Mercados caem com intervenção dos EUA no mercado de obrigações

O ouro e a bitcoin acabaram por beneficiar com o anúncio do governo dos Estados Unidos da compra de obrigações. O ouro atingiu um máximo de 12 semanas. E a bitcoin entrou em bull market (subida superior a 20% face a um mínimo) ao fechar a semana com uma valorização de 22% na semana.

Mercados caem com intervenção dos EUA no mercado de obrigações
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As principais bolsas europeias fecharam a semana de 17 de agosto a 21 de agosto, no vermelho, com exceção dos índices bolsistas do Reino Unido e de Portugal, uma tendência seguida também pelos principais índices norte-americanos, com exceção do Nasdaq. Os mercados acabaram por não reagir bem à intervenção do governo norte-americano no mercado de obrigações, anunciada na quarta-feira 19 de agosto, enquanto que o ouro e a bitcoin seguiram em caminho contrário. O Tesouro dos Estados Unidos, liderado por Scott Bessent, pretende no mínimo dobrar a compra de obrigações a partir de 9 de setembro e até 4 de novembro.

Entre as principais bolsas europeias o DAX (Alemanha) quebrou 1,3%, o CAC 40 (França) desceu 1,6%, e o FTSE 100 (Reino Unido) valorizou 0,6%.

O AEX (Países Baixos) quebrou 1,2%, o IBEX 35 (Espanha) desvalorizou 0,8%, o FTSE MIB (Itália) desceu 2%, e o PSI (Portugal) avançou 0,9%.

Nos índices dos Estados Unidos o S&P 500 caiu 1,4%, o Nasdaq valorizou 1%, e o Dow Jones quebrou 0,7%.

Obrigações em máximos levam a intervenção do Tesouro norte-americano

A semana foi marcada pelo atingir de máximos, na segunda-feira, das obrigações de vários países. “A yield [juro pago pelas obrigações] das obrigações norte-americanas a 30 anos avançou na segunda-feira, 17 de agosto, para 5,31%, o que representa um máximo de 2007 e um agravamento de 40 pontos base desde o início de junho. A taxa das obrigações do Canadá com a mesma maturidade avançou para o nível mais elevado desde 2010 e no Japão estão a renovar máximos deste século. A tendência é similar no mercado europeu, com a yield das obrigações francesas a 30 anos no nível mais elevado desde 2008, refletindo a ansiedade com as negociações para o orçamento e as eleições de 2027. Na Alemanha as yields estão em máximos de 2011 e o país deve pagar a taxa mais elevada em 15 anos numa emissão de dívida sindicada que está no mercado”, assinalou a consultora BA&N na terça-feira, 18 de agosto.

Mas o anúncio na quarta-feira do Tesouro norte-americano, liderado por Scott Bessent, de aumento das compras de obrigações, nos prazos entre os 10 anos e os 30 anos, em pelo menos o dobro, trouxe alívio aos mercados. “O limite máximo passou de dois mil milhões de dólares (1,7 mil milhões de euros à taxa de câmbio atual) por operação para pelo menos quatro mil milhões de dólares (3,4 mil milhões de euros)”, anunciou.

A medida entra em vigor a 9 de setembro e “manter-se-á em vigor” durante o resto deste trimestre de refinanciamento (até 4 de novembro de 2026). “O Tesouro fornecerá mais informações sobre os tamanhos futuros das recompras no próximo Relatório Trimestral de Refinanciamento, agendado para 4 de novembro de 2026”, explicou. “Este aumento dos tamanhos das operações de recompra reflete o desejo do Tesouro de proporcionar um maior apoio à liquidez nos setores de longo prazo com cupão nominal, onde existe um forte apoio consistente por parte dos participantes do mercado, como evidenciado pelo volume significativo de ofertas de alta qualidade que o Tesouro recebe rotineiramente nas operações de recompra de longo prazo”, acrescentou.

Na sexta-feira as obrigações norte-americanas a 30 anos estavam mais baixas em relação ao início da semana e transacionavam nos 5,24%. As japonesas estavam nos 4,06%, as canadianas encontravam-se nos 4,15%, as francesas negociavam nos 4,89%, as alemãs estavam nos 3,76%, e as portuguesas encontravam-se nos 4,26%.

Ouro e bitcoin beneficiam com intervenção do Estados Unidos nas obrigações

A combinação dos máximos das obrigações, e da intervenção norte-americana, acabou por beneficiar a bitcoin e o ouro. A criptomoeda acabou por entrar em bull market (subida superior a 20% face a um mínimo). Por altura do fecho das bolsas europeias o criptoativo subia 22% na semana, para os 76.920 dólares (65.860 euros), caminhado para a maior subida semanal desde março de 2023. A bitcoin não estava acima dos 70 mil dólares (59.950 euros) desde maio, de acordo com dados do Yahoo Finance.

“A subida ganhou força após uma vaga de liquidações de posições vendedoras, que acelerou a recuperação da criptomoeda num momento de maior procura por alternativas aos ativos norte-americanos tradicionais. A par do ouro, a bitcoin também beneficiou das declarações de Scott Bessent, que esta semana admitiu reforçar as recompras de dívida pública norte-americana para aliviar a pressão sobre as obrigações de longo prazo. Embora estas operações representem uma parcela reduzida do mercado de dívida norte-americano, sinalizam uma maior disponibilidade da administração para intervir perante a subida dos custos de financiamento”, disse o analista da ActivTrades, Henrique Valente.

Ouro atingiu máximo de 12 semanas

O ouro durante a sessão de sexta-feira 21 de agosto atingiu um máximo de 12 semanas, acabando por se consolidar acima dos 4.500 dólares (3.850 euros), como referiu o CEO da ActivTrades, Ricardo Evangelista, que acrescentou que o comportamento do metal acaba por ser influenciado pela intervenção norte-americana no mercado de obrigações e também pela descida do dólar.

“O Tesouro dos Estados Unidos planeia duplicar o montante das compras de títulos de dívida com maturidades mais longas para, pelo menos, quatro mil milhões de dólares (3,4 mil milhões de euros) por operação, proporcionando apoio adicional ao mercado obrigacionista e ajudando a conter os custos de financiamento. Esta dinâmica tem sido positiva para o ouro, uma vez que taxas de rendibilidade mais baixas reduzem o custo de oportunidade de deter o metal precioso, que não paga juros, enquanto um dólar mais fraco torna a sua aquisição mais barata para os investidores que utilizam outras moedas. No entanto, o potencial para novos ganhos poderá depender das expectativas em relação à política monetária da Reserva Federal. O conflito em curso entre os Estados Unidos e o Irão e as reduzidas expectativas de uma resolução diplomática continuam a manter os preços do petróleo elevados, alimentando receios inflacionistas que reforçam os argumentos a favor de taxas de juro mais elevadas”, acrescentou.

Na semana que se inicia a 24 de agosto destaca-se a divulgação dos dados do Produto Interno Bruto (PIB) alemão a 25 de agosto. No dia 26 são conhecidos dos dados do PIB dos Estados Unidos e os inventários de crude. E a 28 de agosto conhece-se os dados do PIB do Canadá.

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