‘Mental Coach’. Há que perceber o jogador para valorizar o ativo

Como é que golfistas de topo falham tacadas que parecem fáceis ou tenistas reputados perdem pontos de forma inacreditável? O ecossistema do atleta tem três dimensões e a questão mental assume-se como fundamental no sucesso desportivo. As equipas que melhor percebam os seus jogadores são as que vão fazer os melhores negócios.

‘Mental Coach’. Há que perceber o jogador para valorizar o ativo
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Quando não existe confiança, corremos o sério risco de cair no burnout e no medo de falhar; pelo contrário, quando não há desafio, facilmente podemos cair no bored out, ou seja, no aborrecimento”. João Catalão, coach e mentor de executivos, começa por explicar em entrevista ao JE que é neste limbo que vivem muitos atletas de alta competição, e que a fronteira entre o sucesso e o fracasso num meio tão competitivo é muito ténue. Mas o que pode levar o mental coach ao plano desportivo depois de se estabelecer de forma bem-sucedida no contexto empresarial? A International Coach Federation Portugal, entidade que conta atualmente com 171 membros (em Portugal existem cerca de 200 coachs certificados pelas duas maiores organizações mundiais de coaching, a ICF e EMCC, e no mundo existem cerca de 40 mil) e que tem uma amplitude mundial, define o coaching como uma “parceria com o cliente através de um processo estimulante e criativo que inspira a maximizar o seu potencial pessoal e profissional”.

“Clubes deviam perceber atleta”
Num meio tão concorrencial como o desporto de alta competição, existe espaço para a valorização de ativos através das técnicas de mental coach? João Catalão, que conta com experiência no plano desportivo e empresarial, defende que “os clubes deveriam perceber ecossistema do atleta. Por exemplo, não tenho dúvidas nenhumas que o João Félix está a ser acompanhado, tal como aconteceu com Cristiano Ronaldo quando chegou ao Manchester United. É nesse caminho que muitas vezes os jogadores se perdem e a diferença entre o que vai ser aquele atleta no futuro define-se aí. Os clubes têm de perceber que se está a lidar com seres humanos para quem o desporto é a sua vida”, realça este mental coach, que critica as entidades patronais por “muitas vezes encararem os jogadores apenas como ativos e como máquinas de fazer dinheiro”. Para este profissional, o problema vem desde a base: “Nas escolas de futebol, o que acontece muitas vezes é ver um jovem talento a ser encarado, tanto por pais como por treinadores, como um craque, quando o mais importante é saber como é aquele talento vai lidar com as suas próprias emoções. As equipas que melhor percebam os seus jogadores são as que vão fazer os melhores negócios”.

Perceber as três dimensões do atleta
Os jogadores só recorrem a este tipo de ajuda quando têm problemas, lamenta João Catalão. O mental coach sublinha que o atleta não deve descurar nenhuma das três dimensões do seu ecossistema: o hardware, a componente técnica e a questão mental, a parte psicológica. O especialista volta a dar o exemplo de Cristiano Ronaldo ao observar que “toda a energia e entrega que deixa em campo”, deixa antever que o craque português “não está sozinho”. Como contraponto, João Catalão refere-se ao ex-atleta Fernando Mamede, “que ganhava muitas provas que tinham menos importância e quando chegava às grandes decisões falhava. Aqui, podemos concluir que o que faz diferença é a componente mental”. E qual o momento em que se deve reconhecer que aquele jogador precisa de ajuda para além de toda a componente de treino normais nos clubes?

João Catalão socorre-se do trabalho que já é feito nas empresas onde a primeira situação a definir é “como é que aquele colaborador, que tem potencial, vai conseguir chegar à sua melhor versão, porque sabemos que o hardware tem qualidade mas o software tem que ser colocado em causa”.

Este especialista dá grande ênfase à questão das expectativas: “Qualquer atleta vive com um grande problema à partida: as expectativas que são geradas para fora, as suas próprias expectativas e a pressão que é fruto dessas duas dimensões. Se o atleta não tiver ninguém a escutá-lo, a ajudá-lo a ganhar consciência dos caminhos que pode percorrer para se poder responsabilizar e assim atuar, muitas vezes o que acontece é que ativo perde-se”.

“Para onde queres ir?”
Em coaching, a primeira etapa a trabalhar é a da consciencialização do estado atual e daquele que se deseja atingir, define João Catalão. “Não interessa o que está para trás, o coaching não desenterra nada. A pergunta a fazer é ‘para onde queres ir?’. Depois, há que avaliar que objetivos é que aquele atleta tem para que seja responsabilizado com a caminhada que tem de efetuar. É importante responder aos ‘quês’ e aos ‘para quês’ e sem isto não é possível avançar para o ‘quando’ e ‘quem’”. É a isto que em ‘coaching’ se designa de ‘contrato’.”

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