Numa altura em que a Rússia começa a aligeirar o confinamento de combate à pandemia, o presidente Vladimir Putin já remarcou a consulta popular que irá enformar a alteração das regras constitucionais que lhe permitirão manter-se no poder até, em princípio, 2036. Marcada inicialmente para 22 de abril e adiada por causa da pandemia, a nova data é 1 de julho.
Os analistas adiantam que Putin enfrenta nesta altura os mais baixos índices de popularidade nas últimas duas décadas e as perspectivas de ainda maior contração económica indicam que o presidente deve apressar-se em conseguir o apoio popular. De qualquer modo, esse apoio nunca parece ter sido colocado em causa – nomeadamente porque a última vez que Putin enfrentou umas eleições, arrasou a concorrência com o ‘score’ de mais de 76%. Não há qualquer dúvida que os russos se sentem confortáveis com a forma como Putin tem dirigido o país nos últimos 20 anos.
Parece ser claro que o facto de o país estar a passar por uma pandemia particularmente severa não é um bom indicador para a consulta popular, mas daí a colocar em causa a sua vitória na consulta popular parece ir uma grande diferença. De qualquer modo, o Kremlin não deixa as coisas ao acaso: a votação terá lugar apenas uma semana após o grande desfile militar comemorativo pelo 75º aniversário da vitória do Exército Vermelho sobre a Alemanha nazi, que também foi adiado – e que com toda a certeza será usado para promover o sentimento nacional.
“Ir a uma mesa de voto será mais seguro do que ir a uma loja”, disse a presidente da Comissão Central Eleitoral, Ella Pamfilova, citada pela comunicação social, que enfatizou que apenas oito pessoas poderão estar ao mesmo tempo nas salas de votação. Todos os participantes e observadores receberão máscaras faciais, luvas e canetas descartáveis e os membros das comissões eleitorais serão testados para verificar se têm ou não coronavírus.
A participação online na votação também está prevista, ao mesmo tempo que o ato decorrerá ao longo de seis dias, para dar margem a que as regras de confinamento possam ser cumpridas. A oposição deteta aí uma forma de promover a fraude: “o sistema foi desenvolvido porque poucas pessoas vão às urnas e a participação deve ser aumentada”, disse Andréi Buzin, uma das caras da oposição, considerado um “ ‘agente estrangeiro’ pelas autoridades. As sondagens mais recentes indicam que o ‘sim’ às alterações deverá alcançar uma margem de 61%, o que politicamente é confortável para o Kremlin – mas a oposição terá com certeza uma leitura diferente e tenderá a comparar os votos ‘sim’ com os 76% que Putin conseguiu nas presidenciais de 2018.
Putin tem em mente uma reforma mais nacionalista e conservadora da Constituição. E também (ainda) mais presidencialista. Para além das questões políticas, o presidente insistirá em outros ‘conservadorismo’ mais sociais: fecha as portas ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, destaca a importância da ”educação patriótica” num quadro em que a Rússia é “herdeira da URSS”, menciona a “fé em Deus” e introduz alusões aos russos como “a espinha dorsal do Estado”.
A única verdadeira preocupação de Putin está na frente económica. Com o colapso dos preços do petróleo a acrescentar-se às metástases da pandemia, a Rússia está a passar por um período difícil – num quadro geral em que os anos mais recentes não terão sido os melhores.
Recorde-se que a Rússia, com 145 milhões de habitantes, registou até agora mais de 400 mil infectados e mais de 4.800 mortes, de acordo com dados oficiais que algumas autoridades externas consideram pouco credíveis.