Laszlo de Oliveira Lomu

A Grã-Bretanha que perdemos: dez anos de Brexit

As nações mudam, adaptam-se e, por vezes, repensam as escolhas que fazem. O Brexit foi uma decisão democrática, mas a democracia não se mede apenas pelo direito de escolha. Mede-se, também, pela vontade de analisar honestamente as consequências dessas escolhas.

Em meados da década de 1990, a primeira linha de todas as cartas de apresentação que enviava a potenciais universidades e entidades empregadoras no Reino Unido era exatamente a mesma: “Sou um cidadão da União Europeia atualmente a viver em…”.

Hoje, esta frase soa a arqueologia. No entanto, na altura, era muito simplesmente uma afirmação. Desprovida de qualquer significado político e que não carecia de explicação. Expressava uma realidade comum a milhões de europeus da minha geração: a possibilidade de estudar, trabalhar e construir uma vida além-fronteiras, dentro de uma comunidade de nações democráticas.

Foi esta a Grã-Bretanha que me acolheu.

O Reino Unido dos anos 90 proporcionou-me educação gratuita e um ambiente extraordinário de abertura intelectual. As suas universidades atraíram estudantes e académicos de toda a Europa e do mundo. Londres começa a afirmar-se como a capital financeira de uma economia globalizada. A cultura britânica projetava confiança, curiosidade e a capacidade de absorver mudanças em vez de as recear.

O país não era perfeito. Havia desigualdade, problemas sociais por resolver e comunidades que sofriam há décadas com o declínio industrial. Mas havia a sensação de que o futuro da Grã-Bretanha era fazer parte do mundo e não afastar-se dele.

A Grã-Bretanha que deixei no início dos anos 2000 era um país que entendia a sua identidade europeia não como uma limitação, mas como uma extensão da sua própria influência.

Dez anos após o referendo do Brexit, é essa a Grã-Bretanha que tenho dificuldade em reconhecer.

A decisão de 23 de junho de 2016 foi, sem dúvida, democrática. Milhões de pessoas votaram por razões que merecem ser compreendidas, não descartadas. Muitos sentiam-se ignorados pelas mudanças políticas e económicas que transformaram as suas comunidades. Queriam maior controlo sobre as decisões que afetavam as suas vidas.

Mas uma decisão democrática pode, apesar de tudo, ter consequências prejudiciais. A democracia determina quem decide, mas não garante que todas as decisões atinjam o resultado prometido.

O Brexit foi apresentado como uma restauração da soberania e do controlo. Em vez disso, e ao longo de uma década, tem sido o espelho do que acontece quando um país escolhe afastar-se da sua parceria económica e política mais próxima sem uma alternativa clara.

Caminhar na direção oposta

As consequências económicas são agora cada vez mais difíceis de ignorar.

O próprio Office for Budget Responsibility do Reino Unido estima que o Brexit reduzirá a produtividade a longo prazo e a produção económica em cerca de 4%, comparando com a sua permanência na União Europeia. Isto não é um choque temporário, como uma crise financeira ou uma pandemia. Representa uma redução do potencial económico de forma permanente, provocada em grande parte pelo aumento das barreiras ao comércio, ao investimento e à mobilidade laboral.

As consequências humanas são visíveis nos padrões de vida. O PIB real per capita pouco cresceu desde 2019, o que faz deste um dos mais longos períodos de estagnação da história moderna britânica. Para as gerações mais jovens, em particular, a expectativa de que cada geração viverá melhor do que a anterior é cada vez mais incerta.

Talvez o que melhor ilustra esta mudança, em termos simbólicos, seja aquilo que mudou na relação económica entre a Grã-Bretanha e a Europa de Leste. Previsões baseadas em comparações de poder de compra sugerem que o nível médio de vida na Polónia poderá ultrapassar o do Reino Unido na próxima década.

O rigor desta estimativa é o que menos importa. Importa, sim, a mensagem mais ampla que dela podemos extrair. Um país que antes atraía milhões de europeus à procura de oportunidades enfrenta hoje a possibilidade de a convergência económica ter caminhado na direção oposta. Para muitos polacos que chegaram ao Reino Unido depois de o seu país ter aderido à União Europeia, em 2004, isto seria inimaginável. A direção das suas aspirações era clara: a Grã-Bretanha representava uma oportunidade. Atualmente, a geografia económica da Europa está a mudar, e o Brexit faz parte dessa história.

