João Gonçalves Pereira, Administrador de Empresas

O desafio do decrescimento

Especialistas defendem que está na altura de os países desenvolvidos deixarem de orientar as suas políticas públicas para o crescimento, uma afirmação no mínimo desafiante de tudo aquilo que nos habituámos a esperar e defender.

Quando os jovens de hoje chegarem à idade da reforma, não haverá dinheiro suficiente para que a possam receber. É essa a convicção de vários economistas, incluindo o afamado Nouriel Roubini – mais conhecido como Dr. Doom – e que acaba de publicar um novo livro, “Megathreats”, entre nós editado pela Planeta.

O livro do ex-consultor para a área económica nas administrações de Bill Clinton e Barack Obama fala-nos agora das dez mega-ameaças que, segundo ele, colocam em perigo a nossa economia e o futuro. Foi precisamente a leitura de uma das entrevistas mais recentes dadas por Roubini a propósito do seu livro que me levou a um artigo publicado há poucos dias na revista “Nature” sobre o “decrescimento”, intitulado “Degrowth can work – here’s how science can help”.

Nesse texto, subscrito por oito autores com experiências académicas na área da sustentabilidade, energia e recursos naturais (entre outras áreas), os especialistas defendem que está na altura de os países desenvolvidos deixarem de orientar as suas políticas públicas para o crescimento, uma afirmação no mínimo desafiante de tudo aquilo que nos habituámos a esperar e defender.

Segundo o artigo, as economias mais ricas devem abandonar o crescimento do produto interno bruto como objetivo principal e, em seu lugar, cortar de forma drástica os modelos de produção destrutivos e desnecessários, no sentido de reduzir o uso de energia e materiais e concentrar a atividade económica na garantia das necessidades humanas e do seu bem-estar.

Esta abordagem, segundo pretendem os autores, “tem ganhado força nos últimos anos e pode permitir uma descarbonização rápida e interromper o colapso ecológico, ao mesmo tempo que melhora os resultados ao nível socioeconómico. Ao infletir o seu foco, as economias mais avançadas poderiam assim libertar energia e recursos para os países de baixo e médio rendimento – afirmam ainda os académicos – que classificam o decrescimento como “uma estratégia intencional para estabilizar as economias e alcançar objetivos sociais e ecológicos, ao contrário da recessão, que é caótica e socialmente desestabilizadora e ocorre quando as economias dependentes do crescimento não conseguem crescer”.

A proposta surge-nos como radical. Mas uma coisa parece certa: numa economia global perigosamente próxima da recessão – como avisou muito recentemente o Banco Mundial e é também opinião de 2/3 dos economistas presentes em Davos – e ao mesmo tempo que a Goldman Sachs, o Morgan Stanley e o HSBC iniciam milhares de despedimentos, dando assim o sinal à banca de que se preparam para o pior cenário, está na altura de considerarmos, muito a sério, modelos alternativos para o futuro. Sob pena de ele não ser nada daquilo que desejaríamos.

 

A Comunicação Financeira é uma área cada vez mais imprescindível para as empresas, razão pela qual está de parabéns a Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica (FCH-Católica) ao lançar a 1.ª edição da sua Pós-Graduação em Comunicação Financeira. Os nosso gestores e empresários, em particular nas MPME, muito beneficiarão desta e de outras iniciativas similares.

 

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