50 biliões de razões para não voltar ao Início!

O Banco Central Europeu cedo assumiu um papel de estabilizador da inflação, algo que tem sido repetido à exaustão pela bem comportada Christine Lagarde. A fórmula é simples e vem nos livros. Quando a inflação sobe, tocam os alarmes que o dinheiro está a valer pouco, logo há que subir as taxas de juro de referência.

50 biliões de razões para não voltar ao Início!
Bruxelas promove projeto para “papel internacional mais forte” do euro face ao dólar

Uma Nota de 50 Biliões de Marcos ( 50.000.000.000.000 de Marcos, 50 Triliões na métrica americana) era o que um alemão da República de Weimar poderia trazer na carteira, e que valeria metade a cada 3 dias.  Há exatamente 100 anos, entre janeiro de 1922 e Dezembro de 1923 a  Alemanha viveu um período traumatizante, quando tentou pagar os empréstimos pedidos pelo Kaiser Guilherme II, com o objectivo de financiar o esforço de guerra, mais os encargos com as indemnizações de Versalhes e com a reconstrução, imprimindo massivamente moeda. Como o padrão ouro havia sido abandonado, a moeda nada valia. O trauma, associado àquela nota de 50 biliões, que já era mais um recebido carimbado do que propriamente o regular papel-moeda, acompanhou a vida do gigante germânico até aos dias de hoje, o que tem consequência na economia europeia, até porque o euro encavalitou a seu valor no antigo Marco da Alemanha unida.

O Banco Central Europeu cedo assumiu um papel de estabilizador da inflação, algo que tem sido repetido à exaustão pela bem comportada Christine Lagarde. A fórmula é simples e vem nos livros. Quando a inflação sobe, tocam os alarmes que o dinheiro está a valer pouco, logo há que subir as taxas de juro de referência. Juros e Inflação assumem-me como contrapostos perfeitos. Sobe um, desce o outro. Com a Inflação a bater nos 9%, fruto de todas as consequências da quebra de cadeias de distribuição ainda do tempo da pandemia, mas também da crise do preço dos combustíveis e dos cereais decorrente da invasão russa à Ucrânia, Lagarde sobe três vezes a taxas de juro desde julho, no total de 200 pontos. Os juros disparam, afetando famílias e empresas, mas a inflação não dá sinais de ceder. As famílias europeias têm então de somar à carestia do supermercado e dos transportes o pesos dos seus empréstimos, que dispara. Lagarde promete reforçar a receita na próxima reunião do BCE, confiante que a solução é subir o preço do dinheiro até á inflação ceder. Quebrar pelo cansaço. A fórmula tem de resultar. Mas, e se isso não acontecer?

Se a crise de 2008 provou que Keynes não tem razão, e deixou a sua quota significativa de bibliografia e seguidores acríticos, a História também já nos deu algum exemplo que a razão inversa da relação juros/inflação pode não confirmar-se? Sim… e é estranho que tenhamos esquecido, pois acabámos de sair de 10 anos dessa experiencia. 10 anos em que poupar teve muito pouco significado, pois o dinheiro e o preço dos produtos de consumo estiveram, simultaneamente, em mínimos históricos.

Foi em julho de 2012 que o antecessor de Lagarde, Mario Draghi de boa memória, nos lembrou que por vezes o que parece lógico à vista desarmada, não o é na realidade. Draghi afirmou que se alguém relacionar o corpo robusto de uma abelha com a fragilidade das suas asas, juraria certamente que esta não consegue voar. Eppur si muove, ou Eppur si vola, diria certamente Galileu. Nessa altura o então presidente do BCE efectuou um corte radical e generalizado nas taxas de juros, injetando milhões e milhões através de um programa de compra de activos, rompendo com um dos tabus da política monetária do euro. “Faremos tudo o que for preciso”, anunciou Draghi.
E foi com esse discurso e esse sinal que colocou em prática a máxima verberada por Angela Merkel, que sabiamente nos lembrou que a “economia é 50% de psicologia”. Talvez seja mais.

Os fundos credores cortaram as garras, os países ganharam liquidez, as famílias e as empresas puderam cumprir as suas obrigações, conseguindo salvar-se a banca que não estava demasiado agarrada a ativos tóxicos, ao mesmo tempo que o BCE penalizava as instituições financeiras que procuravam beneficiar ilicitamente com o excesso de liquidez do banco central. Tivermos então uma década de dinheiro e commodities excecionalmente baratos.

Pegando nesse exemplo, mais inverso,  e se o peso de juros e inflação em alta simultânea se “eternizar”, atirando as famílias para o incumprimento? E se os programas de ajuda dos Estados não for suficiente para amparar famílias e, por consequência, credores? E se a banca abanar?
E se o aumento das taxas de juros, com as suas consequência que apontei acima originar uma crise financeira e de dívida, apoiada na desconfiança do mercado? Vamos Voltar ao início?

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