Estas eleições europeias serão sui generis. Em primeiro lugar, porque nunca se elegeram tantos deputados que são abertamente contra a Europa e suas instituições como acontecerá domingo. Em segundo lugar, porque os britânicos, com um pé fora da União, vão eleger deputados sem saber por quanto tempo e o que vão fazer, e a quem ninguém vai prestar atenção. Em terceiro lugar, muito do que se joga nestas eleições não tem que ver com a União, mas sim com as guerras políticas nacionais, embora tenha profundos reflexos na Europa e no seu funcionamento, alinhamento regional e capacidade de intervenção, a médio e longo prazo.
Com efeito, estas eleições põem os populismos e nacionalismos na primeira linha do panorama político europeu. Tornam visível como um padrão geograficamente alargado o que se vinha notando país a país, e põem em cima da mesa o papel do grupo Europa das Nações e das Liberdades/Aliança Europeia dos Povos e Nações, o mais pequeno do atual Parlamento Europeu e dos mais representativos do próximo. São o trampolim político que Salvini quer usar por a Itália se estar a tornar pequena para si e complicada para as selfies, que Le Pen precisa para se reafirmar, que a AfD procura para lhe dar um ar respeitável.
No Reino Unido estas eleições terão um sentido especial: face ao que são, são absolutamente inúteis. Assim, há os que querem fazer delas o segundo referendo sobre a permanência na União, e os querem mudar o equilíbrio político e ganhar argumentos para forçar eleições legislativas. Se parece confuso agora, imagine-se dia 24, quando houver resultados. Nesta matéria, o Reino Unido é o país das maravilhas: em 2014 Nigel Farage bateu-se por lugares num parlamento a que não quer pertencer, e venceu, o que mostra o que os britânicos pensam das instituições europeias. Agora vai repetir a graça à potência 10: as sondagens dão-lhe mais votos que trabalhistas e conservadores somados.
Aliás, corre-se o risco do sistema político levar uma varredela à francesa: a última sondagem da YouGov dá aos conservadores 9% dos votos, e 15% aos trabalhistas; nas eleições de 2017 tiveram mais de 82%. Um partido com 9% dos votos, ainda que em eleições europeias, tem legitimidade para governar? Neste cenário agudiza-se a crise britânica. Boris já avançou para suceder a May, e mesmo aqueles que nunca votariam nele vão apoiá-lo pois, como Brexiter Supremo, é a melhor figura para contrariar Farage e conter a deserção em massa do eleitorado conservador. Ele vai ser o fantasma da opereta destas eleições, e o seu pior adversário é ele próprio.
Vamos ter um Parlamento Europeu razoavelmente desalinhado daquilo que são os objetivos da União e das razões da sua criação. Vamos decidir o que é global, estratégico, estruturante e de longo prazo, com base no que é local, tático, comezinho e de curto prazo, mas começa a tornar-se um hábito.