A associação internacional de advogados Interlegal tem um presidente português. João Paulo Menezes Falcão, sócio da ACE, a única sociedade portuguesa presente nesta rede, foi eleito sem votos contra, a 13 de maio, na cidade canadiana de Montreal, durante a última assembleia geral. Em entrevista ao Jornal Económico, o advogado explica que pretende aumentar o relacionamento com outras associações de profissionais e investir na tecnologia.
Esperava unanimidade dos associados na eleição?
Quer como sócio de outras sociedades quer, durante um determinado período, a título individual, estou ligado à Interlegal há muitos anos e fui eleito como vice-presidente em 2015. Servi a organização nesse cargo durante dois anos e este ano fui eleito presidente. Em termos cronológicos, esta é a história da minha eleição. Fui eleito sem qualquer voto contra, porque todos me conhecem na Interlegal. Os últimos anos foram intensos para mim, tive que desempenhar funções que me absorveram demasiado tempo e energia, como por exemplo o trabalho enquanto coordenador dos grupos de especialistas e dos seus meetings bianuais. Recentemente, acompanhei uma conferência internacional em Moscovo em representação da Interlegal. Os meus colegas reconheceram o sucesso deste tipo de eventos cuja preparação requer um trabalho árduo, que existe bastante esforço para captar o interesse dos associados em fazer as apresentações e escolher os tópicos.
Não vai perder ainda mais tempo e energia?
Vou. Eu tive de ponderar, porque agora o trabalho vai ser reforçado. Confesso que nos primeiros dias depois da eleição, assim que cheguei a Lisboa, não fiz outra coisa além de me dedicar à Interlegal. Ainda mais tendo em conta a nova circunstância, em que os poderes do presidente foram reforçados, nesta última assembleia. Os estatutos foram alterados e o presidente passou a nomear pessoalmente os membros do comité de Marketing, os presidentes dos grupos de especialistas e os próprios membros dos grupos de especialistas.
Calculavam que fosse o vice-presidente a assumir a pasta, daí a mudança?
Pois. É uma boa pergunta. O William Blum, representante de Nova Iorque e então presidente do comité de Marketing, entendeu que esta seria a forma mais adequada de poder escolher as pessoas com maior capacidade e interesse para prestarem serviços e darem o seu contributo nestes cargos. Anteriormente, era um processo de eleição e, por vezes, as pessoas candidatavam-se mas depois poderiam não manifestar a possibilidade de despenderem o tempo ou terem a dedicação que seria necessária.
Porque é que não é o comité de Marketing a selecionar os membros?
Confesso que me abstive na votação desta proposta. Não é por minha vontade que houve esta alteração. Manifestei a opinião de que conviveria bem com qualquer uma das soluções (por eleição ou por escolha minha), mas a maioria dos associados entendeu que esta seria a melhor forma de escolha das pessoas para estes cargos. Tenho aqui tarefas redobradas, que faço com todo o gosto na medida em que estou a servir uma associação que muito prezo e para a qual quero contribuir com toda a minha energia e o meu esforço. Provavelmente terei de me deslocar mais. Já acontecia enquanto vice-presidente durante três ou quatro vezes por ano devido a reuniões da Interlegal. Admito que agora possam vir a ser mais.
Qual a importância de uma nomeação destas para a ACE?
Vem consolidar a aposta que nós fazemos na internacionalização dos nossos serviços. Embora já seja membro da Interlegal há mais tempo, estou nesta sociedade desde 2013 e a ligação da ACE a esse nível aconteceu nessa altura. Tem um impacto significativo, porque o facto de eu ter sido eleito vem reforçar essa aposta e consolidar a vertente internacional que estamos a tentar implementar na atividade.
Pretende expandir a rede em todos os continentes. Só falta a Oceânia?
É o único em que não estamos representados. Espero que em outubro já tenhamos um associado na Austrália. Nós já tivemos um membro em Sydney, que infelizmente saiu da associação porque o advogado com quem mais nos relacionávamos saiu da sociedade que era nossa associada. Entretanto, muito recentemente, tivemos um novo contacto da firma de advogados para onde esse meu colega foi trabalhar, em Sydney, e contamos que na próxima reunião, em Leeds, já compareça como representante do novo associado que passaremos a ter na Austrália.
Que mais objetivos tem para este mandato?
Primeiro, o crescimento. Para nós é muito importante. Temos 40 países e sabemos que no mundo existem cerca de 200. Temos um longo caminho por trilhar. Depois, há uma vocação que é muito característica desta associação que é o relacionamento com outras associações congéneres. A nível mundial, existirão cerca de 170 organizações internacionais de advogados e para nós é importante relacionarmo-nos com elas. Queremos aumentar o relacionamento com outras associações de profissionais. Neste momento, temos uma ligação forte com a EuroAudit, uma associação internacional de auditores, e com a Federação Mundial de Cônsules. Estamos a tentar implementar ainda mais esse relacionamento, porque é importante em termos de sermos conhecidos na comunidade jurídica, empresarial e internacional. O terceiro ponto forte é o desafio das novas tecnologias. Vou fazer um esforço para que haja um investimento mais significativo nas tecnologias de informação: desenvolver o site, a presença nas redes sociais…
Como lidam com os conflitos de interesses com essas associações?
Não existem propriamente conflitos de interesses. Neste relacionamento procura-se partilhar experiências. Por exemplo, existe um projeto inicial de, eventualmente, convidar as cerca de 170 associações internacionais de advogados para a elaboração de um estudo sobre o futuro das associações internacionais de advogados, que seria patrocinado pela Interlegal e uma espécie de bolsa monetária que atribuiríamos e, noutra fase, filtraríamos aquele que consideraríamos o melhor entre os trabalhos recebidos. Seria uma espécie de concurso.
De que forma se mantém a relação entre os países que compõem a Interlegal?
Os meetings normalmente são de três dias. No primeiro, há um programa social e de eventos, visitar museus, assistir a espetáculos. Muitas vezes, alguns dos membros com dificuldades de agendas não comparecem neste dia. O segundo é de trabalho intensivo. Começa de manhã com apresentações de políticos, profissionais ligados à advocacia ou não, empresários. À tarde há as dos grupos de especialistas. No terceiro dia, estamos toda a manhã na assembleia geral e à tarde há um período livre e o jantar de encerramento. Vou manter este formato, porque tem vindo a ser praticado há vários anos e tem bons resultados. No Canadá tivemos apresentações muito interessantes da bastonária do Quebec e de uma jovem sobre o perfil dos millennials e a sua influência no tipo de serviços prestados pelos advogados.
Artigo publicado na edição digital do Jornal Económico. Assine aqui para ter acesso aos nossos conteúdos em primeira mão.