Carmona Rodrigues apresenta Alverca como alternativa a Aeroporto do Montijo

O JE antecipa a divulgação que será feita na próxima semana da proposta alternativa ao aeroporto do Montijo feita por um grupo de especialistas onde está Carmona Rodrigues, um ex-presidente da APA e José Furtado, especialista português no setor. Portela será o aeroporto secundário.

Carmona Rodrigues apresenta Alverca como alternativa a Aeroporto do Montijo
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Um novo hub aeroportuário em Lisboa com base em Alverca – e a funcionar com o complemento do aeroporto da Portela –, é o modelo que será proposto na próxima semana como alternativa ao projeto da transformação da Base Aérea do Montijo em aeroporto civil.

A capacidade instalada desta solução Alverca-Portela comportará 75 milhões de passageiros e 500 mil movimentos anuais de aviões. Esta proposta será apresentada a 23 de outubro, na Fundação Cidade de Lisboa, no Campo Grande.

Subscrita por oito especialistas com valências muito diversas – entre os quais António Carmona Rodrigues, ex-ministro das Obras Públicas e ex-presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML) –, a “proposta de transformação do aeroporto de Alverca no hub de Lisboa terá a vantagem de poder funcionar com os acessos rodo-ferroviários existentes, o que simplifica bastante todo este projeto”, diz Carmona Rodrigues.

Assim, “o Estado, enquanto concedente dos aeroportos, deve dedicar atenção a esta proposta que nós vamos apresentar, pelas vantagens óbvias que apresenta a todos os níveis, e que os portugueses devem entender, constituindo uma verdadeira alternativa de longo prazo ao projeto aeroportuário que a ANA-Vinci pode vir a construir na base aérea do Montijo”, adiantou ao Jornal Económico o ex-presidente da CML.

Juntamente com Carmona Rodrigues – que fez questão de afirmar que “este projeto de Alverca não tem qualquer conotação política, porque é exclusivamente técnico” –, também o especialista em planeamento estratégico de transportes, José Proença Furtado, destaca “as vantagens óbvias desta solução para Alverca, pela facilidade de operação a longo prazo, pois não será uma solução provisória como a que querem fazer no Montijo, e terá custos moderados, acessos imediatamente utilizáveis – desde logo, um acesso ferroviário que permitirá ter a funcionar um comboio dedicado que ligue a Portela a Alverca em menos de 15 minutos, e sem constrangimentos de trânsito que atrasem os passageiros”.

Esta solução de Alverca é igualmente defendida por António Gonçalves Henriques, professor convidado do Instituto Superior Técnico (IST), investigador coordenador aposentado do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e ex-presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA).

“Sob o ponto de vista ambiental, a solução de um aeroporto hub em Alverca permitiria retirar muita pressão ao aeroporto da Portela, diminuindo o ruído que há sobre Lisboa e baixando a poluição atmosférica que se faz sentir na zona da Portela-Olivais, de Alvalade e em geral sobre Lisboa, porque os aviões não teriam necessidade de voar tão baixo como atualmente fazem na aproximação ao Aeroporto Humberto Delgado”, comenta.

Montijo e o risco dos flamingos
Mas as vantagens ambientais não serão só essas. António Gonçalves Henriques considera que o projeto do aeroporto de Alverca é a todos os níveis mais consistente e permite ter mais segurança, porque “naquela zona do Tejo não há o risco de colisões com aves de grande porte, como os flamingos que voam na zona do Montijo, e que constituem problemas para os aviões comerciais que dispõem de reatores potentes”. “Em Alverca também há aves, como aliás há na Portela, mas são de porte diferente; não estamos a falar de flamingos”, diz o ex-presidente da APA.

Carmona Rodrigues considera que “quem tem responsabilidades em engenharia não pode dar-se como satisfeito com a proposta que foi feita para realizar obras na pequena base aérea do Montijo, onde a pista que se propõem construir não vai além dos 2.500 metros de comprimento, o que é inferior a todos os padrões em vigor para o setor da aviação civil e é impensável para um aeroporto que pretende servir o destino Lisboa”. “Além das conhecidas e óbvias limitações dos modos de acesso ao Montijo, implicando soluções fluviais em zonas de grandes nevoeiros, e também riscos de congestionamentos causados por eventuais bloqueios no tráfego da ponte Vasco da Gama em caso de acidentes rodoviários, o maior problema é que a pista do Montijo será sempre muito pequena e a sua infraestrutura terá sempre muitas limitações, porque a área aeroportuária do Montijo é reduzida, com apenas 190 hectares. Será inevitavelmente uma solução de curto prazo”, diz Carmona Rodrigues.

“Quando o Governo disse várias vezes que não haveria plano B caso o Montijo não avançasse, cumpre aos responsáveis pela engenharia em Portugal, e aos especialistas em aeroportos e infraestruturas de transportes, esclarecer que há alternativas, que pode haver um plano B bem melhor que a solução do Montijo, servida por ligações rodo-ferroviárias existentes, que já são utilizadas há muitos anos e que esse plano aponta para uma pista de grandes dimensões, que facilmente terá mais de quatro quilómetros de extensão e que pode ser a base para um hub aeroportuário em Portugal, comportando uma operação capaz de movimentar 75 milhões de passageiros”, refere Carmona Rodrigues.

“Temos tudo estudado, porque temos um trabalho feito por especialistas, dos melhores que há em Portugal. Ninguém poderá dizer que a solução provisória do Montijo, com uma pista que não chega aos 2.500 metros de comprimento, no lado sul do longo estuário do Tejo, é melhor que a solução definitiva de Alverca, que pode ter uma pista com mais de 4,2 quilómetros e que já dispõe de acessos por ferrovia e autoestrada”, refere José Proença Furtado.

