Aeroporto do Montijo só vai ter reserva de combustível para três dias

Resumo não técnico do estudo de impacto ambiental elenca cenários de ocorrência de acidentes graves envolvendo substâncias perigosas.

Aeroporto do Montijo só vai ter reserva de combustível para três dias
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Se for construído tal como está previsto neste momento, o futuro aeroporto do Montijo só terá autonomia de combustível para três dias. Segundo o resumo não técnico do estudo de impacto ambiental desta infraestrutura, que desde o início desta semana está disponível no site oficial da APA – Agência Portuguesa do Ambiente, “no aeroporto Montijo está prevista uma área de armazenamento de combustíveis para o abastecimento de aeronaves, designada por Grupo Operacional de Combustíveis (GOC), constituída por três tanques de Jet-A1 [combustível específico para os aviões] com uma capacidade nominal de 2.750 metros cúbicos, cada (até 2042); três reservatórios de AvGas, de 30 metros cúbicos, cada; e dois reservatórios de defuelling (Jet A1), de 30 metros cúbicos, cada”.

De acordo com esse documento, “a partir de 2042, inclusive, prevê-se a instalação de um quarto tanque de Jet-A1 com a mesma capacidade de 2.750 metros cúbicos dos restantes, por forma a manter a autonomia de três dias sem qualquer estabelecimento, sendo esta capacidade suficiente até ao ano de 2062 (inclusive)”.

Esta é uma das áreas que está a suscitar mais críticas entre diversos especialistas do setor contactados pelo Jornal Económico e que solicitaram o anonimato, sendo a contestação não só à questão da operacionalidade – recorde-se que a greve prevista a partir de 12 de agosto próximo pelos motoristas de matérias perigosas está a suscitar uma preocupação generalizada em termos de abastecimento de diversas infraestruturas consideradas vitais para o funcionamento da economia, como são os casos dos aeroportos – mas também direcionada para o capítulo da segurança.

“Ao nível do risco de acidentes graves envolvendo substâncias perigosas foi efetuada uma avaliação de compatibilidade de localização do GOC, tendo sido considerados 75 cenários que podem afetar as pessoas, instalações e o ambiente e que se relacionam com o armazenamento e utilização do combustível a utilizar nas aeronaves – Jet A-1 e AvGas”, avança o resumo não técnico do estudo de impacto ambiental do projeto referente ao novo aeroporto no Montijo, elaborado pela empresa Profico.

O mesmo documento acrescenta que, “de acordo com os cenários de acidentes identificados, para além dos edifícios administrativo e de manutenção do GOC do aeroporto do Montijo não haverá mais nenhum edifício ou zona de uso sensível afetada, exceto um parque de estacionamento destinado a passageiros e visitantes, a via de acesso ao terminal de passageiros e uma via de serviço do aeroporto do Montijo”. As diversas fontes contactadas pelo Jornal Económico consideram que existe o risco de incêndio em demasiadas áreas sensíveis do futuro aeroporto.

Sobre esta questão, o referido estudo de impacto ambiental adianta apenas que, “para minimizar os efeitos nestas áreas são recomendadas medidas que passam por ajustamentos na configuração final do desenho do aeroporto do Montijo (a realizar na fase de projeto de execução), de modo a afastar as áreas afetadas, do GOC”.

“Relativamente aos cenários de acidentes com consequências ambientais, da análise da avaliação da possibilidade de contaminação dos recursos hídricos, concluiu-se que não irão ter consequências negativas, uma vez que os derrames ficarão contidos no interior da bacia de retenção que envolve os depósitos de combustível ou na caleira em betão dimensionada para conter as águas pluviais para reter qualquer derrame acidental que ocorra no aeroporto do Montijo, proveniente da zona de circulação/abastecimento das aeronaves”, conclui o citado estudo de impacto ambiental.

Com a entrada em fase de consulta pública, o projeto do novo aeroporto do Montijo viu a contestação subir de tom. O ex-bastonário da Ordem dos Engenheiros, Carlos Matias Ramos é um dos críticos do projeto e do estudo de impacto ambiental que o sustenta, tendo já criado a plataforma cívica ‘Aeroporto BA6- Montijo Não’. Na passada sexta-feira, dia 26 de julho, essa plataforma endereçou uma carta ao secretário de Estado Adjunto e das Comunicações, Alberto Souto de Miranda, defendendo que a opção ‘Portela+Montijo é “uma solução sem futuro que não serve o país e penaliza as pessoas”.

“É nossa convicção, devidamente justificada, que a solução Portela mais Montijo é uma solução sem futuro, de curto prazo, e cuja decisão, necessariamente política, não foi devidamente sustentada numa análise custo-benefício que contemplasse outras soluções alternativas”, destaca o referido documento, a que o Jornal Económico teve acesso. Nesse documento, de 18 páginas, Carlos Matias Ramos e outros subscritores da plataforma sublinham que “não temos conhecimento que exista qualquer documento que, de forma clara e integrada, cumprindo a referida análise custo-benefício e a legislação em vigor, possa ter sido a base da decisão, necessariamente sempre política, para a localização do aeroporto na BA6 (Montijo) e, em particular, uma avaliação comparada com a muito estudada localização no CTA [Campo de Tiro de Alcochete] que, numa primeira fase, desempenharia, sem restrições, as funções de aeroporto complementar do Aeroporto Humberto Delgado”.

Em declarações ao Jornal Económico, Carlos Matias Ramos resumiu as suas críticas a três pontos-chave: prazo de execução, custos e longevidade. O ex-bastonário da Ordem dos Engenheiros, que enquanto presidente do LNEC – Laboratório Nacional de Engenharia Civil foi o principal autor de um estudo sobre a localização do novo aeroporto de Lisboa em Alcochete, num projeto faseado, considera que nestes três capítulos Alcochete apresenta vantagens em relação à opção do Montijo. Sobre o teor do estudo de impacto ambiental conhecido esta semana resume assim: “é um conjunto de afirmações que revela desconhecimento total”.

 

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