A cidade é um livro

A cidade é um livro
A cidade é um livro

“Uma cidade é um livro onde todos os dias se escrevem novas histórias”. Esta frase foi extraída do prefácio de Nuno Artur Silva, do livro “Todas as Ruas” de João Seixas. É um livro que fala de Lisboa, principalmente, mas de todas as cidades, e daquilo que as torna mágicas. Pareceu-me uma boa introdução para falar dos últimos 20 anos de Lisboa, aos olhos de quem a conheceu apenas em meados da década de 90, chegado de uma pequena povoação do concelho das Caldas da Rainha.

Vim estudar e viver para Lisboa em 1994, e morei em vários lugares. Confesso que até então conhecia muito mal Lisboa. Anos atrás, lembro-me de passar pela baixa uma semana depois do incêndio do Chiado, e sentir que algo miserável e dramático poderia ter acontecido ali. E de imaginar como e quando iria a cidade sarar aquela ferida. Nessa altura não existia Colombo, nem Vasco da Gama, não existia linha vermelha, e as outras eram bem mais curtinhas. Recordo-me de andar de metro depois do jantar, e por vezes ia sozinho na carruagem. Não existiam os estádios novos, nem o túnel do Marquês, nem os turistas e os “tuquetuques”, mas ainda existiam bairros de lata quando se entrava em Lisboa, e também a feira popular, o King, o Quarteto e o Alcântara-Mar.

Nos primeiros anos senti-me demasiado estranho aqui, meio solitário até, sempre achei que este lugar não era o meu. Apesar de me fascinar, havia alturas em que detestava Lisboa, não a sentia cúmplice. Mas ao longo do tempo fui percebendo que a cidade tem uma energia efervescente que nos completa, não é somente um somatório de coisas urbanas, tem alma, identidade, criatividade e gente. E tem também riscos e compromissos. E conforta-nos. É como um filme, de sessões contínuas. A cidade nunca fecha, e isso foi a melhor sensação para quem, como eu, vinha de um lugar pequeno, que às vezes fechava, e voltava a abrir só no dia seguinte.

Já vivi mais de metade da minha vida em Lisboa. Olho com contentamento para as diferenças dessa década de 90 até hoje. A cidade democratizou-se. Voltou a viver para as pessoas, o seu maior recurso. Ainda tem misérias, mas reabilitou-se, tornou-se moderna e valiosa. Valiosa de conhecimento, cultura, mobilidade e história.

Gosto de passear pelo Chiado. Talvez porque me lembro muitas vezes daquilo que vi naquele dia de Agosto, uma semana depois do incêndio. É ali, naquelas ruas cheias de gente, que se percebe que as cidades não morrem, nem as suas gentes.
As cidades são intemporais. São um caos perfeito, como os bons livros.

 

Nelson Paciência
Consultor Sénior de Building Consultancy da CBRE

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