O limitado envolvimento do sector empresarial na investigação continua a ser um desafio para Portugal, bem como as condições de trabalho precárias dos investigadores e a falta de oportunidades de emprego nas empresas. Esta é uma das principais conclusões do estudo Recursos Humanos para Investigação em Portugal e Espanha, realizado pelos investigadores Tiago Santos Pereira, da Universidade de Coimbra, Cláudia Sarrico, da Universidade do Minho, Laura Cruz Castro e Luis Sanz Menéndez, do IPP-CSIC, e integra o Dossier Investigação e inovação em Portugal e Espanha do Observatório Social da Fundação ”la Caixa”, com colaboração do BPI.
Apesar da melhoria no que se refere ao número de investigadores, a participação de Portugal no total de investigadores da União Europeia a 27 diminuiu nos últimos dez anos. Segundo o estudo, o principal desafio consiste, assim, em aumentar o número de investigadores que trabalham no sector privado, porque a I&D nas empresas promove a inovação.

As despesas do sector privado em I&D e a contratação de investigadores por parte das empresas estão interrelacionadas e dependem das estruturas industriais de cada país, explica, e nesse sentido, Portugal está a ficar para trás em comparação com os parceiros europeus, dado que a maioria dos investigadores está concentrada no sector do ensino superior.
A despesa empresarial em I&D (BERD) em percentagem do PIB em Portugal é cerca de metade da média da UE-27. De referir que a média da UE é de 1,46% do PIB e fica bastante aquém da média dos Estados Unidos: 2,05% e do Japão: 2,60%.

Resultado? Existe, segundo o estudo, “o risco de o desequilíbrio na oferta e procura de investigadores poder levar à emigração destes trabalhadores altamente qualificados, se não conseguirem encontrar oportunidades de desenvolvimento de carreira no seu país”, repetindo, em certa medida, o que ocorreu após a crise financeira global de 2008.
“As políticas de recuperação implementadas para o período pós-pandemia de Covid-19, que também afetou o sistema de investigação e inovação, oferecem uma excelente oportunidade para melhorar a procura de recursos humanos em Ciência e Tecnologia. Estas políticas são fundamentais para garantir que Portugal não enfrenta continuamente uma fuga de cérebros”, propõe-se.
Cooperação Ciência-empresas
O Dossier Investigação e Inovação em Espanha e Portugal do Observatório Social da Fundação “la Caixa” inclui um segundo estudo: Ligações Ciência-Empresas em Portugal e Espanha: um potencial de inovação inexplorado?, realizado por Manuel Mira Godinho e Joana Mendonça, da Universidade de Lisboa, José Guimón, da Universidade Autónoma de Madrid, e Catalina Martínez, do IPP-CSIC.
Este relatório salienta que as ligações entre ciência e empresas em Portugal são mais fracas do que noutras economias mais avançadas da União Europeia. O impacto pode ser medido através da análise das patentes produzidas pelas universidades e organismos públicos de investigação.

Além disso, o estudo refere ainda que Portugal tem de enfrentar o desafio da limitada empregabilidade dos doutorados no sector privado, uma vez que apenas cerca de 6% dos doutorados em Portugal trabalham em empresas privadas.
O país enfrenta um grande dilema, dado que, salienta o estudo, “a cooperação ciência-empresas e as parcerias público-privadas serão cruciais para Portugal conseguir absorver eficazmente os novos fluxos de financiamento europeus” disponíveis no contexto do Plano de Recuperação Next Generation EU da Comissão Europeia.