Andy Burnham quer “construir um sentido de unidade”

O novo primeiro-ministro do Reino Unido quer reconstruir o que o Brexit destruiu. Do seu ponto de vista, o país precisa de um discurso radical. Mas os críticos dizem que o caminho de Burnham é o mesmo da década de 1970. O plano a dez anos é, de qualquer modo, a sua grande aposta.

Andy Burnham quer “construir um sentido de unidade”
epa13124529 British Prime Minister, Andy Burnham during his first cabinet meeting as prime minister in 10 Downing Street, London, Britain, 21 July 2026. The UK will scrap a 5% tax on energy bills starting from October, Burnham announced, the first of several policies expected to offer households more “breathing space” with the cost of living. EPA/Chris Ratcliffe / POOL

Mitigar o custo de vida, construir habitação social, incentivar o emprego jovem e erradicar os sem-abrigo – tudo num quadro de reconstrução de um “sentido de unidade” que, aparentemente, se terá perdido algures. Não é um plano para um país sul-americano em crise, nem para uma economia asiática emergente: é para aquele que é considerado um dos países mais ricos da Europa: o Reino Unido. O seu autor é o novo primeiro-ministro britânico, Andy Burnham – um trabalhista que sucedeu, depois de inúmeras peripécias, a outro trabalhista, Keis Starmer, que sucedeu a cinco primeiros-ministros conservadores. Tudo no apertado período de uma década – o que demonstra bem a depreciação económica e social que o país sofreu às mãos de conservadores e trabalhista naquela que foi a primeira década sem suporte da União Europeia desde 1973.

Votado favoravelmente em 2016 exatamente para restaurar o “sentido de unidade” entre os britânicos – segundo a retórica dos «brexiters’ – é de algum modo constrangedor, mas não surpreendente, que, dez anos depois, tudo tenha andado para trás. Este é, portanto, o maior desafio de Andy Burnham. Como o era de Starmer, de Rishi Sunak, de Liss Truss, de Boris Johnson e de Theresa May antes dele. Todos falharam e, por isso, a maior dúvida entre os analistas – e com certeza entre os britânicos em geral – é perceberem até que ponto Burnham é diferente dos outros.

 

Um discurso radical

Pelo menos no discurso, o novo primeiro-ministro é muito diferente. A simples nomeação de um “sentido de unidade” que se perdeu é de algum modo a constatação – que nenhum dos seus pares anteriores arriscou produzir verbalmente – de que o Reino Unido, orgulhoso e autosuficiente em tudo, perdeu a parada. Os dois anos os mais recentes foram particularmente penosos para a economia, muito por via da inflação que resultou da desarticulação do setor energético – incapaz de responder às guerras que se vão sucedendo. Tudo culminou com uma notícia que talvez fosse falsa, mas que teve impacto como verdadeira: o Fundo Monetário Internacional – uma daquelas instituições de Breton Woods criadas pelos ricos para meter juízo na cabeça destemperada dos pobres – estaria a ponderar um resgate ao Reino Unido. Talvez não estivesse – também se disse na altura que o FMI estaria a fazer outro tanto em relação à França – mas o certo é que os britânicos perceberam que, ao menos do ponto de vista económico, estavam assustadoramente próximos do fim da linha. Essa linha que gregos, italianos e portugueses ultrapassam alegremente, supondo-se que desbaratando (em mulheres e vinho, segundo um especialista neerlandês) o dinheiro dos outros.

Não é, por isso, de admirar que as primeiras intervenções de Andy Burnham tenham em vista a economia. O novo primeiro-ministro do Reino Unido anunciou, no seu primeiro discurso, a implementação de um novo modelo político e económico, prometendo as maiores reformas dos últimos 40 anos. Andy Burnham criticou o rumo tomado pelo país desde a década de 1980, apontando a centralização do poder político e a desindustrialização como razões do declínio. Referia-se, sem a nomear, à baronesa Margareth Thatcher (May também é uma) e ao seu irredutível liberalismo. É contra ele que está Burnham: entre as medidas prioritárias, destacam-se a devolução de poderes às comunidades locais, o reforço do controlo público sobre serviços essenciais e a apresentação de um plano de reindustrialização nacional.

 

Reações negativas

As reações às tomadas de posição do novo primeiro-ministro foram mistas – que outra coisa haveriam de ser? – mas deixaram o “sentimento de unidade” mais longe: a acreditar na imprensa britânica, as primeiras declarações e o discurso de tomada de posse de Andy Burnham provocaram uma forte clivagem ideológica interna, dividindo opiniões entre a ala mais progressista do Partido Trabalhista e os setores moderados. Ou seja: para já, não há unidade nem sequer entre os trabalhistas. A oposição conservadora e as fações mais à direita dos próprios trabalhistas temem que a agenda de forte intervenção estatal e investimento público represente um regresso ao caos económico dos anos de 1970 – que, exatamente, serviram de esteio a Thatcher

Mais radical ainda, o líder do partido Reform UK, Nigel Farage – que surge sistematicamente na frente das sondagens sobre intenções de voto – criticou duramente as declarações de Andy Burnham, reafirmando categoricamente que o novo primeiro-ministro não tem “absolutamente nenhum mandato legítimo” para governar o Reino Unido.

Aparentemente, o melhor será Andy Burnham esquecer o “sentido de unidade” e tratar de recolocar a economia em crescimento.

