Se tem muitas certezas… já era tempo de se questionar

Quando as crenças sobre o trabalho e a motivação se misturam com valores não partilhados, a tentação de manter ou voltar a práticas de gestão não suportadas pela evidência, apenas pela rentabilidade imediata, aparente ou não, aparece.

Se tem muitas certezas… já era tempo de se questionar
Francisco Miranda Rodrigues WEB

Nos últimos dois anos, as organizações e as pessoas que as fazem fizeram um esforço de adaptação tremendo. A conciliação trabalho-vida pessoal passou a ser sentida como um desafio generalizado, mas bem presente no dia-a-dia. Deixou de ser só dos outros e passou a ser nosso, ou pelo menos deixou de ser incógnito. De repente, nalgumas organizações, passou a ver-se o que já lá estava: as pessoas, as suas necessidades, o seu bem-estar e o quanto isso, quer queiramos quer não, faz parte do trabalho e influencia o desempenho.

De há muito fazem parte expressões como “trabalho é trabalho, conhaque é conhaque” ou “a minha vida pessoal fica lá fora” ou “todos temos problemas, mas aqui temos que ser fortes e não ligar a isso” ou ainda um ex-líbris da auto-centração: “no meu tempo trabalhava-se muitas mais horas e ninguém se queixava”.

Ao “democratizar” o sofrimento causado pelos isolamentos e infecções da pandemia, deixando claro que para além do corpo há uma mente e que eles não são entidades separáveis (e que assim a saúde é física, mental e social, e que para a sua existência o bem-estar não pode ser um luxo), a pandemia pareceu romper com muitas práticas instaladas. Sim, mas muitas também voltarão a ser as mesmas, na medida em que as crenças dos líderes não tenham sido reestruturadas.

O fenómeno designado por great resignation foi encarado por muitas organizações como um corolário da necessidade de mudança efectiva e não meramente cosmética face a práticas organizacionais promotoras de bem-estar e preventivas do impacto de riscos psicossociais (como o stresse, a carga de trabalho ou as exigências cognitivas, apenas a título de exemplo). Mas outros sentiram-no como algo mais excêntrico, ideológico ou simplesmente uma adversidade com a qual têm dificuldade em lidar, porque por vezes não conseguem compreender e aceitar.

Quando as crenças sobre o trabalho e a motivação se misturam com valores não partilhados (por exemplo, que as pessoas trabalham bem desde que lhes paguem minimamente e a partir daí estão disponíveis para tudo e que o trabalho per se é um valor – que para outros não é, podendo consistir em muitas outras coisas, desde uma forma de subsistência até um meio para a realização), a tentação de manter ou voltar a práticas de gestão não suportadas pela evidência, apenas pela rentabilidade imediata, aparente ou não, aparece.

A guerra traz muita incerteza em cima daquela que já vivíamos decorrente da pandemia, logo agora que parecia estarmos a reduzi-la e a adquirirmos controlo. Nesta espécie de entroncamento cruzam-se situações como aqueles que voltam a ver no fluxo migratório pessoas indiferenciadas (como se de um novo taylorismo se tratasse, em que o outrora professor ou engenheiro fosse agora o candidato perfeito para recepcionista ou empregado de mesa), ou entendem que deve haver muito mais “resiliência” ao número de horas de trabalho (como se a isso se chamasse resiliência), ou a precipitação para o regresso ao trabalho presencial (sem atender às pessoas e às suas necessidades, ao tempo para se reorganizarem para o regresso e à equação se isso é mesmo necessário e em que medida).

E agora, com o preço da energia a subir, vamos ignorar esse impacto na resposta ao teletrabalho? Sim? Não? Como?

E se tinha muitas convicções sobre o assunto… pense novamente. Pense nas pessoas e nos seus comportamentos, pense com mais humildade e menos auto-referenciação. Mais prudência, mais ciência e menos crenças. É necessário ponderar e equilibrar a missão das organizações com as suas pessoas e os seus interesses e necessidades (ou nem o interesse da organização estaremos a defender). Para isso, as lideranças têm, pelo menos, que escutar antes de legitimamente decidirem.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.