contexto operacional, nomeadamente através da participação no ARTEX, onde poderão testar a tecnologia. A evolução para contratos ou receita vai depender não só da maturidade do produto, mas também do nível de apoio e acompanhamento que o ecossistema conseguir dar a este tipo de projetos.

A edição anterior foi a mais participada da Europa. Qual foi o retorno efetivo para o ecossistema português — e para a Productized?
Do ponto de vista do ecossistema, o mais relevante é que começamos finalmente a ter momentos onde todos os players se encontram — startups, indústria, talento, instituições. Isso pode parecer básico, mas neste setor não existia e sem esses pontos de contacto, não há coordenação nem desenvolvimento consistente.

Para a Productized, o retorno foi sobretudo posicionamento. Fomos reconhecidos pela Comissão Europeia como um parceiro credível, num processo competitivo, e voltámos a ser selecionados para organizar esta segunda edição. Isso dá-nos um nível de responsabilidade, mas também de reconhecimento dentro do ecossistema europeu.

Estamos já a trabalhar nos próximos passos com a criação de um programa de aceleração na área da “Nova defesa”, idealmente em articulação com o Ministério da Defesa, que permita dar continuidade a este trabalho e posicionar Portugal como uma referência europeia neste setor.

Qual é, na prática, o percurso de uma startup vencedora deste hackathon até assinar o primeiro contrato no setor da defesa?
O percurso começa com a validação da ideia no hackathon e o desenvolvimento de um primeiro protótipo. Esse protótipo funciona como prova de conceito, permitindo à startup levantar financiamento inicial, seja seed capital ou entrada em programas europeus e redes internacionais na área da defesa.

A partir daí, o passo é a validação operacional. As equipas entram em programas como o Repmus ou o Artex, onde testam a tecnologia com as Forças Armadas. Se a solução demonstrar valor, pode evoluir para mecanismos de financiamento à inovação e, posteriormente, para processos formais de aquisição.

O processo existe, mas ainda é longo e pouco estruturado em Portugal. Há casos que já fizeram este caminho, mas mostram precisamente que sem continuidade e apoio ao longo das várias fases, a transição de protótipo para contrato demora mais do que devia.

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