Edmundo Alves, Investigador IHC/UNL

A dignificação do debate político

A desqualificação da política é em boa medida fruto da perda de substância do debate, geradora de desconfiança nos cidadãos.

Na passada semana, Manuela Ferreira Leite, no espaço de comentário televisivo em que participa semanalmente, prestou homenagem à recentemente falecida Odete Santos. Entre as qualidades que reconheceu à antiga deputada do Partido Comunista, salientou a integridade com que exerceu a actividade parlamentar, nunca cedendo à tentação fácil do ataque pessoal como argumento político.

O gesto e as palavras de Ferreira Leite são merecedores de referência, sobretudo num contexto em que o debate político se intensifica pela aproximação das eleições legislativas; não apenas revelou dignidade ao prestar homenagem a alguém de quem estava politicamente muito distante, como frisou a importância de que a discussão política se faça no estrito âmbito das ideias e das propostas programáticas e não assente em querelas pessoais, que visam somente apoucar o adversário, nada de útil acrescentando, antes causando danos à credibilidade dos agentes políticos e, por extensão, às instituições de que fazem parte ou a que se candidatam.

Face ao crescimento do fenómeno populista também entre nós, que vive e se alimenta de uma abordagem essencialmente conflitual da política, particularmente importante se torna que a campanha eleitoral decorra com contenção e elevação. A desqualificação da política é em boa medida fruto da perda de substância do debate, geradora de desconfiança nos cidadãos quer quanto à capacidade, quer quanto ao empenho daqueles que se propõem ser seus representantes nos órgãos políticos do Estado.

A política surge, assim, fundamentalmente, como uma refrega entre os seus contendores, interpretada pelos eleitores como alheamento da realidade do cidadão comum e menosprezo pelas suas expectativas e aspirações, o que potencia a indiferença de uns, expressa na abstenção e a indignação de outros, expressa no voto de protesto.

Se aos políticos incumbe a dignificação do seu mister, à comunicação social, também ela uma forma de poder, logo titular de responsabilidades quanto à qualidade da democracia, cabe fazer um acompanhamento profissional e íntegro da campanha. Cumpre-lhe ceder à tentação da tabloidização, evitando reduzir a cobertura das actividades partidárias à divulgação das declarações mais polémicas dos candidatos – que, como referido, é importante que evitem –, seguidas de horas de exegese fútil sobre os acintes do dia feita por um exército de comentadores.

Num sistema representativo, assente no contrato entre o povo soberano e os que se propõem exercer a soberania por delegação daquele, celebrado através do voto, a confiança é, como em qualquer acordo, a pedra angular do edifício.

Se os políticos a não fomentarem, discutindo séria e pedagogicamente as suas propostas, e optarem por um registo – que, desgraçadamente, se banalizou na política doméstica – assente em chistes vulgares e insinuações capciosas que apenas entusiasmam a militância ululante nas acções de campanha, e se, por seu turno, a comunicação social desfocar a atenção da cidadania do essencial e se limitar à função de caixa de ressonância da gritaria comicieira, essa confiança é irremediavelmente perdida. Perdida a confiança, o contrato fica comprometido e sem contrato não há democracia.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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