Pode tratar-se apenas de bluff mas as ameaças militares do líder norte-coreano, Kim Jong-un, de perpetuar a retórica antiamericana herdada do seu pai e avô e as constantes demonstrações de força e militarização junto à fronteira com a Coreia do Sul fizeram a Casa Branca colocar as atenções em riste.
Conhecido pela impulsividade e pela intenção expansionista de desenvolver um arsenal militar, com mísseis intercontinentais para atingir o rival norte-americano, Kim Jong-un levou a cabo nos últimos dois anos mais testes de mísseis e testes nucleares do que o seu antecessor durante todo o seu mandato.
A uma série de sanções económicas que pouco sucesso tiveram na tentativa de demover o líder norte-coreano das suas ambições desmesuradas, a Coreia do Norte respondeu com novos ensaios nucleares e o mundo assistiu a um agudizar das tensões entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos.
“O mundo verá como um país chamado Estados Unidos é varrido da face da Terra”, sentenciou Kim Jong-un, após os Estados Unidos, numa tentativa de sufocar a Coreia do Norte, desviarem o porta-aviões USS Carl Vinson para águas territoriais da península coreana.
Aproximação infrutífera
Por seu turno, o presidente norte-americano, Donald Trump, já veio a público avisar que “é possível que haja um grande conflito com a Coreia do Norte” para parar as confrontações lunáticas do líder coreano e travar as constantes violações ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TPN), que Pyongyang já rasgou e pisou vezes sem conta.
Mas nem sempre foi assim. Em 1994, o regime norte-coreano comprometia-se a congelar o seu programa de desenvolvimento nuclear, que, após a queda da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), foi uma das formas usadas pelos ex-Estados-satélite russos para combater a falta de divisas e lutar pelo desenvolvimento económico.
Após meses de conflito com os Estados Unidos, que apelavam na ONU para a elaboração de um plano para eliminar todas as armas de destruição maciça no Médio Oriente e Sudeste Asiático, o então líder Kim Jong-il concordou em acabar com as ambições nucleares e iniciar conversações com a vizinha Coreia do Sul.
O encontro entre os presidentes das duas Coreias em junho de 2000 fazia prever uma nova era de reconciliação e cooperação nas relações entre os dois países e um ponto final numa guerra que durava há mais de 50 anos. No entanto, tal como em todas as previsões, a margem para erro foi demasiado grande.
Em dezembro de 2002, a Coreia do Norte anunciava um regresso ao programa nuclear abortado seis anos antes. Desde então, a preocupação número um do país foi desenvolver um armamento sofisticado para poder fazer frente aos Estados Unidos e invadir a Coreia do Sul, com o propósito de reunir as duas Coreias, que partilham a mesma história do domínio colonial japonês, e expandir os ideais do regime de Kim Jong-un.
Acontece que a Coreia do Sul é, desde o final da Segunda Guerra Mundial, um Estado protegido pelos Estados Unidos, que ficaram a tutelar o território abaixo do Paralelo 38, depois da derrota do Japão na Guerra. A parte norte da península ficou a encargo da Rússia (na altura, URSS) e como seria de esperar os dois blocos não podiam ser mais antagónicos. A norte, um regime comunista. E a sul, um regime pró-ocidental.
Novo líder, velha retórica
Em 2011, a chegada de Kim Jong-un ao poder, com pouca experiência política e militar, veio incendiar ainda mais os ânimos. Poucos meses depois da sua tomada de posse, a Coreia do Norte lançava o primeiro rocket, alegando ter colocado em órbita um satélite. Mas teoria foi rapidamente descartada.
Estávamos então em 2012 e embora o lançamento tivesse fracassado, serviu para a comunidade internacional testemunhar a chegada de um novo líder com uma visão bem mais radical do que os anteriores membros da dinastia dos Kim.
Volvidos cinco anos, foram até agora cinco os ensaios de mísseis nucleares levados a cabo por Pyongyang e quase meia centena de lançamentos de mísseis. Durante as comemorações do dia do nascimento do fundador da República norte-coreana, Kim Il-sung, avô do atual líder, a Coreia do Norte desfilou aos olhos de todos um vasto arsenal militar e afirmou estar pronta para responder a uma guerra total com uma guerra total, e responder com ataques nucleares a qualquer ataque nuclear”.
Tal como no poker, o bluff pode ser uma vantagem ou uma desvantagem. Tanto pode conduzir a uma gloriosa vitória ou a uma esmagadora derrota. Será esta uma estratégia de jogo de Pyongyang para obrigar os Estados Unidos a vergar e atender às reivindicações norte-coreanas ou será Kim Jong-un apenas um amador a querer competir com a maior potência militar do planeta?