 

 

Um plano a dez para uma economia deprimida

As principais propostas de Andy Burnham, ao assumir o cargo de primeiro-ministro do Reino Unido centram-se num plano económico e político de 10 anos, focado na descentralização e no maior controlo público de serviços essenciais. No quadro da economia, o controlo estatal prevê uma maior intervenção e possível nacionalização em setores como energia, água e transportes.

Haverá lugar a reformas de emergência imediatas, como o corte do IVA na eletricidade e a limitação de preços nas viagens de autocarro. Surge depois a reindustrialização: o investimento na recuperação da capacidade industrial do país – que terá efeitos benéficos na criação de emprego.

Nos impostos, estão previstas alterações fiscais progressivas no imposto sobre os rendimentos e taxas diferenciadas para comércio e restauração. É de recordar que, em determinada altura da sua vida política, Burnham era adepto da criação de um imposto especial sobre os muito ricos, mas afastou a criação de um imposto sobre a riqueza (wealth tax) no curto prazo logo após assumir o cargo de primeiro-ministro.

Na área social, é a habitação que mais motiva o novo primeiro-ministro, através do lançamento do maior programa de construção de habitações públicas dos últimos 40 anos. Os sem-abrigo merecem-lhe atenção especial e são uma prioridade máxima – mas também o eram em Manchester, onde foi autarca, não tendo sido bem-sucedido: quando foi eleito presidente da câmara da Grande Manchester em 2017, prometeu erradicar totalmente os sem-abrigo até ao ano de 2020, mas não conseguiu cumprir essa meta.

Na educação, Burnham pretende uma reforma estrutural profunda do sistema de ensino britânico. E finalmente a descentralização política, com a criação daquilo que já é conhecido como o ‘Número 10 do Norte’: uma base oficial de operações do governo deslocalizada para Manchester para retirar o monopólio político a Londres. Que é o mesmo que dizer autonomia regional: a transferência de poderes económicos e decisórios para fora da capital também faz parte dos seus planos.

 

Os números do desafio

O PIB real do Reino Unido cresceu 0,6% no primeiro trimestre, um resultado que superou o ligeiro crescimento de 0,1% registado no final de 2025 e foi impulsionado pelo setor de serviços (mais 0,8%). A economia fechou o ano anterior com uma expansão revista de 1,3%. Em junho passado, o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) recuou para 2,6% (abaixo dos 2,8% registados em maio). Este alívio deveu-se principalmente à descida dos combustíveis (sobretudo o gasóleo) e à desaceleração da inflação dos bens alimentares (1,7%). Apesar da queda, a inflação mantém-se ainda ligeiramente acima da meta de 2% definida pelo banco central.

A taxa de desemprego fixou-se em 4,9% no segundo trimestre do ano, com o mercado de trabalho a demonstrar resiliência, embora denote alguma fragilidade subjacente no emprego jovem. Os salários médios (excluindo bónus) registaram um aumento anual de 3,4%, estabilizando o poder de compra face à inflação atual. Quanto à política monetária, a taxa de juro de referência do Banco de Inglaterra manteve-se nos 3,75% na sua reunião mais recente, mas os investidores mantêm cautela face à volatilidade dos preços da energia decorrente de tensões geopolíticas globais.

No ano fiscal anterior, o défice fixou-se em 4,3% do PIB, o que representou, apesar de tão alto, o nível mais baixo desde a pandemia de Covid. O défice público deverá encolher para 3,6% do PIB no final do ano em curso.

O Reino Unido regista um saldo fortemente negativo na balança de bens: no primeiro trimestre o défice comercial de bens fixou-se em 60,9 mil milhões de libras – o que representa cerca de 7,5% do PIB. O país depende fortemente da importação de automóveis, maquinaria, produtos químicos e bens de consumo, especialmente oriundos da União Europeia. O comércio de serviços amortece as contas externas britânicas: a exportação de serviços (financeiros, jurídicos, tecnológicos e de consultoria) registou no primeiro trimestre um superávit de 51,8 mil milhões de libras, que quase compensa o comércio de bens.

 

‘Rei do Norte’ quer retirar todo o poder a Londres

Apelidado frequentemente de ‘King of the North’, o perfil de Andy Burnham combina uma postura de proximidade popular com foco no primado dos investimentos estatais. Foi isso que praticou em 2017, quando abandonou o parlamento em Londres para se tornar o primeiro ‘mayor’ eleito da Grande Manchester. Ganhou notoriedade em 2020 ao enfrentar publicamente o governo de Boris Johnson, exigindo mais apoios financeiros para os trabalhadores do Norte durante os confinamentos da pandemia. Já antes disso tinha sido ministro por duas vezes (da Cultura e da Saúde) e pedido por duas vezes a corrida à liderança dos trabalhistas – para Ed Miliband, que será o ’seu’ ministro dos Negócios Estrangeiros, e para Jeremy Corbyn. Burnham define-se como pertencente à ala de centro-esquerda tradicional e assume a defesa intransigente do serviço público de saúde, o controlo público dos transportes e da energia, a reindustrialização e transferência de poderes de Londres para as regiões. Quanto ao mais, gosta de fazer de conta que é DJ, toca guitarra (parece que é ou foi um amador promissor) prefere Indie e Rock de Manchester e entre as suas bandas favoritas destacam-se os Oasis, The Stone Roses, The Smiths e New Order. Aprecia o ambiente social dos pubs tradicionais e já declarou o seu gosto por cervejas do tipo ‘ale’. Demonstra orgulho na gastronomia e no estilo de vida do norte, preferindo marcas, roupa e hábitos associados à classe trabalhadora daquela região e rejeitando o estilo mais elitista de Westminster.

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