Nada disto significa que o Brexit, por si só, tenha criado as dificuldades económicas que o Reino Unido enfrenta. O declínio de algumas regiões industriais, o fraco crescimento da produtividade e a desigualdade regional já existiam muito antes do referendo. Mas o Brexit tornou estes desafios mais difíceis de gerir. Consumiu energia política e capacidade administrativa precisamente quando a Grã-Bretanha precisava de uma estratégia de longo prazo para investimento, competências, infraestruturas e renovação industrial.

A ironia do Brexit

A promessa era “retomar o controlo”. A realidade tem sido, amiúde, gerir as consequências da saída da União. Situação particularmente gritante nos serviços públicos britânicos. O Serviço Nacional de Saúde continua a ser uma das instituições mais valorizadas do país, mas enfrenta uma pressão sem precedentes.

As listas de espera mantêm-se acima de sete milhões de tratamentos, enquanto o acesso à medicina dentária do SNS se deteriorou de tal forma que os inquéritos identificam um número crescente de pessoas a tentar gerir problemas de saúde oral por si próprias, ou porque os cuidados profissionais não estão disponíveis ou porque são financeiramente incomportáveis.

Mais uma vez, o Brexit não é a única explicação. Anos de austeridade, pressões demográficas e as consequências da pandemia também tiveram aqui um papel importante. Mas a atenção política dada ao Brexit reduziu a margem de manobra para abordar muitos dos problemas internos que tinham contribuído para aumentar o descontentamento popular.

Esta pode ser a maior ironia de uma década de Brexit. O referendo foi parcialmente motivado pela convicção de que a Grã-Bretanha tinha perdido o controlo sobre o seu futuro. No entanto, muitas das condições que geraram esse sentimento, insegurança económica, desigualdade regional e quebra de confiança nas instituições, permanecem por resolver.

O Brexit mudou a relação do Reino Unido com a Europa, mas isso não resolveu as razões pelas quais a Grã-Bretanha sentiu que tinha de sair.

As consequências políticas do Brexit poderão, em última análise, revelar-se ainda mais significativas do que os seus custos económicos. O referendo foi apresentado como a reposição do controlo democrático: um momento em que a Grã-Bretanha recuperaria a autoridade sobre as suas leis, fronteiras e futuro. Porém, dez anos depois, a questão política central permanece sem resposta: terá o Brexit resolvido o descontentamento que esteve na sua origem?

Em muitos aspetos, conseguiu o oposto. Transformou as ansiedades existentes numa característica permanente da política britânica.

O descontentamento que alimentou o voto “Leave” era real. Muitas comunidades sentiram-se abandonadas pelas mudanças económicas, desligadas dos decisores políticos e desacreditadas sobre os benefícios da globalização. Essas preocupações mereciam atenção, mas o Brexit não foi mais do que uma solução constitucional para problemas fundamentalmente económicos e sociais.

O resultado tem sido uma paisagem política cada vez mais moldada pela frustração e menos pela confiança.

A ascensão de Nigel Farage e do Reform UK reflete esta realidade. O Brexit não pôs fim aos debates sobre soberania, imigração ou identidade nacional, intensificou-os. Um movimento que prometia restaurar o controlo ajudou a criar uma política onde as próprias instituições democráticas são cada vez mais retratadas como obstáculos e não como fundamentais para a democracia. Este será, talvez, o maior paradoxo político do Brexit: uma campanha travada em nome da soberania que apenas aprofundou o sentimento de incerteza nacional.

A posição internacional do Reino Unido também mudou. Durante décadas, o Reino Unido beneficiou de uma vantagem estratégica única: era, simultaneamente, um dos aliados mais próximos dos Estados Unidos e um dos membros mais influentes da União Europeia (UE). Esses papéis reforçavam-se mutuamente. A Grã-Bretanha moldou as decisões europeias enquanto usava a sua posição europeia para reforçar a sua influência global.