“Sobre os custos destes projetos, ninguém me convence que a solução provisória do Montijo possa ser mais barata que um aeroporto definitivo em Alverca”, adianta José Proença Furtado, esclarecendo que, “já hoje, se alguém estiver em Sintra, ou em Alcântara, ou em outras zonas da grande Lisboa, consegue ir até Alverca em transporte ferroviário, sem as restrições do tráfego rodoviário”. “É importante que os portugueses percebam isto e entendam que o Estado pode tomar decisões, enquanto concedente dos aeroportos geridos pela ANA-Vinci, sobretudo se forem mais eficientes que a solução provisória do Montijo, com custos muito razoáveis e controlados e que verdadeiramente conseguiriam libertar tráfego de aviões ao aeroporto da Portela”, diz José Proença Furtado.

Portela ficará com 25% da atividade
“O que vamos apresentar na próxima semana não é uma proposta para um projeto de curto prazo, nem implica investimentos incomportáveis, sendo verdadeiramente uma solução eficiente para criar um hub aeroportuário na zona de Lisboa, em que Alverca terá condições efetivas para assumir 75% do tráfego, dedicando-se aos voos de longo curso e às operações de aviação comercial que implicam grande atividade de voos com destino-origem na América do Sul, África, EUA, Canadá e o resto do mundo, deixando a Portela para 25% das operações, centrada nos voos de médio curso, que são essencialmente os voos que se fazem para a Europa”, explica Carmona Rodrigues.

“Esta proposta é muito razoável, integrando tudo o que já hoje se faz ao nível da designada ‘cidade aeroportuária’, que são todas as atividade que servem e apoiam a operação do aeroporto da Portela e que, na realidade, facilmente continuarão a operar num aeroporto que funcione em Alverca, com acessos fáceis, mas que, muito provavelmente, estariam impedidas de fazer o mesmo para o Montijo, porque teriam de montar infraestruturas novas na margem sul do estuário do Tejo, implicando duplicações de custos”, adianta o ex-ministro das Obras Públicas.

Justamente, “a grande base logística da zona de Lisboa encontra-se perto de Alverca, distribuída entre a Bobadela (Loures) e o Carregado (Alenquer), o que ainda torna o aeroporto de Alverca mais relevante no transporte de longo curso”, refere por seu turno José Proença Furtado.

Nesta solução aeroportuária para Lisboa, o hub ficaria em Alverca, dedicado a voos de longo-curso, reduzindo a Portela aos voos de médio-curso, o que reduziria a poluição atmosférica e sonora em Lisboa, funcionando com eficientes interligações entre a Portela e Alverca, capazes de conjugar modos de transporte com lógicas urbana, suburbana, nacional e internacional, o que será explicado pelo especialista Fernando Nunes da Silva, professor catedrático do Instituto Superior Técnico e diretor do CESUR.

Quando à viabilidade económica do hub de Alverca, Ricardo Ferreira Reis, diretor do Centro de Estudos Aplicados da Universidade Católica Portuguesa, explica a racionalidade deste investimento, mais estruturante que o projeto temporário do Montijo. Sobre a competitividade no mercado global, Rui Vallejo Marques de Carvalho, também professor da Universidade Católica Portuguesa explicará a vantagem de ter uma solução estruturante em Alverca, em vez da pista temporária no Montijo.

O debate desta proposta pública dirigida ao concedente Estado contará, segundo Carmona Rodrigues, com a participação de Segadães Tavares, professor catedrático e especialista no projeto da ampliação da pista do aeroporto na Madeira, e também com Luís Póvoas Janeiro professor da Universidade Católica Portuguesa.

Para Carmona Rodrigues, a grande vantagem da proposta do hub de Alverca é consolidar uma infraestrutura aeroportuária estruturante na região de Lisboa, mantendo serviços que sempre foram utilizados por grandes aviões (o aeroporto de Alverca continuará a ter a área de manutenção a cargo das OGMA e funciona desde 1920, antes de terem construído o aeroporto da Portela). O hub terá capacidade para operar 75 milhões passageiros, o que significa realizar até 500 mil movimentos de aviões por ano.

Aeroporto de Alverca terá área de 1.200 hectares
Terá um perímetro aeroportuário exclusivo de 1.600 hectares, cabendo a Alverca 1.200 hectares.

Contará com pistas em Alverca com mais de 4.000 metros e 3.100 metros de comprimento e, na Portela, com pistas de 3.700 metros e 2.400 metros, o que assegurará ao hub a capacidade de movimentar 100 aviões por hora, reduzindo o horário de funcionamento da Portela das 7h00 às 23h00, de segunda a sexta-feira, e no fim de semana, a partir das 11h00.

Os terminais de passageiros do hub terão uma área de placa até 1,9 milhões de metros quadrados, podem dispor de dois terminais full service, mais um terminal low cost, funcionando com ligações entre Alverca e a Portela de 5 em 5 minutos, asseguradas por um comboio-automático (só com passageiros) em regime de tarifa free, que fará o trajeto de ligação em 12 minutos. As ligações entre Alverca e a Portela já têm todas as infraestruturas de base disponíveis. Os proponentes deste projeto defendem ainda a criação de um grande parque de estacionamento, com várias dezenas de hectares, localizado a meio do trajeto de interligação de Alverca à Portela (com paragem de acesso ao comboio automático). “Este hub de Alverca pode arrancar com um investimento de aproximadamente 300 milhões de euros e será escalável no futuro, se assim se justificar, até um modelo final, com investimento total que rondará os 1,9 mil milhões”, remata Carmona Rodrigues.

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