Filipe Morais, Professor de Governance & Reputation, Henley Business School, Reino Unido, e Partner na AMROP

A (ir)responsabilidade social dos media

Sem a colaboração activa da comunicação social as pretensões do Ministério Público não teriam o mesmo impacto.

As buscas às sedes do Partido Social Democrata (PSD) e ao domicílio de Rui Rio mereceram forte condenação por parte de personalidades insuspeitas de favorecer Rui Rio ou o PSD como, por exemplo, Francisco Assis. Para além dos óbvios excessos do Ministério Público, quero aqui salientar o papel da comunicação social. Sem a colaboração activa da comunicação social as pretensões do Ministério Público não teriam o mesmo impacto.

Numa altura em que as empresas, de uma forma geral, são inundadas com pressões para eliminar ou mitigar as externalidades negativas decorrentes da sua actividade, e para se comportarem de forma responsável para com os seus stakeholders, é importante perguntar o que estão as empresas de média dimensão a fazer nesta matéria.

Desde logo, é razoável que uma cadeia de televisão acampe na frente da casa de um cidadão, ou na sede de um partido, tendo razoáveis certezas de que a vantagem informativa que detém resulta da violação do segredo de justiça? Qual deverá ser a responsabilidade social de um grupo de media?

O Grupo Media Capital, num inglês atabalhoado, escreve no seu website que “…mantém um forte compromisso em apoiar projectos para o desenvolvimento sustentável das comunidades que integra”. Isto inclui projectos solidários e cultura, arte e educação. Inclui também aproveitar as audiências para consciencializar os Portugueses para causas sociais específicas. Para a Impresa, responsabilidade social corporiza-se na “SIC Esperança”.

Contudo, responsabilidade social corporativa não é o mesmo que apoiar financeiramente determinadas causas sociais, para as quais os accionistas ou gestores têm particular inclinação ou sensibilidade. A responsabilidade do negócio tem de estar intrinsecamente ligada ao core business, não é uma coisa que se faz ao lado para aliviar consciências ou alimentar egos.

Isto ao mesmo tempo que se mantêm relações promíscuas com a política, a justiça e o futebol, definindo-se linhas editoriais que têm claramente subjacentes agendas e alvos definidos; onde a informação não é mais factual; onde exercer responsabilidade é rejeitar colaborar com quebras do segredo de justiça, com agendas obscuras e não sufragadas; é ser absolutamente implacável com jornalistas que não revelem profissionalismo e integridade; é garantir pluralismo e inclusão nos debates; é ter uma política editorial que não trate os cidadãos do País como idiotas.

Era importante que os (ir)responsáveis dos media e o regulador repensassem o que significa ser responsável.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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