Fora da UE, o Reino Unido continua a ser uma importante potência militar, diplomática e económica. Mas é inevitável que tenha menos influência sobre as regras que regem a sua principal relação comercial. O país que outrora ajudou a moldar o futuro da Europa agora negocia com um bloco sem ter qualquer papel na sua tomada de decisão.

Os custos da desunião

A ironia é que a UE não colapsou com a saída do Reino Unido. Previa-se uma vaga de “saídas”. Nada de mais errado. O Brexit passou a ser um exemplo dos custos da desunião numa altura em que a cooperação era cada vez mais necessária.

A pandemia, a guerra na Ucrânia e a crise energética tornaram evidente que os países europeus ganham influência quando agem em conjunto. A União Europeia continua imperfeita, mas a soberania partilhada tem-se mostrado, cada vez mais, uma fonte de força e não de fraqueza.

Esta é uma lição particularmente relevante para Portugal.

A nossa jornada democrática tem estado intimamente ligada à Europa. A adesão à UE não diminuiu a identidade ou a soberania portuguesa. Expandiu as nossas oportunidades, fortaleceu as nossas instituições e permitiu que um país de média dimensão exercesse influência muito além do seu peso individual.

O mesmo se pode dizer da Grã-Bretanha.

A integração europeia nunca pretendeu substituir a identidade nacional. Tratava-se de reconhecer que, no mundo moderno, a soberania é muitas vezes mais eficaz quando exercida coletivamente.

Portugal deve refletir atentamente sobre as forças políticas que emergem quando a confiança dá lugar ao descontentamento. Se Nigel Farage e o Reform UK procuram transformar a insatisfação da sociedade britânica numa política de exclusão e confronto, em Portugal, André Ventura e o Chega também procuram capitalizar esse descontentamento – uma prova de que existem dinâmicas idênticas e que estas não se limitam à Grã-Bretanha.

A lição do Brexit não é apenas sobre a saída da União Europeia, mas também sobre o quão fácil é canalizar a frustração democrática para movimentos que prometem respostas simples para problemas complexos.

A consequência mais pesada do Brexit talvez recaia agora sobre aqueles que não votaram “sim”. Os jovens britânicos – que eram demasiado jovens para votar em 2016 – herdaram um país que não pertence à União Europeia e, consequentemente, com menos oportunidades para estudar, trabalhar e viver na Europa. As sondagens mostram, consistentemente, que as gerações mais jovens são mais favoráveis a uma relação próxima com a Europa do que eleitores mais velhos. Para eles, a cooperação europeia não é um projeto político abstrato. É simplesmente a liberdade que as gerações anteriores viveram.

Quando recordo as tais cartas de apresentação dos anos 90, percebo que a frase “sou um cidadão da União Europeia” era muito mais do que um mero estatuto legal. Descrevia um mundo em que ser cidadão de um país europeu e ser europeu eram identidades complementares. Um mundo em que a Grã-Bretanha não via qualquer contradição entre ser britânico e ser europeu. Em que a Grã-Bretanha, não sendo perfeita, era confiante o suficiente para abraçar a abertura.

Dez anos depois do referendo, a Grã-Bretanha continua a ser um grande país, com excelentes universidades, instituições científicas, influência cultural e tradições democráticas. O seu futuro não está predefinido. As nações mudam, adaptam-se e, por vezes, repensam as escolhas que fazem.

Mas os aniversários convidam à reflexão. O Brexit foi uma decisão democrática, mas a democracia não se mede apenas pelo direito de escolha. Mede-se, também, pela vontade de analisar honestamente as consequências dessas escolhas.

Para aqueles que vivenciaram a Grã-Bretanha que acolheu a Europa, o que verdadeiramente nos entristece, mais do que a saída do Reino Unido da União Europeia, é o facto de um país que outrora amplificou a sua influência através de uma parceria ter escolhido a separação no exato momento em que a cooperação era mais necessária.

A Grã-Bretanha que recordo ensinou-me que a abertura é força, não fraqueza.

Dez anos depois, esta continua a ser a maior lição do Brexit. A Grã-Bretanha não se privou apenas do acesso a uma instituição política. Privou-se de uma relação que a ajudou a definir o seu lugar no mundo.

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