Sofia Vale, Economista, Professora do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa

A inflação e o crescimento e as lições de um prémio Nobel da economia

Parece que uma de duas coisas tem sido esquecida nesta história: as lições de Tinbergen, ou a aceitação de que a recessão é preferível à inflação.

Na década de 50, Jan Tinbergen, um economista holandês que viria a ser prémio Nobel da Economia em 1969, concebeu modelos pioneiros de política económica, defendendo a identificação de objetivos quantificáveis em metas e a escolha de instrumentos adequados para alcançá-los. Um dos seus principais contributos foi perceber que para conseguir atingir n objetivos de política, será necessário dispor, pelo menos, de n instrumentos.

A sua formalização, matemática, baseada na resolução de um conjunto de equações linearmente independentes, salientou a necessidade de manipular instrumentos diferenciados para conseguir alcançar resultados económicos. A Tinbergen viria a ser sobretudo atribuída a responsabilidade pela afirmação da subdisciplina de econometria, a aplicação de estatística a dados económicos, mas a sua formalização da política económica como um conjunto de ferramentas destinadas a atingir metas – a Regra de Tinbergen – não terá sido um contributo menos importante.

Keynes foi um crítico acérrimo das formalizações de Tinbergen, advertindo que a realidade económica é muito mais complexa e interdependente do que as equações estilizadas conseguem representar, possivelmente temendo o endeusamento que se seguiria dos modelos e sua influência na tomada de decisão.

Mas Keynes não deve ter sido suficientemente convincente porque, até aos dias de hoje, a política económica é informada por modelos que obedecem a princípios semelhantes aos formulados por Tinbergen, sendo, por exemplo, uma prática comum dos bancos centrais regerem-se por regras de política monetária, manipulando o instrumento taxa de juro em função de uma meta a atingir para a inflação.

Terá sido suportado num modelo económico que, na última semana, com a inflação a disparar para 9,9% na zona euro, o BCE subiu as suas três principais taxas de juro em 0,75 pontos, fazendo reacender o receio de que se gere uma recessão. Em termos diretos, a decisão implicará encarecer os empréstimos das empresas e das famílias e, através destes, contrair a procura agregada. A extensão desta contração também deve ter sido estimada pelo mesmo modelo que ditou quantos pontos deveria o Banco Central Europeu (BCE) subir a taxa de juro.

A decisão do BCE pode também ser interpretada à luz das relações externas da zona euro, nomeadamente da sua forte dependência de importações de energia, que o leva a eleger a estabilidade cambial como prioritária. Subir a taxa de juro evitará a depreciação do euro e assim a subida da inflação através do acréscimo do custo da energia. Respeitando a Regra de Tinbergen, através da manipulação de um único instrumento – a taxa de juro – o BCE será capaz de responder a um único objetivo – o controlo da inflação (cuja meta é estabilizar nos 2%) – através do seu efeito em múltiplos canais. Mereceu por isso o aplauso de alguns quadrantes mais conservadores.

Mas, na linha de Tinbergen e suas equações linearmente independentes, se os instrumentos da política monetária estão centrados numa meta para a inflação, ainda que prejudicando a evolução da atividade económica agregada, será necessário encontrar instrumentos que tenham como objetivo o crescimento económico da zona euro. Ora, parece que uma de duas coisas tem sido esquecida nesta história: as lições de Tinbergen, ou a aceitação de que a recessão é preferível à inflação.

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